Libertadores

Especialista em se adaptar, Abel Ferreira caiu como uma luva no futebol brasileiro

Por vias tortas, porque ele não foi a primeira escolha, ou a segunda, ou a terceira, ou quarta ou a quinta, o Palmeiras encontrou um treinador muito bem talhado ao que o futebol brasileiro exige: lidar com o desconhecido. Em condições normais, tudo já está em constante mutação, a cada lesão ou venda de jogador chave, a cada mudança de treinador ou convocação às seleções nacionais. Um time que está em alta uma semana talvez esteja em crise na semana seguinte. É uma loucura, acentuada dentro do contexto da pandemia. Para navegá-la, é importante saber se adaptar e quase todos dizem que essa é uma das principais características de Abel.

O seu texto ao Coache’s Voice, bastante usado para apresentá-lo quando chegou do grego PAOK, já trazia as pistas. “Para mim, o futuro é um jogo de gato e rato dentro de uma mesma partida: adaptando-se a mudanças táticas em reação ao seu adversário”, disse. “Por mais que gostaríamos de ser o Manchester City, não temos Guardiola e não temos Bernardo Silva. Como um cara pequeno como Napoleão conseguia vencer as pessoas? Com estratégia. Com truques. Se o seu adversário está no mesmo nível que você, ótimo, posso atacá-lo. Mas, se você for atacar uma montanha, terá que fazer diferente”.

Abel é o primeiro treinador da tão falada escola portuguesa que chega ao Brasil em um momento ascendente. O Palmeiras é o primeiro clube verdadeiramente grande que assume, o que significa que sua experiência foi adquirida no comando de times em desvantagem econômica aos principais concorrentes – Braga e PAOK. Nunca teve o luxo de definir uma ideia de jogo específica e contratar jogadores para executá-la. Sempre foi mais uma questão de se virar com o que tinha à disposição. Muito parecido com a realidade da maioria dos treinadores brasileiros, mesmo os que estão em clubes ricos como o Palmeiras.

Mas as contas alviverdes também já viram dias melhores. Esta foi uma temporada com menos reforços e mais utilização das categorias de base. Contratado no final de outubro, Abel Ferreira também não teve muito espaço de manobra no mercado. Trouxe os zagueiros Alan Empereur e Benjamin Kuscevic e o atacante Breno Lopes, da segunda divisão. De qualquer maneira, tem mais poder de fogo em mãos do que quase todos os seus adversários. O que lhe falta, no calendário apertado da pandemia e do Brasil no geral, é tempo para desenvolver o estilo de jogo que considera ideal. Talvez não o tenha nem para a próxima temporada, com a possibilidade de disputar o Mundial de Clubes e o Campeonato Paulista começando no final de fevereiro.

Morando na Academia de Futebol, Abel mergulhou em vídeos e análises e deu prioridade a aprimorar os detalhes. Em uma visão ampla, seu time não é muito diferente ao dos antecessores. Ainda ataca de maneira objetiva e vertical, é letal quando tem campo para contra-atacar, segue com uma defesa sólida. Mas tudo está muito mais bem organizado e automatizado – quando o cara não precisa pensar antes de tomar cada decisão, mas segue a memória muscular dos treinos. O pior atestado possível sobre o trabalho técnico que o Palmeiras teve nos anos anteriores saiu da boca de Gustavo Scarpa, no clube desde 2018. “Talvez seja a primeira vez que eu a grande maioria entra em campo e sabe literalmente tudo que tem que fazer. Como atacar, como defender, bola parada”, afirmou em entrevista ao UOL.

E muda quando precisa. “O Abel, em termos de jogo, creio que é alguém muito adaptativo, que se adapta àquilo que a realidade oferece”, afirmou o jornalista português Luís Cristóvão, ao Lance!. “Por exemplo, as equipas do Braga e do PAOK percebe-se que, por conta da característica dos jogadores, por vezes utilizou um ponta de lança mais fixo, outras vezes usou jogadores com mais mobilidade”. O mesmo Cristóvão, em um texto para o Footure, afirmou que seria natural que Abel “operasse várias modificações de jogo para jogo, consoante o adversário”. E isso ficou muito claro no momento mais importante da temporada: quando precisou atacar uma montanha.

A montanha era o River Plate em Avellaneda. Abel abriu Gabriel Menino e Viña como alas e manteve Marcos Rocha como terceiro zagueiro para formar uma linha defensiva com cinco jogadores para barrar as tabelas que os argentinos costumam fazer pelo meio, como mostra essa análise do colega Leonardo Miranda no Globo Esporte. Não foi apenas isso, claro. O Palmeiras precisou de Weverton enquanto encaixava o sistema de marcação e contou com Rony, mais segundo atacante do que ponta com Abel, e Luiz Adriano para construir o placar de 3 a 0, o mais importante para chegar à reta final da temporada ainda vivo em duas competições.

Abel foi um lateral direito competente. Passou doze temporadas no alto nível de Portugal, entre Vitória de Guimarães, Braga e Sporting. Os Leões foram o único lugar em que teve possibilidades reais de ser campeão, e o foi, duas vezes na Taça de Portugal e mais duas na Supercopa. Mas precisou se aposentar aos 31 anos sem experimentar as maiores glórias do futebol. Em sua trajetória, teve contato com Jorge Jesus, Jesualdo Ferreira e Paulo Bento, treinadores importantes do futebol de Portugal. Começou a nova carreira na base do Sporting, passou pelo Braga, pelo qual se destacou com recorde de pontos, gols e vitórias, e foi vice-campeão grego com o PAOK.

Era cotado para um dia assumir um dos grandes de Portugal, o que ainda pode acontecer. A chance de dar um salto na carreira, porém, apareceu primeiro no Palmeiras. “Para ganhar títulos, temos que estar em clubes como o Palmeiras. Foi esse o grande desafio que aceitei”, disse, após o empate contra o Vasco, na terça-feira. “Senti e sinto que temos todas as condições para isso. Foi por isso que atravessei o Atlântico, para, juntamente com os jogadores, neste grande clube, trabalhar para chegar em decisões e ganhar. Além da tensão e da emoção, foi para isso que estudei e trabalhei tanto, para chegar à final e desfrutar com responsabilidade. Viver este momento. Nem todos os jogadores e treinadores chegam à final. Temos esse privilégio e temos que fazer o que nos compete, que é jogar em alto nível”.

Abel não está mais em desvantagem, embora as circunstâncias do momento ainda o obriguem a trabalhar um pouco nas trincheiras. Está em um clube multi-campeão, prestes a encarar duas finais importantes, e algumas atuações no Campeonato Brasileiro mostraram que ele poderia tê-lo disputado também, se o calendário não lhe forçasse a fazer escolhas. Ainda que em uma amostragem pequena por enquanto, tem sido um trabalho de afirmação para o jovem treinador de 42 anos. E o Palmeiras, mesmo que tenha sido um pouco sem querer, mesmo em um período curto até agora, parece que finalmente encontrou a pessoa certa para tocar o seu projeto. Confiança em seu comandante foi um sentimento raro à torcida palmeirense nos últimos anos.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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