Libertadores

O América-MG provoca um milagre na Libertadores, com uma virada inacreditável sobre o Guaraní e a classificação nos pênaltis

Derrotado por 1 a 0 na ida, o América tomou dois gols logo de cara em Assunção, mas fez três no segundo tempo e, com a virada nos acréscimos, buscou a classificação nos penais

O América Mineiro conseguiu protagonizar uma das classificações mais milagrosas já vistas na Libertadores, logo em sua estreia na competição continental. E tudo parecia conspirar contra o Coelho, inclusive as debilidades do próprio time. A ida contra o Guaraní já tinha sido amarga, com a derrota por 1 a 0 num jogo em que os mineiros amassavam os visitantes no Independência e cederam o resultado no fim. Já no Defensores del Chaco, os paraguaios abriram dois gols de vantagem com apenas 15 minutos de jogo, num primeiro tempo péssimo dos americanos. A história começou a mudar na segunda etapa, quando o América voltou com outra atitude e contou com os substitutos para ressuscitar. Descontou aos 14, empatou aos 29 e arrancou a inacreditável virada por 3 a 2 aos 47. Então, a definição aconteceria nos pênaltis. Ela também seria cheia de emoção, com direito a virada, para o Coelho vencer por 5 a 4 nas alternadas e seguir firme à terceira fase classificatória do torneio. Nenhum torcedor americano vai se esquecer dessa noite.

O América tentou se colocar no campo de ataque durante os primeiros minutos, mas os espaços deixados provocaram um desastre precoce. Aos 11 minutos, Guillermo Benítez fez uma jogadaça individual, ao enfileirar a marcação e invadir a área, até ser derrubado por Éder. Pênalti, que Fernando Fernández cobrou bem e converteu, mesmo que Jaílson tenha acertado o canto. Dois minutos depois, o Cacique ampliou. Depois de uma cobrança de escanteio, Marcos Cáceres subiu no meio da área sem empecilhos e mandou a cabeçada no ângulo. Nesse momento, o Coelho precisava de três gols.

O América tinha ampla posse de bola, mas, como na ida, pouca penetração. Era uma equipe lenta e bastante previsível. O Guaraní era mais direto e fazia seu jogo. Conseguia amarrar os adversários na defesa e também gastava tempo. A sequência do primeiro tempo ficou mais pegada, com muitos cartões distribuídos. Faltava mesmo um sinal de vida do Coelho, que só esboçou algo a mais depois dos 40, quando Patric bateu para fora e Marlon exigiu a primeira defesa do goleiro Devis Vásquez. Antes do intervalo, Marquinhos Santos já trocou Felipe Azevedo por Pedrinho – uma escolha que se provaria essencial na etapa final.

O América voltou para o segundo tempo com mais atitude, enquanto o Guaraní se contentava com a retranca. Patric cobrou uma falta lambendo a trave e, pouco depois, Wellington Paulista seria flagrado em impedimento em lance de perigo. Faltava um pouco mais de acerto nas jogadas, mas elas finalmente saíam. Aos 14 minutos, enfim, os mineiros descontaram. Numa falta cobrada para a área, a bola repicou várias vezes, até que Wellington Paulista se esticasse para marcar. O Coelho ressuscitava.

O gol deu ainda mais ânimo para o América, que permaneceu em cima. O Guaraní dava espaços na área que ainda não tinham sido vistos nos três tempos anteriores do confronto. O Coelho tinha mais presença ofensiva e neutralizou a tentativa de resposta do Cacique. Aos 30, o empate saiu, com dedo do técnico Marquinhos Santos. Logo após sair do banco, Everaldo fez grande jogada pela direita e cruzou na medida para a cabeçada fatal de Wellington Paulista. Quase Patric arranjou a virada na sequência, em batida para fora. O duelo ficava bastante indefinido.

O América permaneceu martelando. Matheusinho mandaria um tiro para fora aos 36 e a equipe era claramente superior. Contudo, o Guaraní também sabia amarrar o jogo e uma confusão aos 40 tentou esfriar os mineiros. O tempo passava e o Coelho carecia de uma pressão mais contínua. Wellington Paulista reapareceu, mas parou em Vásquez aos 43. Já nos acréscimos, o gol da virada surgiu aos 47. Em novo cruzamento de Everaldo pela direita, Vásquez defendeu o primeiro chute de Pedrinho. O rebote voltou com Pedrinho, que mandou uma pancada. A bola bateu no travessão, no goleiro e entrou. Ainda houve uma conferência entre árbitro e bandeira, sem VAR, mas o tento seria corretamente validado. O milagre estava feito para forçar os pênaltis.

As duas equipes começaram os pênaltis balançando as redes. Wilson Ayala, Wellington Paulista, Walter Ortíz, Iago Maidana e Ángel Benítez fizeram. O América errou sua terceira cobrança, quando Henrique Almeida mandou no travessão. E o azar pareceu maior no tiro seguinte, de Sergio Bareiro, que Jaílson pegou e viu a bola ganhar um efeito que o traiu, entrando mansa do outro lado. Índio Ramírez manteve as esperanças do Coelho. Até que a sorte começasse a mudar quando o goleiro Vásquez assumiu a responsabilidade no quinto chute do Guaraní e carimbou a trave. Rodolfo, então, marcou e forçou as alternadas. Rodi Ferreira isolou a sexta batida do Guaraní, mas Patric também facilitou a defesa de Vásquez na sequência. Por fim, Jaílson se consagrou como herói. Defendeu o arremate de Roberto Fernández e permitiu que Everaldo fechasse a vitória em 5 a 4, com uma pancada que beijou o travessão antes de entrar.

A classificação entra para os anais do América Mineiro. O Coelho merecia melhor sorte no Independência, quando foi claramente superior, mas cedeu a derrota por 1 a 0 com um contragolpe no fim. Já em Assunção, fica o caráter demonstrado pela equipe, para reverter um primeiro tempo péssimo em segundo tempo memorável – e isso sem falar da própria virada nos pênaltis. A Libertadores já faz parte da riquíssima história americana. Agora resta aguardar o duelo com Universitario ou Barcelona para brigar pela estreia na fase de grupos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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