Libertadores

Libertadores acessível, mas não morta: passeio do Junior no Rio mantém a chama acesa

Como sempre, as equipes brasileiras chegam como favoritas na Libertadores; no entanto, primeiro embate no Brasil mostrou que ainda há esperança para outros países

O futebol brasileiro é, de novo, o grande favorito para dominar as fases finais da Copa Libertadores por todos os motivos que o torcedor sul-americano está cansado de saber. As seis últimas finais tiveram Brasil, Boca ou River, clichê daquele tão escancarado que faz parecer soberba, mas é só a enfadonha realidade. Dito isso, o futebol, para variar, nunca se escora por completo nas obviedades, e o Junior Barranquilla deu um passeio de meio tempo no Botafogo para chacoalhar, com a vistosa atuação inicial no Rio, essas primeiras noites do maior torneio de todos.

Dos sete times nacionais na fase de grupos, só uma estreia estava marcada para acontecer em terras brasileiras, e se deu logo com o quadro visitante emplacando o mais rápido 3 a 0 de um forasteiro por aqui. O que jogaram Fuentes, Caicedo, Chará, José Enamorado e Bacca nas chegadas à frente diante do Estádio Nilton Santos é para um museu do futebol colombiano guardar com o brilho dos grandes momentos, num cantinho de destaque onde reina o totó de Valderrama, Rincón, Asprilla e Valencia em Buenos Aires há 30 anos. Na grama sintética abraçada por ingressos esgotados, impressionou a leveza do time branco para acertar os ataques contra o alvinegro. As passadas, o domínio de bola e as escolhas para limpar os lances passavam voando pelo anfitrião, entregue ao contra-ataque adversário.

O pênalti que abre o placar é o controverso de sempre, pode dar, pode não dar, abriu demais, abriu o normal, movimento natural, gesto exagerado, o ombro, o cotovelo, a direção, tanto faz, porque não entraremos na loucura de debater o que se pode fazer com o braço (ou arrancá-lo) em uma área de defesa no ritmo de uma cobertura de jogo de elite. Mas não justifica o baixo nível botafoguense na sequência. A zaga pesada ficou exposta, os laterais defenderam a área muito mal, o meio nem cuidou da bola, nem foi firme na marcação. Fábio Matias mexeu, o time pareceu competir melhor na volta do vestiário, mas era só efeito por inércia – antes estava feio demais. Sem boas combinações para criar chances para valer, o placar ficou no 3 a 1 de antes do intervalo, no fim das contas um placar justo para a dificuldade carioca em fazer valer seu jogo. O time foi empilhando gente no ataque e chegou a terminar com Tiquinho podendo ser abastecido por Júnior Santos, Romero, Luiz Henrique e Jeffinho. Não deu em muito. Com Savarino, antes, também não.

O Botafogo agora terá Artur Jorge, técnico português que chega em boa hora para arranjar o time na sequência continental, mas tem também John Textor, que ao começar o jogo estava na polícia prometendo entregar provas de sua cruzada para firmar as últimas edições de Campeonato Brasileiro como disputas manipuladas. Temos todo interesse do mundo em saber se nosso jogo tem sido resolvido por meios nada esportivos, mas a postura do dono da Estrela Solitária, há meses resmungando contra a autenticidade dos resultados na esteira da queda de seu time, é por enquanto bastante fora do tom e muito acusatória para quem não mostra nada de concreto. A citação à inteligência artificial como fonte que avalia a postura suspeita de jogadores profissionais é até aqui uma tentativa de drible da vaca em nossos olhos. Poderia se esforçar um pouco para dar credibilidade ao assunto de interesse coletivo, mas prefere vestir a empáfia do digno salvador da pátria que chegou para ensinar a ralé. Veremos.

Menos mal para o quadro botafoguense que os vizinhos também não têm tantos motivos para sorrir por enquanto. O Flamengo nem perdeu, mas se frustrou em Bogotá ao sofrer o empate numa saída mal dominada e perder dois pontos frente a tamanho controle na altitude (Arrascaeta, que coisa, corta caminhos mesmo morro acima). Tite deu consistência e firmeza ao time que mal é vazado, mas a sensação é de que o controle do resultado pagou um preço com um jogador a mais, apesar da evidente dificuldade da altitude. O Fluminense, com desfalques e longe da boa fase, até buscou a igualdade em Lima, mas tem um começo bem menos otimista que o do ano passado, quando jogava a decisão local e ainda ganhava fora pela Libertadores. Momento importante do trabalho de Fernando Diniz para escalar novamente a montanha após comemorar no topo. Tem reforços para ainda buscar esse novo momento do seu elenco campeão.

Grêmio e Palmeiras viajaram mais pensando nas finais de Gaúcho e Paulista no final de semana, e fica difícil questionar a decisão dos treinadores no único país do mundo onde a Copa mais importante começa entre as finais das disputas centenárias que valem a hegemonia sobre o muro ao lado. Em termos de tabela, Renato Gaúcho não deve lamentar muito a derrota, até porque em La Paz a busca era difícil mesmo se ele próprio, Portaluppi, fosse o ponta-direita com a boa forma do início dos anos 1980. Abel Ferreira, esse, sim, teria mais motivos técnicos para se incomodar com o jogo pouquíssimo organizado de seu time inicial em Buenos Aires, mas a entrada dos titulares no segundo tempo ao menos deu o gás necessário para um empate destravado na marra e na bola parada. Marcelo Lomba, o goleiro, precisou mostrar serviço rumo ao ponto valioso.

É bastante provável que o Brasil – esses cinco, mais São Paulo e Atlético-MG – mais uma vez vá ser boa parte dos lugares nas oitavas e nas quartas de final, quem sabe de novo fazer semi, até final caseira. É um futuro acessível na soma evidente da distância financeira com o número de vagas, que dá numa rotina onde os principais times jogam a disputa ano após ano e chegam ainda mais prontos para a logística, a arbitragem, as camisas e todas as intempéries próprias dessas noites. Mas, por outro lado, a primeira amostragem aponta que as vitórias também não virão sempre ao natural, sem a demanda do erro quase zero. A Copa é brasileiríssima como nunca, um Everest para os vestiários que falam espanhol, mas não está morta. Estávamos com saudade.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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