Libertadores

Como foi o clima nas outras vezes em que o Centenário serviu de campo neutro à final da Libertadores

Três times brasileiros decidiram título de Libertadores na capital uruguaia antes de Palmeiras e Flamengo (dois deles, inclusive) no próximo sábado

O Estádio Centenário de Montevidéu é um dos santuários do futebol. Sem nem falar que recebeu a primeira Copa do Mundo, é o estádio com mais partidas de Libertadores: 417. Dessas, 20 foram finais, dez do Peñarol e seis do Nacional. E as outras quatro? Na época em que o título não era decidido por saldo de gols nos jogos de ida e volta, era necessário haver um campo neutro para um jogo de desempate e, quando não havia clubes uruguaios envolvidos na final, o Centenário era uma das melhores opções.

O problema é que Nacional ou Peñarol estiveram em quase todas as primeiras finais de Libertadores, e aí não seria exatamente campo neutro, não é? O Santos foi campeão no Monumental de Núñez, e as outras três decisões com desempates terminaram no Estádio Nacional de Santiago.

A chance apareceu apenas em 1968, quando o Palmeiras foi derrotado pelo Estudiantes na capital uruguaia. Haveria mais três ocasiões: o quarto título do Independiente, em 1973, o primeiro do Boca Juniors, sobre o Cruzeiro, em 1977, e a marcante vitória do Flamengo contra o Cobreloa, em 1982. Faixa bônus: o Centenário também recebeu a batalha entre Racing e Celtic pelo Mundial de Clubes de 1967.

No aquecimento para a quinta ocasião em que o Centenário será utilizado como campo neutro para a final da Libertadores, fomos aos jornais para tentar reconstruir como estava o clima para as partidas que precederam o grande Palmeiras x Flamengo do próximo sábado.

1968 – A primeira vez

O Palmeiras teve seu primeiro jogo no Estádio Centenário de Montevidéu valendo a Taça Libertadores em 16 de maio de 1968. Alinhando Valdir Joaquim de Moraes, Ademir da Guia, Dudu, Servílio e Tupãzinho, enfrentou o Estudiantes de Juan Verón no jogo desempate da decisão daquele ano. Havia perdido em La Plata por 2 a 1 e ganhado no Pacaembu por 3 a 1 – o saldo de gols contava apenas para dar vantagem do empate no terceiro jogo, ao fim da prorrogação.

Um torcedor palmeirense que ajudou a organizar uma comitiva com quatro ônibus para viajar ao Uruguai afirmou em entrevista ao UOL que a partida inicialmente seria em Santiago, mas foi transferida para Montevidéu, o que tornou a viagem “possível”. Aquela caravana contou também com a presença do ex-presidente alviverde Luiz Gonzaga Belluzzo e chegou ao fim com vários percalços e confusões.

O Jornal do Brasil publicou que havia muito interesse em torno da partida “entre os torcedores uruguaios”, e a federação local esperava casa cheia, com cerca de 70 mil torcedores. As expectativas eram que 10 mil fossem brasileiros e 15 mil argentinos. A torcida uruguaia estaria dividida, mas os fanáticos pelo Peñarol apoiariam o Estudiantes porque ainda estavam com a derrota para o Palmeiras nas semifinais entalada na garganta.

Segundo o relato do jornal carioca, o Palmeiras foi recebido por cerca de 200 torcedores no Aeroporto Internacional de Carrasco. Em seguida, grupos de amantes dos dois clubes caminharam pelas principais avenidas de Montevidéu, especialmente pela 18 de Julho, cantando e ostentando bandeiras. “Algumas lojas comerciais chegaram a fechar suas portas temendo qualquer manifestação mais violenta, mas tudo vem transcorrendo em absoluta calma e até com bastante cordialidade”, escreveu o repórter.

Quando o jogo começou, a festa acabou. Pelo menos no lado brasileiro. “Sessenta mil pessoas, suportando uma temperatura de menos de 10 graus centígrados, assistiram esta noite no Estádio Nacional, desta capital, a mais uma derrota do Palmeiras em peleja decisiva da Taça Libertadores da América, pois foi esta a segunda vez que esse clube brasileiro chegou à decisão do título, para perdê-lo no último compromisso”, descreveu a Folha de S. Paulo, lembrando a derrota do Palmeiras para o Peñarol em 1961.

“Realmente os dez mil torcedores do Palmeiras que voaram a Montevidéu para assistir ao jogo ficaram inteiramente desencantados com o modo de jogar do quadro para o qual vieram torcer, pois o alviverde jogou sem vibração, atabalhoado, nervoso, como se se tratasse de um conjunto sem qualquer experiência de jogos internacionais”, acrescentou.

O relato afirma que o Palmeiras se descontrolou depois do primeiro gol do Estudiantes, marcado por Ribaudo, e foi dominado durante o primeiro tempo. Tentou reagir depois do intervalo, mas “a rigor teve apenas uma oportunidade para marcar, uma cabeçada de Tupãzinho sobre a trave em cruzamento de Ademir da Guia”. Em nova falha da defesa, Verón fechou o placar aos 37 minutos da etapa final. “Houve comemorações frenéticas. A torcida invadiu o gramado para festejar o segundo gol que já representava praticamente o título, e ao ser reiniciado o jogo o Palmeiras praticamente deixou de existir”, encerrou a Folha de S. Paulo.

1973 – A lenda e o vaqueiro

Dois homens, Roberto Canessa e Fernando Navarro, contornaram a Cordilheira dos Andes em busca de ajuda. Quarenta pessoas de um time de rúgbi uruguaio e cinco tripulantes haviam partido a caminho de Santiago, e os desbravadores estavam entre as últimas 16 pessoas que resistiram à queda do avião bimotor Fairchild F-227 e ao frio de sucessivas avalanches de neve. Encontraram um vaqueiro chileno chamado Sergio Catalán e, 72 dias depois, estavam finalmente salvos.

Não sei quem teve a ideia, mas foi uma jogada brilhante do Colo-Colo convocar Catalán para dar uma volta olímpica no Estádio Centenário antes da terceira partida da final da Libertadores de 1973 contra o Independiente. Não que precisasse, pela rivalidade natural com argentinos, mas a presença do herói que havia ajudado a salvar dois uruguaios conquistou de vez o coração da torcida da casa, como contou o jornal El País do Uruguai. Deu para pelo menos balancear a presença de muitos argentinos nas arquibancadas.

Os chilenos estavam irritados com a arbitragem. Consideram que houve falta no goleiro Adolfo Nef no gol de Mario Mendoza no jogo de ida, que terminou empatado por 1 a 1 em Avellaneda. Não houve gols na segunda partida, no Estádio Nacional de Santiago, e o desempate foi marcado para o Centenário no começo de junho. O Rei de Copas buscava a sua quarta da Libertadores. O Colo-Colo era o primeiro chileno em uma decisão.

Falando em fatos históricos, após Mendoza abrir o placar e Carlos Caszely empatar ao Colo-Colo, houve um momento muito importante para o Independiente: Ricardo Bochini, maior jogador da sua história, fez a primeira partida de Libertadores da sua carreira, a qual terminaria como o jogador do clube argentino que mais vezes jogou na competição sul-americana – 62 vezes.

E quem tem estrela tem estrela, certo? Entrou no lugar de Eduardo Maglioni, autor dos dois gols na vitória contra o Universitario do Peru na final da Libertadores anterior, e fez a jogada que gerou o rebote para Miguel Giachello assegurar o quarto dos sete títulos conquistados pelo Independiente.

1977 – Montevidéu debaixo d´água

Choveu quatro dias seguidos no sul do Uruguai, e a final da Libertadores teve que ser adiada. Cruzeiro e Boca Juniors haviam trocado vitórias por 1 a 0 e deveriam fazer o tira-teima em 13 de setembro de 1977, mas “nenhum dos envolvidos teve coragem de pedir que a partida fosse realizada”, segundo a Folha de S. Paulo. “O Estádio Centenário de Montevidéu, capital do Uruguai, não tinha a menor condição de ser usado por Cruzeiro e Boca Juniors na disputa do jogo final da Taça Libertadores. Talvez nem hoje (dia 14 de setembro)”, continuou.

O estádio estava todo alagado, de acordo com o jornal, e os times não quiseram entrar em campo para “não comprometer o futebol e a saúde dos seus jogadores”. A Federação Uruguaia não quis estragar o gramado “recentemente reformado” do estádio, e “à Federação Sul-Americana não restou outra coisa senão concordar”. A Folha afirma que o Boca requisitou um adiamento de uma semana, mas o Cruzeiro alegou questões econômicas – custo adicional de 10 mil dólares em passagens – para recusar. “Mas pode ser a única solução se até o meio dia as chuvas fortes de Montevidéu não cessarem e o campo não drenar toda aquela água”, disse o jornal.

A Folha também diz que os hotéis haviam sido invadidos por torcedores do Boca Juniors, em busca do seu primeiro título. Em contraste, seria natural haver menos empolgação no cruzeirense, que havia sido campeão no ano anterior. “O Uruguai foi conquistado pelos torcedores do Boca”, disse o fotógrafo Eduardo Di Baia, que registrou a partida para a agência de notícias AP, em entrevista ao La Nación. “Havia de 20 a 30 mil torcedores, a maioria dormindo na rua. Loucura total”.

O Jornal do Brasil corrobora que das 50 mil pessoas presentes, “a metade torcia para o Boca Juniors”. Destaca o nível técnico baixo da primeira meia hora em que “o Cruzeiro não mostrou nada, nem futebol nem vontade. O Boca pelo menos tinha vontade”. A má finalização, na análise do jornal carioca, foi “o que mais prejudicou, além de umas poucas vezes as boas defesas de Raul”.

“Como no primeiro tempo, o segundo começou com o Boca disposto a ganhar e o Cruzeiro mais uma vez se defendendo. Mas ao contrário do que fez no primeiro tempo no segundo o Cruzeiro não incomodou nenhuma vez o Boca, a não ser quando fazia faltas violentas”, escreveu. Mas quem acabou se machucando foi Nelinho, substituído aos 15 minutos. Sem gols também na prorrogação, a final da Libertadores foi pela primeira vez decidida nos pênaltis. Após nove acertos, o goleiro argentino Hugo Gatti defendeu a cobrança de Vanderlei, e o Boca se sagrou campeão da América pela primeira vez. A primeira de muitas.

1981 – Nervos acirrados

A expectativa era ser campeão em Santiago, mas o Cobreloa venceu por 1 a 0 e ganhou carta branca da arbitragem para descer o pau nos flamenguistas. Lico sofreu uma séria lesão no olho, e Adílio sangrou por causa de um corte no supercílio. Os brasileiros estavam tão otimistas que o voo da Varig que levou a delegação e alguns torcedores a Montevidéu para o desempate serviu um pedaço de bolo “com cobertura de morangos bem vermelhos e uma calda escura formando o desenho do escudo do Flamengo”, segundo o Jornal do Brasil. Também houve champanhe, para não desperdiçar o que havia sido reservado para a festa que se esperava após o segundo jogo. Entre a frustração e a raiva, o clima ficou quente para o terceiro jogo.

Os torcedores que estavam em Santiago precisaram acrescentar uma escala a Montevidéu, mas nem todos tinham condições financeiras para permanecer na capital uruguaia. A diretoria do Flamengo tentou atrair mais viajantes oferecendo ingressos, para que as arquibancadas do Centenário fossem mais rubro-negras, ao contrário do que havia acontecido no Chile. A Torcida Jovem do Flamengo estava organizando uma caravana de cerca de mil pessoas. “Se conseguirmos juntar mil pessoas para se juntar às 700 que já foram para Santiago para ver o jogo e mais os torcedores de Porto Alegre, onde é só atravessar a fronteira, esperamos que a pressão que o nosso time sofreu em Santiago não volte a se repetir, pelo contrário. Vamos ver se nós conseguimos pressionar agora“, afirmou Niltinho, um dos representantes da Torcida Jovem, ao Jornal do Brasil.

De acordo com o jornal carioca, o hall do Victoria Plaza Hotel, onde a delegação flamenguista se hospedou, foi tomado de gente de várias partes do Sul do Brasil, “como Livramento, Rio Grande e Bagé”. O vice-presidente rubro-negro Adoniran Araújo distribuía ingressos e os torcedores discutiam táticas de guerra. “Os chefes de várias facções se reuniram imediatamente e passaram a traçar planos para a partida. Desta vez, iriam ao estádio preparados para qualquer coisa. Compraram-se pilhas, bolas de gude, enfim, uma série de objetos a serem atirados em caso de um conflito contra os chilenos de Calama, ou para atingir o goleiro Wirth”, conta o Jornal do Brasil.

“Orientaram inclusive o goleiro Raul para que, na hora de escolher o campo, pedir que colocassem a defesa do Cobreloa no setor em que estava. Tudo foi preparado e muitos outros planos traçados para que de alguma forma ajudassem o Flamengo a conquistar o título dentro de campo. Júnior, um dos primeiros a descer, foi abordado por um grupo que lhe garantiu uma invasão de campo caso o Flamengo estivesse em desvantagem ou saísse uma briga entre os jogadores”, acrescentou.

O Flamengo não saiu em desvantagem, mas não faltou briga. “O clima de tensão envolveu a todos que se encontravam no Estádio Centenário. Os jogadores pareciam prontos para iniciar uma batalha campal. Nas arquibancadas, as torcidas do Flamengo e Cobreloa já trocavam agressões, e os soldados passaram a agir sem critérios, a empurrar todo mundo”, afirmou o jornal. Adoniran Araújo acusou a polícia de tê-lo espancado com chutes nas costelas e golpes de cassetete atrás de um ônibus. Foi salvo por um guarda que o reconheceu como dirigente do Flamengo.

Alcorcón foi expulso por uma entrada em Andrade, que também entrou na pilha e foi aos vestiários mais cedo. A partida “teve toda as características de uma decisão sul-americana, com pontapés, agressões, expulsões e pancadaria por parte da polícia”, segundo o Jornal do Brasil. Mas, “nos momentos em que houve somente o futebol, o Flamengo mostrou que é um time superior ao adversário chileno e merecedor, portanto, do título de campeão sul-americano”.

Zico marcou os dois gols que deram ao Flamengo o título sul-americano e a vaga no Mundial do Japão contra o Liverpool, algo bem destacado pelos jornais. Houve uma confusão generalizada nos minutos finais, quando Anselmo entrou em campo apenas para agredir Mário Soto. Ambos foram expulsos ao lado de Jiménez. “A polícia entrou em campo e agrediu alguns dirigentes do Flamengo. Mas faltavam apenas dois minutos, e a Taça Libertadores já estava conquistada”, completou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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