Libertadores

Há 30 anos, o Nacional se tornava o último clube uruguaio a alcançar o topo das Américas: A Libertadores de 1988

O ano de 1987 certamente esteve entre os mais dolorosos ao torcedor do Nacional. O clube de Montevidéu amargou a sua quinta temporada consecutiva sem conquistar o Campeonato Uruguaio. Perdeu um clássico histórico ao rival Peñarol, em que 11 jogadores tricolores não foram capazes de superar oito aurinegros. E ainda precisou ver os carboneros voltando a faturar a Libertadores, sua quinta, a segunda naquela década. Havia uma expectativa de que o Bolso pudesse dar a volta por cima no ano seguinte, mesmo que não vivesse um de seus períodos mais pródigos. O clube buscou várias contratações ao longo do ano, algumas delas gerando desconfiança, e ganhou embalo com o passar dos meses. Foi fórmula para que a resposta viesse em grande forma, na própria Libertadores: em 26 de outubro de 1988, o Nacional atropelou o Newell’s Old Boys no Estádio Centenario e se tornou tricampeão sul-americano. A última glória continental dos uruguaios, que completou 30 anos nesta sexta.

A mera participação do Nacional na Libertadores de 1988 já representava bastante ao clube. Encarando dificuldades econômicas, o Bolso atravessava sua maior seca no Campeonato Uruguaio e, além disso, ficou três temporadas consecutivas sem disputar o torneio continental, a partir de 1984. Logo no início do ano vitorioso, uma decisão importante se deu: a diretoria tricolor buscou Roberto Fleitas, treinador que comandou a seleção uruguaia no título da Copa América em 1987. Tinha uma carreira concentrada inicialmente em clubes modestos do país, mas de bons trabalhos realizados, que o referendava para o momento.

Fleitas encontraria no Parque Central muitos jogadores rodados na seleção. O goleiro era Jorge Seré, reserva na Copa América de 1987, que chegou do Danubio para se firmar como lenda do Nacional. O lateral José Pintos Saldanha já vestia a camisa tricolor, formado na base do Bolso, e era figurinha carimbada nas convocações durante o período. No miolo de zaga, Daniel Revelez veio do Bella Vista, depois de rodar por equipes como Deportivo Cali e Chacarita Juniors. O clube do Parque Nasazzi, aliás, era a mesma origem do atacante William Castro e do volante Sergio Ostolaza (este, contratado em 1986), em tempos nos quais os papales disputavam a taça no Uruguaio.  

Naquele início de campanha, ainda buscavam seu espaço no Nacional jogadores com passagens pelo Brasil – como o ex-volante gremista Jorge Daniel Cardaccio e o ex-atacante botafoguense Juan Carlos de Lima. Na base titular, haviam ainda o ponta Ernesto Vargas, que iniciara sua carreira no Peñarol até chegar ao Parque Central em 1987, e o armador Yubert Lemos, outro que possuía uma passagem anterior pelo Danubio. Um grupo relativamente reduzido para a exigência da temporada, mas que possuía fome por disputar a Libertadores e fazer história na competição.

Uma etapa importante para forjar aquele Nacional campeão ocorreu antes mesmo da Libertadores. Os problemas financeiros levaram o clube a realizar uma turnê pela América Central, em busca de fundos. Os jogadores, entretanto, foram submetidos a péssimas condições. Chegaram a atravessar longas distâncias de ônibus, a dormir em aeroportos e até mesmo passaram fome em momentos da viagem. Dificuldades que serviram para talhar um plantel bastante unido, em que não existiam vaidades. Coube a Roberto Fleitas gerir esta situação, tirando o máximo de seus comandados. E os primeiros sinais positivos além das fronteiras surgiram durante a realização da inédita Supercopa da Libertadores, no primeiro semestre. Os tricolores atropelaram o Flamengo nas quartas de final, antes de sucumbirem ao Cruzeiro nas semifinais, eliminados por conta dos gols fora de casa após duelos equilibrados. A partir do final de junho, então, começaria a principal ambição dos torcedores naquela temporada: a Libertadores.

O Nacional se classificou para o torneio ao lado do Montevideo Wanderers, através da Liguilla de 1987. E a fase de grupos não prometia muita tranquilidade aos uruguaios. Em tempos nos quais representantes de dois países diferentes ocupavam a mesma chave, os charruas precisariam encarar os colombianos. O América de Cali tinha um timaço, apesar dos três vice-campeonatos consecutivos na competição. Equipe com estrelas do calibre de Julio César Falcioni, Anthony De Ávila e Ricardo Gareca, financiada pelo Cartel de Cali. Já o Millonarios voltava a conquistar o Campeonato Colombiano e prometia forte investimento, bancado pelo também narcotraficante Gonzalo Rodríguez Gacha – “El Mexicano”, um dos parceiros de Pablo Escobar em seus negócios. Contavam inclusive com o artilheiro da seleção, Arnoldo Iguarán.

O calendário beneficiou o Nacional. O Bolso realizou os seus quatro primeiros jogos em Montevidéu e encaminhou sua classificação. O empate sem gols com o Wanderers na estreia não empolgou muito, mas logo os tricolores emendariam triunfos. Primeiro veio a vitória por 2 a 0 sobre o América, com gols de Daniel Revelez e Ernesto Vargas. Depois, golearam o Millonarios por 4 a 1, com Yubert Lemos anotando dois tentos na primeira meia hora e abrindo o caminho. Já a confirmação da vaga nas oitavas se deu com duas rodadas de antecedência, quando Hector Morán assinalou a vitória por 1 a 0 sobre o Wanderers. Os 6 a 1 sofridos em Bogotá contra o Millonarios serviram como um choque de realidade. Já no último compromisso, os uruguaios poderiam muito bem ter vencido o América em Cali, criando várias ocasiões, mas o empate por 0 a 0 deixou os Diablos Rojos na primeira colocação. Independentemente disso, era uma campanha contundente da renovada equipe de Roberto Fleitas. A quem começou a trajetória almejando apenas passar de fase, o desempenho indicava que era possível sonhar com algo a mais.

Aquele Nacional não era um time deslumbrante, mas se destacava pela solidariedade e pelo forte trabalho coletivo, sobretudo no sistema defensivo. Era aguerrido, lutando durante os 90 minutos, além de se valer das bolas paradas. E a competitividade na Libertadores dependeria de placares magros, para galgar as classificações fase após fase nos mata-matas. Um exemplo disso aconteceu logo nas oitavas, em duelos parelhos com a Universidad Católica. O empate por 1 a 1 no Estádio Nacional de Santiago, com um tento de Daniel Revelez a dez minutos do fim, se tornou essencial para que o empate por 0 a 0 no Centenario já valesse a comemoração, em noite de bombardeio infrutífero dos mandantes. E o sarrafo aumentaria um pouco mais nas quartas de final, encarando o ascendente Newell’s Old Boys de José Yudica – treinador campeão sul-americano com o Argentinos Juniors em 1985. Um adversário fortíssimo, de talentos como Norberto Scoponi, Roberto Sensini, Jorge Walter Theiler e Tata Martino.

Antes daqueles embater, a diretoria do Nacional fechou mais uma contratação, a mais importante para sonhar com a taça. Peça fundamental no time bicampeão da Libertadores em 1980, Hugo de León deixou o Bolso logo depois, seguindo ao Grêmio – onde voltou a erguer a troféu continental. Possuía uma carreira experimentada, com dezenas de partidas pela seleção. Mas a partir de 1984, quando saiu do tricolor, passou a rodar por diferentes equipes sem se firmar. Defendeu o Corinthians e o Santos, antes de ter sua primeira experiência na Europa, vestindo a camisa do Logroñés. Não estava contente na Espanha e, em setembro de 1988, aceitou a proposta para retornar ao Parque Central. Mais do que um talento inegável ao sistema defensivo, ainda introduziu sua experiência e o seu temperamento forte. Aumentou a confiança do grupo na reta final da Libertadores.

O jogo de ida contra o Newell’s, em Rosário, já foi bastante tenso ao Nacional. Existia um histórico de amizade entre os clubes que se quebrou naquela ocasião, a partir da recepção hostil aos uruguaios. O Bolso abriu o placar no Parque Independencia aos 20 minutos, em cabeçada de Juan Carlos de Lima. Contudo, no final do primeiro tempo, o tumulto tomou conta do gramado. Em um contra-ataque, o árbitro assinalou pênalti aos leprosos. O problema é que o bandeira viu a infração fora da área e orientou que fosse anotada apenas a falta. A mudança na decisão provocou uma revolta nas arquibancadas e o assistente foi atingido na cabeça por um objeto atirado pela torcida rosarina, necessitando de atendimento. Os tricolores se recusavam a jogar, desde que fossem dadas as devidas garantias de segurança. Com o clima apaziguado, Jorge Seré acumulou milagres na segunda etapa, até que Jorge Pautasso determinasse a igualdade em 1 a 1 nos minutos finais.

O reencontro em Montevidéu ocorreu em um Centenario efervescente. E o forte jogo aéreo do Nacional logo garantiu a tranquilidade, com Santiago Ostolaza abrindo o placar aos 17 minutos. Melhor na partida, o Bolso ampliou ainda na primeira etapa. Da intermediária, Yubert Lemos arriscou o petardo e protagonizou um golaço. A vaga estava nas mãos dos uruguaios, diante da boa diferença construída. No entanto, por incrível que pareça, a classificação também não parecia distante dos argentinos. O contrassenso era garantido por uma peculiaridade bisonha no regulamento daquela Libertadores de 1988.

Pela primeira e única vez no torneio continental, apenas 11 times participaram dos mata-matas. As oitavas de final, na realidade, contaram apenas com cinco confrontos. Aos classificados, juntava-se nas quartas de final o Peñarol, campeão da edição anterior. E então, a genial Conmebol fazia sua gambiarra rumo às semifinais: além dos três vencedores dos confrontos eliminatórios, o derrotado com melhor desempenho naquela fase também passaria. Até então, com os dois gols tricolores no Centenario, ia avançando o próprio Peñarol – que simultaneamente sucumbia ao San Lorenzo por 1 a 0. Ainda assim, um gol do Newell’s poderia ser suficiente para os leprosos avançarem. E assim aconteceu, quando um tento contra de Jorge Cardaccio beneficiou os rosarinos. Os placares se mantiveram e a vitória por 2 a 1 do Nacional, além de garantir o time nas semifinais, também eliminou o rival Peñarol.

Nas semifinais, o Nacional voltou a encarar o América de Cali, desta vez em caráter muito mais decisivo. O primeiro jogo aconteceu no Centenario. E o gol da vitória por 1 a 0 se consumou logo no primeiro minuto. Um lateral cobrado em direção à área colombiana foi mal rechaçado pela defesa e Yubert Lemos acertou um belíssimo sem-pulo. Os Diablos Rojos tentaram pressionar e até reclamaram de um pênalti não anotado pela arbitragem, mas o placar mínimo garantia uma ótima vantagem aos tricolores para encararem o costumeiro inferno no Estádio Pascual Guerrero, em Cali.

Como era de se imaginar, o jogadores do Nacional não encontraram paz em nenhum momento, a partir de seu desembarque na Colômbia. Na véspera da partida, os uruguaios tiveram que lidar com outro inconveniente além do tradicional foguetório nos arredores do hotel onde se hospedaram. Bancadas pelo Cartel de Cali, várias prostitutas passaram a transitar nos corredores do andar onde os tricolores estavam acomodados. Até mesmo batiam nas portas dos quartos, mas o grupo de Roberto Fleitas manteve seu profissionalismo e sua concentração. Além disso, o Bolso levou um cozinheiro para evitar qualquer sabotagem na comida e 20 militares faziam a proteção dos visitantes.

Quando a bola rolou no Pascual Guerrero, Jorge Seré consolidou ainda mais a idolatria que construía e, naquela noite, ganhou o célebre apelido de “Superman”. O goleiro fechou a meta do Nacional, com uma série de grandes defesas, adiando o primeiro tento do América. Os colombianos só conseguiram abrir o placar aos 24 minutos da segunda etapa, em lance confuso dentro da área, que Anthony de Ávila arrematou. Ainda assim, o Bolso criava as suas chances e arrancou o empate aos 37, a partir de um contragolpe. Yubert Lemos lançou e Juan Carlos de Lima dominou na área. O atacante precisou dividir a bola com o goleiro Julio César Falcioni, mas ganhou a briga e, num lance de raça, já caído no chão, completou às redes vazias. A garra botava os uruguaios na almejada decisão continental, interrompendo a série de finais dos Diablos Rojos.

Curiosamente, o adversário derradeiro seria outro velho conhecido. O repescado Newell’s passou pelo San Lorenzo nas semifinais, com duas vitórias sobre os Cuervos. O gol que sacramentou a classificação em Buenos Aires, aliás, foi marcado por um garoto da base que fez sua estreia como profissional no mês anterior, mas logo ganhou espaço entre os titulares: Gabriel Omar Batistuta. Era o reforço à linha de frente leprosa, que ainda contava com Roque Alfaro e Sergio Almirón. O Nacional teria que encarar outra vez a animosidade e os rancores que ficaram em Rosário.

O Gigante de Arroyito, casa do rival Rosario Central, foi o palco do jogo de ida. E o Newell’s Old Boys não teve problemas para se sentir como o verdadeiro anfitrião naquela festa de arquibancadas repletas de gente. Em uma partida muito disputada e equilibrada, o gol da vitória leprosa por 1 a 0 saiu aos 15 do segundo tempo. Batistuta arriscou de fora da área, Seré espalmou e Jorge Gabrich aproveitou o rebote para estufar as redes. O Nacional precisaria reagir em Montevidéu. De qualquer maneira, a confiança era alta, pelas maneira como os visitantes controlaram os argentinos e os neutralizaram defensivamente durante a maior parte do tempo.

Uma atmosfera de fé tomou o Centenario naquele 26 de outubro de 1988. Cerca de 80 mil pessoas abarrotaram as tribunas e empurraram o Nacional. A caminho do estádio, os jogadores já puderam sentir o apoio incondicional, em cortejo eufórico que os acompanhou até o desembarque no gigante de concreto. Já na entrada em campo, o recebimento ao time rendeu uma cena inesquecível, entre os fogos de artifício e os papéis picados que voavam rumo ao gramado. Nenhum torcedor parecia se conter, gritando e pulando pelo Bolso. Seriam correspondidos por uma das atuações mais dominantes da história tricolor, em vitória construída desde o início do primeiro tempo.

O gol inaugural saiu aos 13 minutos, graças a uma jogadaça do lateral Carlos Soca. O defensor aproveitou a bola mal afastada pelos adversários para deixar um marcador no chão e, dentro da área, rolar a Ernesto Vargas. O ponta dominou, girou sobre o zagueiro leproso e soltou uma bomba indefensável. O Nacional seguiu pressionando e ampliou aos 37. Sempre venenoso na bola parada, William Castro cobrou escanteio cheio de efeito e Santiago Ostolaza apareceu para desviar de cabeça, aumentando a diferença. O Centenario já explodia em alegria.

Já no segundo tempo, o Nacional fechou o placar aos 33 minutos. William Castro estava imparável na ponta esquerda e sofreu um pênalti. Na cobrança, Hugo de León teve calma para encarar Scoponi e tirou do alcance do goleiro. O problema é que o regulamento esdrúxulo daquela Libertadores ainda guardava as suas peripécias. O saldo de gols não importava nos 180 minutos da final, apenas os pontos assinalados. Assim, com uma vitória para cada lado, o Newell’s ganhou sobrevida e poderia ser campeão se vencesse a prorrogação. Ao Bolso, pelo menos, permanecia a vantagem se o placar se mantivesse inalterado ou se marcasse o mesmo número de tentos dos leprosos. A superioridade era tamanha que os argentinos não conseguiram reagir e, de fato, os 3 a 0 terminaram de eternizar os tricolores, em 30 minutos com alguns focos de destempero em campo. Os tricampeões da América provocavam uma comemoração ensandecida em Montevidéu.

Depois de cinco anos sem um título relevante, desde o Campeonato Uruguaio de 1983, o Nacional voltava a botar a faixa no peito. Consagrava o espetacular Seré sob as traves; uma dupla de zaga muito consistente com Revelez e De León, este seu grande caudilho; os volantes Cardaccio e Ostolaza, de muita pegada e presença física; o inspirado armador Lemos, brilhante em diferentes momentos da competição; os pontas Castro e Vargas, de trabalho incessante seja no apoio ou na contribuição aos laterais Saldanha e Soca; o oportunista De Lima, decisivo na reta final; e, principalmente, Roberto Fleitas, o treinador que ressignificou um grupo que não gozava de tanto prestígio, mas recuperou o título mais importante do continente. O Bolso se proclamava o maior da América, depois de tantas dificuldades.

Naquela temporada, o Nacional foi coadjuvante no Campeonato Uruguaio. Terminou a campanha na sétima colocação, com quase metade dos pontos do Danubio, dono da taça. Em tempos nos quais os empresários faziam os grandes sangrarem e os pequenos dominavam o topo da tabela, o Bolso só recuperaria o título nacional em 1992, acumulando quase uma década de espera. Em compensação, os pupilos de Roberto Fleitas renderiam mais naquela temporada mágica de 1988. Em dezembro, os charruas encararam o PSV no Mundial Interclubes. Foi uma decisão emocionante em Tóquio, na qual os tricolores acabaram completando a volta olímpica após o triunfo na prolongada disputa nos pênaltis. Mais um épico na história do clube, para ser contado dentro de algumas semanas. A coroação definitiva de um time inesquecível à sua torcida.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo