Libertadores

Entre perspectivas diferentes, Santos e Palmeiras se valeram bastante da base para chegar com força à final da Libertadores

Há uma mística que envolve qualquer menino da base no Brasil. Não importa o tamanho de seu talento ou o quão preparado ele estará para encarar um jogo profissional: a torcida sempre mostrará uma predileção especial por seu prata da casa. As cobranças existem, claro, mas a maioria absoluta dos torcedores quer ver jogar aquela garotada que sente o clube desde cedo e gera orgulho. Numa temporada de pandemia, em que os elencos foram mais exigidos física e mentalmente, os jovens da base viraram um trunfo a diversos times brasileiros. Assim seria com Santos e Palmeiras, às vésperas da final da Libertadores. Parte do sucesso de ambos os clubes deve ser atribuído aos garotos que deram conta do recado. Chegam para a decisão como uma esperança à torcida e, mais, de um futuro maior pela frente.

Porém, se existem semelhanças entre palmeirenses e santistas pela maneira como se valeram de seus pratas da casa nesta Libertadores, as perspectivas são bem diferentes dentro do passado. “Menino da Vila” é uma alcunha que evoca toda a tradição do Santos em se valer de seu excelente trabalho formativo e montar equipes competitivas calcadas nos jovens. A Libertadores de 2020 é apenas mais um exemplo, de uma boa fornada, algo que sucede de maneira impressionante na Baixada Santista. Já o Palmeiras, pelo contrário, não é um clube que colecione tantos ídolos assim surgidos na base. Havia uma cobrança para que os juniores e juvenis fossem mais usados, em períodos recentes de títulos palmeirenses na base, mas a política de contratações preponderava. No fim das contas, a maturidade dessa molecada acabou ajudando demais os palestrinos.

E não dá para dizer que o aproveitamento da base se deve apenas a Abel Ferreira ou a Cuca. De fato, ambos souberam extrair o melhor desses jogadores numa sequência de partidas de peso. Contudo, mesmo seus antecessores também tiveram um dedo na promoção. Talvez um dos grandes trunfos de Vanderlei Luxemburgo em sua passagem pelo Palmeiras seja a maneira como promoveu os garotos e deu cancha a alguns deles. O mesmo pode ser dito sobre Jesualdo Ferreira, de meses esquecíveis na Vila Belmiro, mas que exibiu uma confiança maior na base do que fazia Jorge Sampaoli. E há ainda mais gente, num trabalho de formação que depende de dezenas de profissionais desde as primeiras categorias, com o técnico de cima servindo para arrematar a transição e realizar os últimos acertos. Neste momento, depois de uma longa caminhada, meninos santistas e palmeirenses se mostram mais prontos para encarar uma final de Libertadores.

Santos: Uma vocação chamada base

Kaio Jorge comemora gol do Santos contra o Grêmio (Amanda Perobelli-Pool/Getty Images/OneFootball)

É até difícil pensar num grande time do Santos que não tenha confiado no talento de algum jogador de suas categorias de base. O exemplo é claro desde os anos 1950, quando o Peixe fazia diferente exatamente pela coragem de lançar garotos com pouca rodagem como profissionais. E neste ponto, o DNA precisa ser atribuído a Luis Alonso Pérez, um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro que quase nunca é mencionado da maneira devida. O eterno Lula enfileirou títulos à frente do esquadrão alvinegro, e seu maior mérito talvez fosse mesmo a virtude de sentir a qualidade dos meninos. A lista é longa e inclui Pelé, mesmo que seu lançamento no primeiro time após chegar de Bauru tenha sido rápido.

O processo se repetiu no Santos várias e várias vezes, com menção primordial ao time que recebeu a alcunha de “Meninos da Vila” durante o fim dos anos 1970. A geração de Juary, Pita, João Paulo e outros nomes permitiu que o Peixe se reconstruísse após a saída de Pelé, conquistando o Paulistão em 1978. De qualquer maneira, um trabalho mais sistemático nesta lapidação da base se nota sobretudo nas duas últimas décadas. É inconcebível pensar no Santos sem se apoiar nas equipes inferiores, para contornar diferenças econômicas relativas a clubes da capital e se fazer mais forte. O sucesso do Peixe se sustenta graças à atenção dada para a juventude e a prioridade garantida pelos meninos.

O último título do Santos na Libertadores, em 2011, tinha muito sangue jovem. Neymar era o protagonista numa equipe que contou com outros tantos pratas da casa – do goleiro Rafael ao volante Adriano, mesmo que Muricy Ramalho fosse um treinador acusado de privilegiar pouco a base. O raio cai na Vila Belmiro repetidas vezes, mesmo que a má gestão dos últimos anos tenha obrigado os alvinegros a se desfazerem de suas promessas em pouco tempo. Mas pensar no elenco atual com possíveis adições de Gabigol, Rodrygo ou mesmo Yuri Alberto só reforça a capacidade imensa de renovação do Peixe a partir de suas categorias formativas.

Dos 33 jogadores utilizados pelo Santos durante a Libertadores de 2020, nada menos que 14 passaram pelas categorias de base do clube. O número é expressivo e se vale também do final da fase de grupos, quando o Peixe deu espaço a garotos como Ivonei e Marcos Leonardo – que devem se tornar mais frequentes na equipe com o tempo. Ainda assim, a base titular atual, considerando aqueles que jogam com mais frequência, inclui seis “meninos da Vila”. Seis personagens decisivos à campanha continental.

O mais velho desse grupo é o volante Alison. Aos 27 anos, muita gente até se esquece que o capitão é um Menino da Vila. Porém, o jovem lançado como profissional em 2011, meses após a conquista da Libertadores, soma mais de 16 anos com a camisa do Peixe. Nasceu na Baixada Santista e começou a defender os alvinegros ainda em 2004. Até chegou a passar rapidamente pelo Red Bull Brasil em 2017, mas conserva uma vivência dentro do clube que o permitiu usar a braçadeira. Nem sempre foi o jogador mais querido e enfrentou questionamentos sobre sua titularidade nos últimos anos. Contudo, é um dos melhores da equipe nesta Libertadores.

O equilíbrio garantido por Alison na cabeça de área é vital, especialmente por seu poder de marcação. O volante foi excelente quando precisou anular o armador adversário, repetindo grandes atuações contra Jean Pyerre e Carlos Tevez. Além disso, a experiência adquirida dentro do próprio Santos o transformou em uma liderança evidente ao Peixe – seus discursos fortes antes das partidas, afinal, também viraram um símbolo desta campanha. Até por já ter vivido um processo de transição que teve seus altos e baixos, acaba ajudando a garotada. E o volante foge do estereótipo do “Menino da Vila clássico”, aquele atacante arisco e franzino, mas comprova como a capacidade da formação vai além da mera habilidade.

João Paulo voa para espalmar a bicicleta de Leguizamón – Foto: Ivan Storti/Santos FC

O mesmo dá para se dizer dos goleiros que engrandecem a campanha do Santos na Libertadores, John e João Paulo. Todavia, se o estereótipo não se encaixa com o do atacante driblador, a escola de goleiros do Peixe é excepcional há tempos tempos. Ao longo da última década, esse trabalho passa muito pelo preparador Arzul, considerado um dos melhores do país na função. Ele atuou primeiro na base antes de ser promovido aos profissionais e, até por isso, conhece muito bem os pratas da casa. Não à toa, entrou em conflito com Jorge Sampaoli por avaliar que o treinador ignorava os jovens quando decidiu sacar Vanderlei e procurar um arqueiro que “trabalhasse bem com os pés”. Hoje dá para notar quem tinha razão na disputa, sem que os santistas sintam qualquer falta de Éverson. A meta alvinegra está muito bem guardada, e por dois goleiros de primeira linha lapidados na base.

João Paulo é mais velho, com 25 anos. Nascido no Mato Grosso do Sul, despontou numa Copa São Paulo e rodou por outros clubes, inclusive sem ser aproveitado pelo Grêmio. Acertou com o Santos em 2011 e foi campeão da Copinha de 2014, mas demorou até ganhar sua chance no time de cima. O camisa 1 só havia atuado em uma partida como profissional até esta temporada, assumindo a meta diante das ausências de Éverson e Vladimir no início do Brasileirão. Virou não apenas um dos melhores jogadores do clube naquele momento, mas também podia ser considerado entre as maiores revelações do país na posição. Era difícil uma partida que não contasse com uma participação decisiva do arqueiro e ele também despontou na Libertadores durante a fase de grupos. A classificação segura dos santistas aos mata-matas passa também pela firmeza de João Paulo neste momento.

A COVID-19 tirou João Paulo da equipe e o Santos conseguiu mostrar que tinha uma alternativa tão boa ou até melhor para a posição. John Victor começou na base do São Paulo e chegou à Vila em 2011, sendo inclusive reserva de João Paulo no título da Copinha de 2014. Nesta ascensão recente, foi de quarta opção na meta durante o início de 2020 para dono do posto. Emprestado à Portuguesa Santista em 2019, meses atrás parecia sem tantas perspectivas de jogar. No entanto, com a confiança de Arzul, John correspondeu assim que precisou assumir o fardo. Estreou logo com uma atuação de gala diante do Internacional. E seria ele também um diferencial na Libertadores, sobretudo nos mata-matas. A goleada sobre o Grêmio não seria tão impressionante sem o arqueiro, considerando os milagres que ele operou antes que o Peixe pudesse consolidar o placar. Hoje é o favorito para ser o titular na final e, aos 24 anos, também para tomar conta da posição por anos.

A proteção aos goleiros do Santos é garantida, em grande parte, por Lucas Veríssimo. O zagueiro é titular do clube desde 2017 e, desde então, se firma também como um dos melhores jogadores de sua posição no Brasil. A venda ao Benfica foi encaminhada semanas atrás, numa negociação que reconhece os serviços prestados pelo defensor ao longo de tanto tempo. De qualquer maneira, Veríssimo não quer deixar a Vila Belmiro sem cumprir um objetivo maior. E o beque seguro tem feito partidas ainda mais notáveis depois da venda, reiterando seu compromisso com a camisa. É o desejo de sair do Peixe em alta, com a marca de quem tanto tempo se dedicou ao clube, mas que também merece um título tão expressivo para marcar de vez seu nome na história.

Lucas Veríssimo atuou pelo interior de São Paulo, até assinar com a base do Santos em 2013. Teria sua ponta de destaque ao ganhar espaço no Paulistão de 2016, mas a consolidação de seu nome ocorreu especialmente no Brasileirão e na Libertadores. O ano de 2017 marcou a confirmação do beque como titular, quando começava a atrair os olhares da Europa, mas as lesões em 2018 atrapalharam sua sequência. Entretanto, desde 2019, o defensor sobra na zaga santista. A boa campanha no Brasileirão daquele ano foi essencial ao seu reconhecimento nacional, faturando inclusive a Bola de Prata. Estava mais claro que o Peixe se estruturaria ao seu redor para 2020, diante da venda de Gustavo Henrique. E o tamanho do acerto dos alvinegros nesta estratégia vem com lucro, pelo que faz Veríssimo na Libertadores.

Se a torcida prepara um adeus pesaroso, mas agradecido, a Lucas Veríssimo, ainda espera desfrutar por muitos anos do talento de Sandry no meio-campo. A transição do volante foi rápida, considerando que em 2019 ele ainda estava conquistando o Mundial Sub-17 com a seleção brasileira. Depois de aparições pontuais com Sampaoli e com Jesualdo na primeira equipe, virou uma solução com Cuca, especialmente diante do embargo no mercado de transferências – quando o treinador cogitava algum medalhão ao setor, mais notadamente Elias. O garoto correspondeu não apenas com boas atuações, mas também com doses cavalares de maturidade. Assim, ganhou a torcida.

Sandry ganha pelo alto na Vila (Alexandre Schneider/Getty Images/One Football)

A pouca experiência não foi um problema para Sandry assumir a posição no Santos quando necessário. É um jogador combativo e ao mesmo tempo muito técnico, por sua visão de jogo e pela maneira como contribui nas transições da equipe. Se já vinha aparecendo bem no Brasileiro, o que aprontou na Libertadores foi grandioso, com duas senhoras exibições diante do Grêmio nas quartas de final. Por questão de estratégia e de encaixe do time, Cuca preferiu deixá-lo no banco durante as semifinais contra o Boca Juniors. E se não começar no 11 inicial também dentro do Maracanã, não é isso que diminui sua contribuição na caminhada alvinegra.

Por fim, Kaio Jorge compartilha com Sandry a mesma geração. Inclusive, tinha mais badalação em 2019, ao terminar o Mundial Sub-17 como um dos protagonistas na conquista da seleção brasileira. O garoto já tinha sido utilizado pelo próprio Cuca em 2018 e ganhou alguns minutos a mais com Sampaoli, mas sua frequência na equipe se tornaria maior com Jesualdo. Ganhou confiança e, aos 18 anos virou, dono da posição no ataque santista. Cuca aproveitou um pouco mais a ascensão do guri que já conhecia, num estilo de jogo que pode não ser o mais goleador, mas rende bastante à engrenagem alvinegra.

A inteligência de Kaio Jorge em campo é enorme, e não necessariamente para criar gols a si, mas para encontrar espaços e ajudar os companheiros com seu trabalho. Ainda é um atacante que aprimora as virtudes da posição, mas com sua capacidade dentro da área mais exposta na Libertadores. Grêmio e Boca Juniors foram pilhados também pela atitude de Kaio Jorge, dando muito trabalho aos marcadores com e sem a bola. Viveu seu melhor com os três gols diante dos gremistas, mas ainda assim pode ser considerado um dos melhores em campo na goleada sobre os xeneizes. E certamente tem bola para mais, o que contribuiu na prioridade dada pelos santistas ao pernambucano, quando Yuri Alberto pedia demais em sua renovação de contrato.

Os casos de Kaio Jorge e Sandry ainda representam a forte atratividade do Santos na base. O atacante nascido em Olinda atuou nos times de futsal do Náutico e do Sport, até buscar seu desejo de atuar num clube melhor estruturado. A família mandou o DVD com lances do garoto nas quadras e foi assim que ele arranjou um teste no Peixe. Veio para ficar. Já Sandry, baiano de Itabuna, viajou para a Baixada Santista com passagem só de ida. Enviou imagens jogando com garotos mais velhos e, aos dez anos, conseguiu um teste. Escolheu a Vila Belmiro antes de qualquer outro clube porque se inspirava nos outros craques alvinegros. Quis ser um Menino da Vila e conseguiu.

Dizer que a “base vem forte”, no caso do Santos, é praticamente um lugar comum. Vem forte também por circunstâncias de uma temporada caótica nos bastidores, em que houve uma necessidade maior de se agarrar aos novatos. Não fosse o embargo de transferências e as limitações financeiras, talvez Sandry, Kaio Jorge, João Paulo ou John não fossem tão pivôs desta história. Entretanto, o espaço um pouco maior com Cuca não nega o espaço praticamente perene na Vila Belmiro aos seus meninos. Se em outros clubes promover os jovens é algo importante aos torcedores, na Baixada Santista a torcida alvinegra sabe que esta é uma vocação de seu clube, uma questão de identidade, e sempre espera algo melhor de quem surge. Tudo isso se centra num trabalho de formação bem feito e numa transição prioritária. O que se nota nesta Libertadores não é ao acaso, mas evidencia ainda mais a qualidade dos Meninos da Vila – em diferentes etapas de sua ascensão, em todos os setores do campo.

Palmeiras: Quando as promessas, enfim, viraram realidade

Gabriel Menino, do Palmeiras (Foto: DAVID MERCADO/AFP via Getty Images/One Football)

Se o Palmeiras não tem uma história formadora tão vasta, muitas vezes limitada a partir de seus goleiros ou de tempos já longínquos em sépia, um despertar aos alviverdes aconteceu com Gabriel Jesus. Os sucessos do clube nos últimos anos se pautaram em equipes recheadas de contratações – algo que corresponde a alguns dos maiores momentos da história palmeirense. Porém, o garoto no ataque indicava que algo maior acontecia nas categorias de base e que a cobrança antiga da torcida pelos pratas da casa poderia ser melhor atendida. Se num passado não muito distante, no Palmeiras, recorrer à base significava tentar contornar momentos de vacas magras (como aconteceu na Série B de 2003), o impacto de Gabriel Jesus evidenciava como esses jovens poderiam estar prontos ao protagonismo.

O Palmeiras já vinha se estruturando cada vez mais nas categorias formativas e passou a colher resultados bem mais frequentes. Prova disso veio do time sub-20, dominante no Campeonato Paulista da categoria e também bastante competitivo nos principais torneios nacionais. Porém, a megalomania da política de contratações encabeçada por Alexandre Mattos ainda limitava o espaço aos garotos. Gabriel Jesus era uma exceção entre muitas outras promessas que sequer atuavam pelos profissionais e já faziam as malas para a Europa. Parecia muito mais importante gerar dinheiro com os meninos para, depois, investir em negócios de qualidade duvidosa.

A mudança de atitude no Palmeiras se demarcou mais em 2020 – não à toa, na esteira da troca de Alexandre Mattos por Anderson Barros no departamento de futebol. O elenco alviverde ainda contava com vários medalhões e jogadores trazidos a peso de ouro. Mas, em vez de contratar, o clube passou a buscar soluções pontuais em suas categorias formativas. Neste ponto, Vanderlei Luxemburgo tem muitos méritos. O técnico promoveu e bancou diversos dos jovens que dão frutos na Libertadores. Se Abel Ferreira consegue tirar o melhor do coletivo, os pratas da casa estavam mais preparados à missão graças ao moral depositado por Luxa.

Dos 30 jogadores utilizados pelo Palmeiras na Libertadores, oito despontaram na base do clube. Não é um número tão expressivo quanto o do Santos, mas que demonstra bem a mudança de relação que existe entre o comando dos alviverdes e os pratas da casa. Alguns serviram mais para compor o elenco, como Wesley ou Gabriel Silva. Entretanto, os palmeirenses também se valem de quatro protagonistas. Quatro jogadores abaixo dos 21 anos que, com enorme potencial, se fazem bastante presentes no time titular.

Danilo, volante do Palmeiras (Foto: Imago / One Football)

Dentre os donos da posição, Danilo é um que se mostra intocável no meio-campo do Palmeiras. O jovem de 19 anos começou a ser utilizado por Luxemburgo a partir de setembro. Virou uma solução à equipe, especialmente diante da ausência de Felipe Melo. O tempo em que o veterano ficou fora por lesão nem de longe foi um problema aos palestrinos, porque Danilo se provou um dos jogadores mais regulares do time. Não teve problemas em entrar na cabeça de área durante os momentos decisivos da temporada, correspondendo com segurança e tranquilidade. Virou um dos termômetros na proteção defensiva e nos passes.

A chegada de Danilo ao Palmeiras, além do mais, mostra como os méritos alviverdes na base não se limitam à formação dos jogadores e aos ensinamentos transmitidos. Os palmeirenses também primam por sua captação. Danilo tinha sido dispensado pelo Bahia e integrava o Cajazeiras, em parceira com um projeto social na região. Foi assim que os palestrinos descobriram o meio-campista, na segunda divisão do Campeonato Baiano. Foi então levado ao sub-17 na Academia e provou o olhar clínico na descoberta, primeiro engrenando na base antes de vingar nos profissionais.

A história de Patrick de Paula, bem mais célebre, também compensa a aposta realizada pelo Palmeiras em sua contratação. A Taça das Favelas era uma oportunidade para os palmeirenses conhecerem novos talentos e foram assim que captaram o potencial do meio-campista na zona oeste do Rio de Janeiro. O acerto em 2017 permitiu a integração do novato às categorias de base, onde se aprimorou e passou a enfileirar as primeiras conquistas. Isso até que se tornasse o primeiro menino dos olhos de Luxemburgo, ainda na pré-temporada.

O Paulistão marcou a eclosão de Patrick de Paula, especialmente por sua participação na final contra o Corinthians, marcando o gol de pênalti que definiu o título do Palmeiras. O meio-campista não tem sido tão constante em suas aparições no time e chegou a viver um momento de queda. Mas, ainda que seja visto como uma alternativa ao time titular, arrebentou nos 3 a 0 sobre o River Plate. Contribuiu com sua capacidade de chegada e também com a dose de talento para fazer o time partir para cima, na criação. Se precisar entrar em mais uma decisão, deve ser uma arma valiosa aos palestrinos.

Patrick de Paula em ação pelo Palmeiras (Foto: Imago / One Football)

O jogo contra o River Plate ainda teve um destaque maior da base: Gabriel Menino. O meio-campista atuou em diferentes posições no Palmeiras em 2020, virando um ponto de confiança onde quer que participe. A postura incansável do garoto de 20 anos contribuiu para se tornar um dos preferidos da torcida, se multiplicando em campo. Além da aplicação sem a bola, costuma aparecer como uma alternativa bastante vertical às investidas ofensivas dos palestrinos. E isso se exibiria da melhor forma na semifinal da Libertadores, não só pela contribuição de Menino ao placar. Também houve uma dose de ousadia e provocação que tirou a concentração dos argentinos.

Convocado à seleção brasileira num momento em que a aposta de Tite parecia injustificada, Gabriel Menino agora tem o caminho mais firme entre os prodígios palmeirenses para seguir em frente. O garoto cresceu junto com o time nas mudanças de comando recentes e hoje parece inconcebível pensar no Palmeiras sem a sua presença em campo – seja no meio ou na lateral. Recompensa também um trabalho dos olheiros. Nascido em Morungaba, na região de Campinas, Gabriel começou num projeto de Renato Pé Murcho – antigo ídolo do Guarani e natural da cidade. De lá, o prodígio seguiu para o Bugre e, depois de três anos na base campineira, os palmeirenses o levaram a São Paulo. Já observavam o talento e tiveram a certeza quando Menino, aos 17 anos, despontou na Copinha. O investimento logo se pagou.

Por fim, Gabriel Verón é o mais jovem da turma, o mais ofensivo e aquele que talvez renda um dinheiro maior no futuro mercado de transferências. Antes disso, o Palmeiras deseja aproveitar bem mais o ponta habilidoso. Nascido em Assu, o potiguar é mais um prodígio que trocou o Nordeste pelo Sudeste em busca do sonho. Começou a despontar em competições escolares e no futsal, até ser levado pelo Santa Cruz de Natal. O presidente do clube procurou o Palmeiras e insistiu para que Verón fizesse um teste. Agradou, ficou e se destacou até antes nas seleções de base. Foi uma das figuras na conquista do Mundial Sub-17 de 2019, ao lado de Kaio Jorge no ataque.

Verón foi o único que não estreou com Luxemburgo, chamado já por Mano Menezes após estourar no Mundial. Precisou pouquíssimo para mostrar que não esperaria muito para brilhar no time profissional. Os últimos meses guardam um pouco mais de cautela ao ponta, com dificuldades maiores para emendar uma boa sequência e também problemas físicos. Mas igualmente deixou sua marca na Libertadores, com boas participações na fase de grupos e o destaque diante do Delfín nas oitavas de final. Pode ser um diferencial na decisão, após perder as semifinais por causa das lesões.

Independentemente do desfecho no Maracanã, o Palmeiras atravessa talvez o momento mais relevante de suas categorias de base, sobretudo por não se resumir a um ou outro destaque. Há uma espinha dorsal formada também pelos garotos e que traz margem de progressão além desta campanha. O investimento nas equipes menores, o trabalho de observação e as cobranças da torcida por espaço não se mostram em vão. É um caminho que traz um pouco mais de orgulho aos acertos recentes do clube, quando soube mesclar seus negócios com a parte boa do que era feito em casa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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