Libertadores

Maurício Noriega: Libertadores tem as semifinais mais imprevisíveis dos últimos tempos

Ninguém sobra entre os quatro postulantes ao título; todos têm muitas virtudes e muitos defeitos

Poucas vezes a disputa pela taça mais cobiçada do futebol sul-americano esteve tão aberta. A primeira etapa das semifinais da Copa Libertadores da América mostrou que não há favoritos para chegar à decisão. Entre virtudes e defeitos, prevalece o equilíbrio.

Foram jogos muito diferentes no Maracanã e na Bombonera. Exuberância e carência. Quatro gols em um e nada no outro. Porque os quatro times são muito diferentes. São ideias e execuções distintas de futebol.

O duelo entre Fluminense e Inter foi muito mais agradável. O Flu é um time leve e solto, mas que para ser assim é que mais se expõe ao risco entre os quatro semifinalistas. Embora seja o que chegue com mais força ao ataque, com quatro atacantes muito bons (Arias, John Kennedy, Keno e Cano), o time carioca mostrou que está exposto em sua última linha defensiva. Técnicos e fortes, Nino e Felipe Mello não conseguem dar o suporte ideal em velocidade de cobertura a Samuel Xavier e Marcelo. Um artista da bola, Marcelo deixa a desejar em combatividade e marcação, o que exige de Keno uma entrega física absurda na recomposição.

O Inter soube machucar o Fluminense pelos lados do campo. Além de ter melhorado muito sua distribuição tática, com os jogadores atuando mais próximos, trocando mais passes. Alan Patrick é muito técnico e inteligente e com a condição física melhor que adquiriu ao longo da temporada transformou o time de Coudet. Mas há erros que costumam custar caro na saída de bola e no posicionamento dos zagueiros em bolas cruzadas pelo alto.

A volta no Beira-Rio promete mais emoção. O time de Diniz não costuma mudar sua postura e ataca bastante fora de casa. O Inter ganhou moral com o empate no Maracanã, porque poderia ter vencido, mas esbarrou em Cano e sua incrível eficiência. Há dois goleiros decisivos e uma penca de atletas experientes nos dois times. Alerta de mais um grande jogo ligado.

Na Bombonera vimos um duelo muito diferente. Mais amarrado e nada exuberante. Boca e Palmeiras são econômicos para fazer e sofrer gols. O time argentino em casa tem uma transformadora energia vital que chega das arquibancadas. Ainda que não seja um dos grandes elencos de sua história, o time xeneize joga sempre vitaminado. Qualquer equipe que tenha Romero, Barco e Cavani precisa ser respeitada. Vestido por uma camisa mágica e empurrado pela mística de seis taças continentais, o Boca pressionou o Palmeiras. Mas esbarrou num time resiliente e de poder mental sem igual. Respeitado e temido pelos argentinos, o Palmeiras soube sofrer, para usar um chavão moderno.

Decidir em casa poderia ser um fator de grande entusiasmo para sua torcida se o Palmeiras estivesse azeitado como no ano passado. Mas o grupo de Abel Ferreira está muito próximo de seu limite técnico. O desabafo grosseiro do excelente treinador português após o jogo foi um recado direto à direção do clube, tendo como intermediários os jornalistas que levaram algumas patadas. Abel tem tirado não leite, mas mel de pedra. Mas não é mágico.

O Palmeiras é o time que mais se enfraqueceu com perdas de jogadores e praticamente não se reforçou. O tanque fica sempre na reserva e não aparece posto para abastecer. Sem Dudu, o time perdeu sua grande característica ofensiva: os movimentos coordenados para abrir a defesa rival. Arthur na esquerda joga torto, e Mayke, embora seja um bom ala ofensivo, não é atacante. Faltam recursos de atacante. Sobra para Rony lutar contra caras bem mais altos e fortes e Veiga tirar algo da cartola. Mas há uma solidez na defesa alviverde que impressiona. Weverthon, Gómez e Murillo sustentam o time e seguram pressões com incrível naturalidade.

O problema do Palmeiras reside na seca de gols, potencializada pelo banco fraco, quase protocolar. Apostar em jovens talentosos é muito pouco para um time com tantos recursos financeiros e uma etapa vencedora sem igual na história.

Com o Boca e caras como Barco e Cavani será preciso ser fatal se o time seguir pouco inspirado na criação. Alerta de muita tensão ligado.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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