Libertadores

A noite incrível de Enzo Pérez é ainda mais significativa por seu amor incondicional pelo River, desde garoto

Batizado em homenagem a Francescoli, Enzo Pérez possui uma relação carnal com o River e isso explica muito sua atitude na vitória heroica

Depois da partida, o orgulho. Enzo Pérez estava radiante, ao lado dos filhos, vestidos também com o uniforme de goleiro do River Plate. O meio-campista já tinha feito história pelos millonarios, como uma figura essencial na equipe que conquistou a Libertadores em 2018. Mas nada comparado ao experimentado nesta quarta, quando o lesionado veterano foi para o gol e estrelou a inacreditável vitória por 2 a 1 sobre o Independiente Santa Fe. Há um tanto de incompetência dos colombianos, claro, que não exigiram nenhuma defesa difícil do arqueiro improvisado. Por outro lado, também dá para ver um lado heroico e poético em tudo isso, no atleta que botou seu nome em jogo sob o risco de viver um vexame, mas saiu como um ídolo eterno do Monumental de Núñez. Algo merecido, considerando sua ligação com o River desde a infância e seu amor incondicional pelo clube.

O nome de Enzo Pérez, afinal, não é por acaso. A escolha foi uma homenagem a Enzo Francescoli, o Príncipe, um dos maiores ídolos do River Plate. Quando Pérez nasceu, em fevereiro de 1986, Francescoli tinha marcado um emblemático gol de bicicleta num amistoso contra a Polônia semanas antes. O uruguaio de 24 anos era referência no time millonario, que pouco depois também conquistaria o Campeonato Argentino de 1985/86 – e que, já sem o craque, levaria seu primeiro título da Libertadores na sequência do ano. O pai do garoto era torcedor do River e fã do Príncipe. Mal sabia o que o futuro guardaria para o menino.

“Vendo jogar Francescoli, que além do mais era um cavalheiro e nunca protestava, decidimos colocar o nome do menino de Enzo. Qual outro nome poderia colocar, se eu gosto dos que jogam futebol, não dos que chutam para cima? Nunca poderia saber se meu filho ia jogar futebol, mas uma varinha mágica o tocou e aí está”, contou Carlos Pérez, pai do meio-campista, em entrevista à revista El Gráfico em 2010. Segundo Enzo, sua mãe queria batizá-lo como Nelson. Todavia, como o pai foi registrar, ficou a marca do River Plate desde o nascimento.

A infância de Enzo Pérez seria dura. O garoto nasceu na cidade de Maipú, na Província de Mendoza, e cresceu num ambiente muito humilde. Carlos Pérez era meio-campista do modesto Deportivo Maipú, que disputava as divisões de acesso e a Liga Mendocina. Jogava de camisa 10 e adorava distribuir canetas pelo campo, mas a falta de gosto pelos treinos limitou sua carreira. Sem que o futebol bastasse, Carlos precisava trabalhar como pedreiro para levar sustento à família. Enzo Pérez cresceu nesse ambiente, próximo à bola, mas também precisando ajudar o pai nas jornadas de trabalho.  Quando havia alguma obra, o menino ia junto e auxiliava como podia – cavava buracos para colocar vigas, pintava portas ou retocava paredes.

“Eu sei o que é ganhar dinheiro no dia a dia, porque estive sob um teto com 40 graus no calor e 5 abaixo de zero no frio. Tive que molhar pão duro na água ou colocar para secar o saquinho de chá para usar no dia seguinte. Sei o que é fome, porque mais de uma vez fui dormir com a barriga doendo, de tão vazia que estava”, contaria Enzo Pérez, também à El Gráfico. “Não tínhamos dinheiro, sem luz nem gás em casa. Minha mãe saía para pedir comida nas padarias e bares. Meu pai teve que vender a aliança de casamento para nos dar de comer”.

Enzo Pérez também falou sobre a infância ao La Nación, em 2019: “Não era fácil. Estávamos três meses em uma casa, quatro em outra, éramos nômades. Se terminava o dinheiro do aluguel, meu pai falava com um conhecido e pedia que aguentasse um tempo até conseguir um trabalho. Em uma época vivemos numa garagem, para tomar banho tínhamos que pedir às pessoas que viviam na casa. Como o mais velho de quatro irmãos, eu tomava com mais responsabilidade. Tenho tudo muito gravado na cabeça. Talvez meus irmãos, por serem menores, não se davam tanta conta. Eu me lembro de quando ia buscar minha mãe para comer e ela dizia que não tinha fome ou qualquer desculpa para não diminuir nossa comida. Eu a vi sofrer porque não podia dar o que queríamos. Fazíamos aniversário e não podíamos festejar. Perto de casa tinha uma padaria e, quando passavam dois ou três dias sem vender, íamos sem vergonha pedir que nos dessem as sobras para ter algo mais sobre a mesa”.

Além do trabalho duro e da relação com a bola, Carlos Pérez ensinou a Enzo desde cedo sua paixão pelo River Plate. E o garoto teria a sorte de acompanhar o ápice de Francescoli em Núñez, afinal. De volta da Europa no início dos anos 1990, o Príncipe conduziu um dos times mais célebres dos millonarios, que dominaria o Campeonato Argentino e também reconquistaria a Libertadores em 1996. Naquele momento, Francescoli dividia o campo com outro ídolo que cruzaria o caminho de Enzo Pérez anos depois: Marcelo Gallardo, então meio-campista que despontava a partir das categorias de base. Quando o River treinava na pré-temporada em Mendoza, Enzo Pérez e outros meninos iam nos treinos para ficar perto dos ídolos.

“Desde que me entendo por gente, ando com uma bola pra cá e pra lá. Chegava do colégio, tirava a mochila e ia jogar. Se não havia bola, fazia uma com sacolas ou meias, ou jogávamos com uma tampinha de Coca, ou com pedrinhas no asfalto, muitas vezes descalços. Também sempre gostei de assistir: quando estava na base, meu pai me via aos sábados de tarde e eu ia vê-lo nos domingos de manhã. Até hoje, que operaram seu joelho, meu velho segue jogando. Cada vez que vou para Mendoza nas férias, fazemos jogos nos campinhos que temos. A gente se diverte”, contaria Enzo Pérez, ao La Nación.

A carreira de Enzo Pérez começou na base do próprio Deportivo Maipú, onde permaneceu até 2003. Já profissional, foi contratado pelo Godoy Cruz. Ficou quatro anos no clube mendocino, até ser comprado pelo Estudiantes, por indicação de Diego Simeone. O jovem viraria então uma figura importantíssima em La Plata, parte central na conquista da Libertadores em 2009, sob as ordens de Alejandro Sabella. Seu primeiro filho nasceria exatamente no dia da final contra o Cruzeiro no Mineirão. Seu nome? “Enzo, e como mais poderia se chamar? Coloquei por causa de Francescoli, não ia ser por mim (risos). Enzo era meu ídolo, o via jogar na segunda passagem pelo River. Tinha um pôster gigante atrás da porta do meu quarto. Meu pai estragou e eu queria o matar”, afirmou Pérez, à El Gráfico.

Mesmo já fazendo sucesso no Godoy Cruz e no Estudiantes, Enzo Pérez não se afastaria do River Plate. O fanático millonario dava seu jeito de ir ao Monumental. “Você torce pelo clube que te contrata, mas vou com os amigos aos superclássicos. Faz um tempo, levei meu filho de um ano e meio ao Monumental, não entende muito, mas pelo menos já vai sentindo como é o entorno. A primeira vez que vi um jogo ao vivo faz quatro anos. Eu jogava no Godoy Cruz. Ganhamos do Independiente, 3 a 1 . Impressionante”, diria. Quando marcou seu primeiro gol contra o Boca Juniors pelo Estudiantes, Enzo Pérez gritou tanto que Juan Sebastián Verón, então seu companheiro na meia cancha pincharrata, precisou pedir para que se acalmasse.

Já um momento especial aconteceu quando, na época de Estudiantes, Enzo Pérez teve o gosto de conhecer Francescoli. “Todos os dias eu enchia o saco de Leo Astrada e Hernán Díaz para me apresentarem Francescoli. Um dia estava indo para casa e me disseram que o técnico queria falar comigo. Quando entrei, Leo me disse ‘aí está’, e Francescoli estava sentado. Foi chocante, não reagi. Ele me cumprimentou, disse algumas coisas e eu, que tinha mil perguntas a fazer, fiquei mudo. Ele falava e eu olhava. No dia seguinte, Leo e Hernán me mataram. ‘Tanto que você nos encheu para no fim não dizer nada!’. Mas eu estava nas nuvens”, comentaria.

O sonho de Enzo Pérez em defender o River Plate levaria um tempo. O meio-campista se transferiu ao Benfica em 2011 e, depois de disputar a Copa de 2014, fechou com o Valencia. Seriam três anos no Mestalla até, enfim, surgir uma oportunidade para desembarcar no Monumental em 2017. Os espanhóis ainda queriam segurá-lo, mas o jogador de 31 anos fez sua vontade valer e até abriu mão de dinheiro. Jogaria sob as ordens de Gallardo, por quem tanto torceu nos tempos de garoto. E conviveria de perto com Francescoli, que trabalhava como diretor dos millonarios. “Tive outras ofertas, mas minha prioridade sempre foi o River, porque é um sonho jogar aqui. Estou fazendo muito esforço para que se concretize. Sendo torcedor, a ansiedade se multiplica. É um sonho. Imagine que Francescoli foi quem me chamou…”, comentou na época, à ESPN argentina.

Enzo Pérez nunca deixou de dar seu máximo no River Plate. Chegou ao ponto de Gallardo por vezes pedir para que se contivesse, para se portar mais como um jogador profissional e menos como um torcedor em campo. Seu primeiro gol teve uma comemoração à flor da pele, em meio à virada por 8 a 0 contra o Jorge Wilstermann na Libertadores de 2017. Meses depois, em abril de 2018, fez um sacrifício para se recuperar de uma lesão e disputar a final da Copa Argentina contra o Boca. No banco, substituído, foi flagrado cantando com a torcida enquanto o placar apontava a vitória por 2 a 0. Mal sabia que o ápice viria pouco depois, na final contra os rivais no Bernabéu. Enzo Pérez foi um leão em campo na conquista da Libertadores de 2018 e, durante a comemoração, seus filhos eram as únicas crianças em meio à festa no campo. O veterano não abandonaria por nada a paixão. Mesmo recebendo propostas vantajosas de outros países, o volante preferiu seguir em Núñez. Parecia destinado ao que ocorreu nesta quarta-feira.

Diante do surto de COVID-19 que gerava 20 desfalques ao River Plate e tirava os quatro goleiros de combate, Enzo Pérez não era o favorito para tomar a posição. O arqueiro nas brincadeiras de rachão costuma ser Milton Casco, não ele. O meio-campista sequer estava cotado para jogar, por conta da distensão muscular sofrida no clássico do domingo contra o Boca Juniors. Foi ele quem se ofereceu para atuar. E, considerando que ele não conseguiria aguentar o ritmo dos 90 minutos na linha, nada mais natural que se sacrificasse no gol. Treinou na posição e recebeu as orientações do preparador físico, ex-goleiro profissional, já que o treinador de goleiros estava entre os infectados com o coronavírus. No fim, faria história. Não necessariamente por grandes defesas, mas por conseguir trabalhar com uma calma até incomum para a ocasião e também por contribuir à vitória – muito bem protegido pelos companheiros, que mal deixaram o Santa Fe finalizar.

Depois do jogo, Enzo Pérez comentou sua preparação: “Meus companheiros goleiros escreveram para mim. Perguntei a eles, pratiquei nos treinos. Eles me deram conselhos. Disseram para que eu me concentrasse na marca do pênalti e que andasse sempre em diagonal. Com a adrenalina, eu me perdia um pouco, mas olhava sempre a marca da cal. Tratei de me concentrar e ajudar a equipe. Agora que terminou, falarão da partida. Destaco o coração e a hombridade, a personalidade não só dos que jogaram, também do que demonstramos no fim de semana no estádio do Boca. Estrearam muitos garotos e nos ajudaram a fazer uma boa partida. Hoje demonstramos novamente o grupo que somos e o tipo de pessoas que somos”.

Já entre os que felicitaram o goleiro de ocasião estavam algumas das maiores lendas do arco do River Plate. Em especial, o maior deles ainda vivo, Ubaldo Fillol: “Numa partida dura e atípica para o River, Enzo Pérez esteve à altura das circunstâncias, teve um bom posicionamento na área, voz de comando (como sempre) e não se complicou nas poucas vezes que o rival chegou. Meus parabéns a Enzo. Foi um teste mais que superado com pura coragem!”.

Enzo Pérez nunca viraria as costas para o River Plate – as costas que, aliás, trazem uma enorme tatuagem em homenagem ao clube. O meio-campista corria o risco de protagonizar um vexame ou agravar ainda mais sua lesão. Acabou sendo o herói que qualquer outro torcedor sonharia em se tornar, caso precisasse assumir a baliza para proteger o time do coração. Muitos podem falar dos títulos ou da capacidade de Enzo Pérez no meio-campo. O que o River representa para ele, contudo, vai além. E agora o que ele também representa para os millonarios não se restringe somente a números ou feitos. É uma gratidão pela coragem.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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