Libertadores

O Furacão confiou, lutou e ganhou um épico de Libertadores que carregará para sempre

Confiança. Um elemento que pode ser um tanto quanto abstrato, mas faz uma diferença gigantesca no futebol. O Atlético Paranaense, aparentemente, vinha com seu nível de confiança baixíssimo. A derrota na final do estadual, o atropelamento em casa diante do San Lorenzo, a péssima estreia no Brasileirão. Tudo parecia contra o Furacão, inclusive o próprio Furacão. Mas uma chance a mais pode fazer a diferença. Uma oportunidade derradeira para virar o jogo. E, no futebol, 90 minutos costumam ser suficientes para que o inesperado aconteça. Assim, os rubro-negros confiaram. Encararam a Universidad Católica em Santiago. Não desistiram diante da derrota parcial. E buscaram uma classificação épica às oitavas de final da Copa Libertadores. Precisando apenas fazer a sua parte, os atleticanos conseguiram, lutando e revertendo o quadro no segundo tempo. O triunfo por 3 a 2 entra em uma seleta lista de partidas mais inesquecíveis aos torcedores da Baixada.

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Sem Thiago Heleno, suspenso, e o lesionado Felipe Gedoz, o Atlético precisaria se adaptar ao desafio. O plano de jogo nos primeiros minutos não se alterou tanto em relação a outras exibições na Libertadores. Era um time precavido, que se fechava a cada subida dos adversários. Mas também não deixava de atacar, especialmente após suportar a pressão inicial. Sua necessidade era clara. O time buscava os lados de campo e criou uma ótima chance aos 13 minutos, em chute de Sidcley que a defesa conseguiu bloquear na pequena área. A Católica tinha mais posse de bola. Porém, sem encontrar muitas brechas para arrematar. Trabalhava os passes na intermediária, com o adversário bem postado.

Assim, o jogo só começou a se abrir depois dos 30 minutos. O Atlético martelou mais uma vez com Nikão, em bomba que parou em ótima defesa de Christopher Toselli. Pouco depois, os chilenos conseguiram abrir o placar. Diego Buonanotte ajeitou para Santiago Silva na entrada da área. Bateu de bico mesmo, sem dar tempo de reação à defesa, mandando a bola no canto do goleiro Weverton. Neste momento, com a vitória parcial do Flamengo, o empate interessava ao Furacão. E a tentativa de mudar o panorama não deu certo antes do intervalo.

No início da segunda etapa, a Católica ficou a um triz de ampliar a diferença. O chute de José Pedro Fuenzalida desviou em Wanderson e bateu no travessão. Sorte que seguiria ao lado dos rubro-negros na sequência do confronto. Com o Atlético tentando se impor mais no ataque, Paulo Autuori fez a primeira de suas cirúrgicas substituições aos 17 minutos, com Carlos Alberto no lugar de Lucho González, renovando as energias na criação. Depois, seria a vez de apostar em Eduardo da Silva no lugar de Grafite como homem de referência. E, aos 29, completou sua trinca de alterações com Douglas Coutinho suplantando Pablo. Faltavam 15 minutos, mais acréscimos. Mal sabiam os paranaenses que todas as ferramentas para o milagre já estavam em campo.

O empate saiu aos 30. Carlos Alberto começou chamando a responsabilidade e fez grande jogada, se livrando da marcação antes de cruzar. Encontrou Eduardo da Silva pronto para fuzilar de cabeça. Naquele momento, ainda assim, com o empate do San Lorenzo diante do Flamengo, os paranaenses iam caindo na fase de grupos. Só que a virada não demorou a se concretizar. Recebendo de Nikão, Douglas Coutinho se lançou em velocidade para o contra-ataque. Bateu por entre as pernas de Toselli e tranquilizou um pouco mais os seus torcedores.

Aquele gol, entretanto, desencadearia minutos de pura loucura em Santiago. Ricardo Noir jogou um balde de gelo sobre os visitantes ao anotar um golaço, desferindo um preciso chute de fora da área no ângulo de Weverton. Hora de se desesperar? Não quando se conta com um jogador tarimbado como Carlos Alberto. Jonathan, de grandes atuações na Libertadores, fez toda a jogada pelo lado direito. Encontrou o meia pronto para matar na entrada da área. E ele encontrou as redes, reforçando sua predestinação. Em cinco minutos, três gols. Aos 42, o Furacão assumia a vantagem para não largar mais. Mas ainda havia tempo. O time precisou conter a pressão até os 50, com direito à expulsão de Wanderson e uma bola perigosíssima travada por Carlos Alberto. O apito final representou a libertação dos rubro-negros. O sinal para caminharem em frente, rumo aos mata-matas. E que, com a virada do San Lorenzo, derrubou o Flamengo.

Ao longo desta Libertadores, o Atlético Paranaense viveu altos e baixos. É um time que muitas vezes joga no seu campo de defesa, com um estilo pragmático. De qualquer maneira, já demonstrou uma capacidade imensa de superar os momentos mais difíceis. Foi assim nas fases preliminares, ao superar Millonarios e Deportivo Capiatá. Algo que se repetiu na fase de grupos. De virtual classificado após os primeiros jogos, se colocou como potencial eliminado diante do show do San Lorenzo na Arena da Baixada. Mas restava uma esperança, à qual os paranaenses se agarraram e avançaram rumo às oitavas.

O Atlético Paranaense tem suas limitações, assim como Paulo Autuori. Mas a experiência falou mais alto nesta quarta. As escolhas certas e alguns dos jogadores mais rodados fizeram uma diferença abissal para os rubro-negros. Ao longo dos últimos anos, a Libertadores deixou claro que os times que chegam mais longe não são necessariamente os mais ofensivos, os que fazem as partidas mais impressionantes. São, sim, aqueles que sabem jogá-la. E, por enquanto, está mais do que provada a sapiência dos paranaenses para lidar com a copa. O desafio aumenta nos mata-matas, mas o Furacão já consegue bastante ao sobreviver em um grupo tão parelho, de camisas tão pesada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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