Libertadores

Com Enzo Pérez no gol e todas as limitações, o River arranca uma vitória inacreditável para a história da Libertadores

River só tinha 11 jogadores à disposição e ainda improvisou o goleiro, mas conquistou um resultado inenarrável no Monumental

A Conmebol força a realização das partidas da Libertadores sem muitas aberturas a remarcações ou adiamentos. Não há pandemia ou crise política que atrapalhe o calendário da entidade, mesmo com situações absurdas. E, nesta semana, o River Plate se viu no olho do furacão. Um surto de COVID-19 virou uma bola de neve no elenco e provocou 20 desfalques entre os atletas inscritos no torneio continental, incluindo os quatro goleiros à disposição. A Conmebol não aliviou e os millonarios viveriam uma jornada incrível no Monumental de Núñez: levavam a campo apenas 11 jogadores, sem reservas, com o lesionado volante Enzo Pérez improvisado como goleiro no sacrifício e dois juniores estreando. Muitos apostavam numa goleada do Independiente Santa Fe. O que se viu, no fim das contas, foi um grande épico dos argentinos. O River entrou mordido e venceu por 2 a 1, com seus dois gols anotados logo nos primeiros 10 minutos. O time de Marcelo Gallardo trabalhou dobrado e mal deixou Pérez correr riscos no gol. Apesar de todo o contexto questionável, é uma vitória para a história da Libertadores, por puro mérito dos jogadores.

O River Plate viu seu elenco ser reduzido a pó por conta dos casos de COVID-19. A situação, que já era ruim antes do clássico contra o Boca Juniors no final de semana, pela Copa da Liga Argentina, piorou na sequência da semana. Todos os quatro goleiros inscritos na Libertadores viraram desfalques, assim como somente dez jogadores estavam à disposição. A Conmebol até permite uma lista de até 50 jogadores para o torneio continental, o que o clube não explorou, com 32 inscritos. Diante da situação, os pedidos dos portenhos pelos acréscimos dos goleiros juniores no plantel (inclusive Leo Díaz, destaque contra o Boca) não foram atendidos pela entidade – que permite exceções em casos de “lesões graves”, mas não considerou assim a COVID-19. Desta maneira, em vez de desistir e perder por W.O., o River decidiu seguir em frente com o que tinha em mãos.

O nome mais pitoresco na escalação era o goleiro, Enzo Pérez. Além de não ser da posição, o meio-campista de 1,77m sequer estaria à disposição em condições normais, por uma distensão muscular. Mesmo assim, se ofereceu para jogar e foi para o sacrifício. Por aquilo que tinha à disposição, Gallardo conseguiu armar um 3-5-2. Alguns nomes importantes estavam em campo, como Milton Casco, Jonathan Maidana, Fabrizio Angileri, Jorge Carrascal e Julián Álvarez. No entanto, garotos entravam na fogueira. O zagueiro Tomás Lecanda fazia sua estreia pelo clube, assim como o meio-campista Felipe Peña. E se houvesse qualquer urgência, o banco dos millonarios estava vazio. Lecanda e Héctor Martínez também ficavam de estepe como goleiros, caso houvesse alguma lesão de Pérez na meta.

Antes que a partida começasse, Marcelo Gallardo prometia um River Plate usando a cabeça, sem se acovardar pela situação difícil: “Não é nossa ideia botar o time todo embaixo do travessão. Não vamos fazer isso. Vamos tratar a partida da melhor maneira possível, lidando com os diferentes momentos. Essa também é uma maneira inteligente de encarar. Esperamos poder fazer se sentir orgulhosa a gente que nos acompanha neste momento raro”.

Já Enzo Pérez estava até descontraído, tirando foto com a incomum camisa de goleiro e sorrindo durante a entrada em campo. O meio-campista fez um treino específico no arco durante a véspera, mas com o segundo preparador físico, já que o treinador de goleiros também pegou COVID-19. Havia uma ordem expressa para que ele ficasse mais plantado na pequena área, sem sair em cruzamentos. Também precisaria poupar a perna direita, onde se encontra sua lesão. Os companheiros, por sua vez, adotariam um posicionamento um pouco mais recuado na linha de zaga. Gallardo orientou que travassem os chutes e ocupassem os espaços nas bolas aéreas.

O River Plate começou o jogo com sangue nos olhos. E isso faria toda a diferença para o resultado histórico. Os millonarios não demoraram a partir para cima e, com três minutos, abriram o placar. Numa pixotada do Independiente Santa Fe, o River roubou a bola nos arredores da área. Fainer Forjano furou bisonhamente e Agustín Fontana saiu na cara do gol. O goleiro Leandro Castellanos até pegou, mas Fabrizio Angileri marcou na sobra. Já aos seis, viria o segundo tento argentino. Héctor Martínez cobrou uma falta no meio e fez a ligação direta. Acertou um belo lançamento para Julián Álvarez, saindo nas costas da marcação. O garoto dominou com estilo e bateu com raiva na bola, para mandar no ângulo. O placar era confortável para os argentinos lidarem com suas limitações.

Se o River Plate tinha um goleiro improvisado, o restante do time rachava cada bola. E isso não permitiu que o Independiente Santa Fe se criasse. Os colombianos pareciam acomodados, sem arriscar muitos chutes que testassem Enzo Pérez. No máximo, insistiam em cruzamentos que nem intimidavam muito o arqueiro. O volante não mostrava lá muito traquejo com as luvas, mas evitava qualquer perigo. Até mesmo lances mais fáceis e que iam para fora ele conferia. Não precisou realizar nenhuma grande defesa, mas também não se complicou. Seus companheiros ajudavam seu trabalho, com muita intensidade na marcação, mas sem se retrancar.

Afinal, o primeiro tempo poderia ter uma vantagem maior do River Plate. Mesmo depois dos dois gols, os millonarios permaneceram mais perigosos. Tiveram um tento anulado e, aos 40, só não balançaram as redes porque Castellanos operou dois milagres. Forjano errou de novo na área e Julián Álvarez chutou à queima roupa duas vezes, parando no goleiro adversário. De qualquer maneira, o resultado já saía bem melhor que a encomenda para o River. A vibração dos jogadores era expressa a cada lance, com muita entrega. O Santa Fe terminou a primeira etapa com 66% de posse e finalizou mais, dez vezes, mas só duas no gol. A contundência dos argentinos explicava o placar, com seis arremates, cinco deles no alvo, dois nas redes.

O segundo tempo voltou com o Independiente Santa Fe tentando abafar um pouco mais no ataque. A equipe colombiana rondava a área, mas não encontrava muitos espaços às finalizações. Mesmo nas bolas aéreas, os defensores atrasavam para Enzo Pérez realizar defesas seguras. As finalizações no alvo não ocorriam. O River, por sua vez, não conseguia dar muita continuidade em seus avanços e precisaria poupar suas energias, considerando a falta de substituições. Com o passar dos minutos, o duelo caiu de ritmo. Mas, mais notável, era impressionante a energia dos anfitriões para bloquearem cada chute e impedirem os problemas a Pérez.

O Independiente Santa Fe só entrou no jogo aos 28 minutos. Foi o momento em que os colombianos conseguiram descontar e pareciam capazes de ameaçar a vitória do River Plate. O time passou a explorar mais o lado esquerdo, aproveitando as alterações. Os escanteios saíram mais fechados, dando sufoco na zaga argentina. Já o gol nasceu por aquele setor, num bom lançamento de Kelvin Osorio para Jhon Arias. O ponta chegou à linha de fundo e tocou para trás, onde o próprio Osorio se esticou para completar de carrinho. Meio perdido, Enzo Pérez não teve culpa no lance, já quase na pequena área.

Quando a partida pegava fogo, o River Plate usou a inteligência pedida por Gallardo. A equipe passou a gastar mais o tempo com faltas sofridas e atendimentos médicos. Mas, mais importante, começou a prender a bola no campo de ataque para deixar o relógio correr. Jorge Carrascal fez uma senhora atuação nesse sentido, ao encarar a marcação e escapar dos zagueiros para que os segundos passassem. O armador, além do mais, tomava pancadas que resultavam em faltas e ajudavam o time a administrar a situação. Carrascal poderia até ter marcado um gol no último minuto, mas bateu em cima de Castellanos. Enquanto isso, o Santa Fe mal produziu. Tirando um par de chutes tortos, não tirou o mínimo proveito da situação. Pagou pela incompetência.

Enzo Pérez, anedoticamente, foi eleito o melhor em campo. Só fez defesas protocolares, mas entra para o folclore da Copa Libertadores. Já o apito final guardou uma enorme vibração dos jogadores do River Plate. Estavam conscientes que a história estava feita. O time chega aos nove pontos, tomando a liderança do Grupo D. O Fluminense fica com oito, na segunda colocação, enquanto o Junior de Barranquilla tem seis. O Independiente Santa Fe, com dois, está eliminado. O resultado emblemático ainda aproxima o River da classificação, dependendo apenas de um empate contra o Flu na rodada final para avançar na liderança. O heroísmo pode levar os millonarios com mais brio aos mata-matas.

Classificação fornecida por SofaScore LiveScore

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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