Libertadores

De um início fulminante, o Galo enfrentou uma tensão desnecessária para avançar na Libertadores

Decorridos 180 minutos de futebol, não se nega a qualidade superior do Atlético Mineiro contra o Danubio. O Galo possui um conjunto melhor que os oponentes e isso garantiu a classificação à próxima fase da Copa Libertadores. O que não significa que tenha sido fácil, longe disso. A falta de calma e de uma postura mais propositiva com a vitória parcial quase custou caro aos atleticanos. O primeiro jogo, em Montevidéu, já havia deixado um sabor agridoce. O empate por 2 a 2 era útil, mas expôs algumas deficiências. No Estádio Independência, a equipe de Levir Culpi parecia disposta a escrever uma história diferente. Em meia hora, convenceu sua torcida com uma atuação fulminante, que garantia três gols de vantagem. Situação sob controle? Não diante da maneira como o time recuou e permitiu que a tensão tomasse conta. Os uruguaios descontaram duas vezes e a diferença mínima deixou o Atlético por um fio. A vitória por 3 a 2 veio e Ricardo Oliveira novamente sai como herói. Não exatamente de uma forma positiva, com a falta de consistência quase botando a perder a continuidade no torneio.

Um belo momento aconteceu antes que a bola rolasse. O Independência cantava alto durante a entrada das equipes em campo, mas o silêncio foi absoluto quando se respeitou o minuto de silêncio em tributo às vítimas do incêndio no Ninho do Urubu. Atitude massiva da torcida do Galo, antes que voltasse a empurrar seu time com o apito inicial.

E, de fato, o Atlético começou o duelo tentando resolver sua situação o quanto antes. O time de Levir Culpi acelerava, apesar dos erros na construção das jogadas. Enquanto isso, o Danubio gastava o tempo e tentava esfriar a situação tocando a bola. Não adiantou muito. Luan era quem mais se sobressaía, com uma movimentação intensa pelo lado direito do campo. Seria ele o responsável pelo primeiro gol, aos 15 minutos. Cazares chutou forte e o goleiro Federico Cristófaro, salvador no primeiro jogo, bateu roupa. Entregou o presente ao Menino Maluquinho, que não teve problemas para estufar as redes.

A vantagem deu confiança ao Galo, que cresceu na partida. Começou a encadear bons avanços, contando com a participação de seus meias e a aproximação de Elias pela faixa central. As chances iam aparecendo, até que Ricardo Oliveira tomou a responsabilidade para si. Anotou o segundo aos 25, após uma jogadaça. Disparou do círculo central, passou por dois marcadores e só foi parado quando tentou driblar o goleiro. Pênalti, que ele mesmo converteu. Logo na sequência, faria também o terceiro. Cazares lançou o veterano, que outra vez apresentou sua condição física privilegiada. Arrancou por entre os zagueiros, conseguiu driblar Cristófaro e bateu às redes vazias. Protagonista em Montevidéu, o centroavante voltava a abrir o caminho aos atleticanos.

Era um show do Galo neste momento. E parecia se desenhar uma goleada. Desesperado, o Danubio tentava fazer qualquer coisa no ataque. Acabou se abrindo às investidas do Atlético, que só não anotou o quarto porque Chará chutou em cima de Cristófaro. O primeiro sinal de alerta viria pouco antes do intervalo, em pênalti cometido por Patric. Carlos Grossmüller deslocou Victor e botou os uruguaios novamente no confronto.

Estava claro que o Atlético não poderia relaxar. Só que a tranquilidade desapareceu no início do segundo tempo, com a equipe desligada e muito recuada. Pagaram o preço aos 12 minutos, quando o Danubio encostou no placar. Pablo Siles mandou um canhão de fora da área e não deu chances de defesa a Victor. Golaço, que deixava os visitantes a um tento da surpresa. O Galo ficava no fio da navalha e precisava de um gol para se acalmar.

Sem qualquer peso sobre as costas, o Danubio tomou o controle do jogo. Trabalhava a bola e tentava romper mais uma vez a defesa atleticana. A estratégia do time de Levir Culpi era assegurar a classificação a partir dos contra-ataques. A tensão evidente não contribuía. Somente nos dez minutos finais é que as oportunidades voltaram a aparecer para o Atlético, todas desperdiçadas. Cazares poderia ter passado a Ricardo Oliveira, mas tentou chutar e mandou para fora. Depois, o equatoriano quis encobrir Cristófaro e carimbou o travessão. Ainda houve um lance no qual o goleiro evitou a tripleta de Ricardo Oliveira, em meio ao enrosco na área. Nada disso diminuía os riscos e o Danubio deu seus últimos suspiros nos acréscimos. Precisavam de uma bola. O abafa nos chuveirinhos, para alívio dos mineiros, não deu resultado.

O Atlético Mineiro deverá pegar um adversário mais qualificado na terceira fase preliminar da Libertadores. Defensor e Barcelona de Guayaquil são os possíveis oponentes, e a reversão do placar no jogo de ida, em partes, até contribui ao Galo – com mais chances de fugir dos equatorianos. Um time com a capacidade individual e o investimento dos atleticanos, entretanto, deveria saber lidar melhor com seus adversários. Que se diga, mais uma vez, sobre as chances numerosas que os mineiros não aproveitaram, não é isso que exime a falta de volume de jogo e de segurança com o placar favorável. A classificação é um alívio, quando o primeiro tempo indicou que a comemoração poderia ter sido muito mais tranquila, pelo início explosivo. A necessidade de acertar os ponteiros permanece evidente. Que o Atlético tenha uma propensão ao drama nas competições continentais, não precisava de tanto desta vez.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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