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Benedetto ressurgiu como providência e desafogou 339 dias de espera, para compensar sua luta

Entre as muitas contratações do Boca Juniors nos últimos anos, mirando o sucesso na Copa Libertadores, Darío Benedetto foi a mais bem-vinda. O impacto desejado não foi sentido na campanha continental de 2016, à qual o centroavante chegou, com a malfadada eliminação para o Independiente del Valle nas semifinais. Contudo, o artilheiro logo começou a carregar os xeneizes no Campeonato Argentino. O atual bicampeonato nacional se deve bastante ao camisa 18 – que, de relativamente desconhecido, se transformou em jogador de seleção. Mas quando desfrutava o ápice, o goleador precisou conviver com a dor de uma grave lesão, que o afastou dos gramados por nove meses e dilacerou suas chances de ir à Copa. O sacrifício foi enorme. Voltou a disputar um jogo oficial em agosto e, ainda que tenha feito algumas boas atuações, a seca de gols incomodava, durando 11 meses. Eis que tudo soa como providência: justo na Libertadores, o atacante sai do banco e encerra o jejum, com dois tentos imensuráveis diante do Palmeiras.

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As competições continentais representam um capítulo especial na carreira de Benedetto, afinal. O centroavante revelado pelo Arsenal de Sarandí ganhou um grande impulso quando disputou a sua primeira Libertadores, em 2013. Seu time não passou da fase de grupos, mas o artilheiro anotou três gols em seis partidas, incluindo um golaço contra o futuro campeão Atlético Mineiro. Atraiu o interesse do Tijuana e se mudou ao México já no segundo semestre daquele ano. Nos Xolos, mais uma vez se acostumou a balançar as redes, o suficiente para o América arrematar a sua contratação. E na Cidade do México, o heroísmo se tornou concreto na Concachampions.

Benedetto se firmava como titular naquele início de 2015. Vinha anotando um gol ou outro no Campeonato Mexicano, mas nada comparável ao que aconteceu no torneio continental. O centroavante chamou a responsabilidade para si e tornou o América mais uma vez campeão. Depois da derrota por 3 a 0 na Costa Rica, o artilheiro anotou quatro gols nos 6 a 0 sobre o Herediano, que botaram as Águilas na final. E melhor ainda seria na decisão, contra o Montreal Impact. Os mexicanos apenas empataram por 1 a 1 no Estádio Azteca. Pois o matador se encarregou de fazer três no Canadá, valendo o troféu com a vitória por 4 a 2. Foi o que permitiu ao argentino deslanchar por lá.

Melhorando seus números no Campeonato Mexicano, Benedetto ajudou o América a reconquistar o bicampeonato da Concachampions em 2016. Fez o primeiro gol na vitória fora de casa sobre o Tigres, que abriu o caminho nas finais. E a preponderância no torneio certamente abriu os olhos do Boca Juniors, que buscavam reforçar seu elenco para a reta final da Libertadores de 2016. O cenário parecia favorável, com o artilheiro se juntando ao time justamente para os confrontos com o Independiente del Valle nas semifinais. Nada saiu conforme o esperado, diante da eliminação, mas não que a aposta tenha se frustrado. Nos meses seguintes, o camisa 18 assinalou 21 gols em 25 jogos pelo Campeonato Argentino, provando seu alto nível. Uma fome que rendeu o título nacional e se sustentou no início da campanha seguinte, com nove gols nas nove primeiras aparições. Isso até que a lesão no joelho sofrida ainda em novembro de 2017 (quando ainda anotou um gol sobre o Racing) rompesse o seu sonho. Convocado pela seleção argentina durante a reta final das Eliminatórias, sequer poderia pleitear seu espaço na Copa de 2018.

O Boca Juniors demorou para se acostumar com a ausência de Benedetto. Se o time dependia bastante do artilheiro no Campeonato Argentino, precisou se virar de outras formas e encontrou dificuldades para assegurar o bicampeonato. Além do mais, outros tantos centroavantes passaram por ali, sem preencher completamente a lacuna do camisa 18. Nem mesmo Carlos Tevez ou Ramón Ábila eram suficientes para oferecer aquilo que o companheiro lesionado vinha fazendo. Por isso tudo, seu retorno em agosto foi tão festejado, reconhecendo também o esforço do jogador de 28 anos para recuperar sua melhor forma.

A reestreia de Benedetto não poderia ser mais impressionante. Foi titular contra o Libertad e jogou demais nas oitavas de final da Copa Libertadores. Não atuou como um centroavante típico, mas sim como um maestro, oferecendo duas belas assistências no triunfo por 4 a 2 em Assunção. Centroavante, porém, vive de gols. E sem demonstrar a mesma precisão de outrora, o camisa 18 vinha deixando interrogações. Pior, no final de setembro sofreu outra lesão de menor magnitude, que o tirou dos gramados por quase um mês. Tempo suficiente, ao menos, para retornar no último final de semana, pelo Campeonato Argentino, e se tornar opção ao primeiro encontro com o Palmeiras na semifinal da Libertadores.

O duelo na Bombonera mostrou como há bons centroavantes que acumulam gols, mas raros que entram e decidem. Os pouco mais de 15 minutos em campo bastaram para Benedetto comprovar como possui um apreço especial pelas competições continentais. E como a aposta xeneize para a Libertadores, mesmo com dois anos de atraso, se compensou totalmente. Entrou aos 33, substituindo Wanchope Ábila. Cinco minutos depois, apareceu na área para cabecear o escanteio cobrado por Sebastián Villa e estufar as redes. Até que o ápice chegasse aos 43, na entrada da área. O drible malicioso em Luan apresentou um centroavante de recursos. O tiro certeiro no canto de Weverton completou a pintura.

Como um tubarão que esgueira o sangue, Benedetto sente o gosto dos jogos grandes e resolve. Os 339 dias sem balançar as redes, desde o duelo com o Racing em que saiu de maca, tiveram o seu propósito. E a gratidão não se nega. Durante a comemoração do gol, o centroavante saiu correndo até o banco do Boca para abraçar Sergio Brozzi, o fisioterapeuta do clube, que o acompanhou em toda a recuperação. Os gritos de vibração se combinaram com os olhos cheios de lágrimas. Pelos gestos, trouxe à memória dos torcedores a imagem de Martín Palermo, herói de outras Libertadores que também é ídolo do camisa 18.

“É muita emoção depois de tantos meses sem marcar gols. Eu me recuperei, voltei a me lesionar… Venho lutando contra as contusões, por isso fico muito contente por balançar as redes de novo. Estava muito ansioso para fazer este gol. Trabalhei muito, tomava golpes quando já levantava a cabeça. Não baixei os braços e os gols saíram no momento em que a equipe mais precisava. Gostei muito do segundo tento, mas prefiro o primeiro porque foi um desafogo. Eu me apoio na família, que esteve sempre ao meu lado. Quando você se lesiona, conta nas mãos os que te ajudam. Dedico os gols à minha mãe, que está me olhando lá do céu”, declarou Benedetto, na saída de campo.

A mãe de Benedetto, aliás, representa a maior face do caráter e do espírito de luta do centroavante. Quando o garoto tinha 12 anos e disputava a decisão de um torneio de base com o Independiente, Alicia Benedetto sofreu uma parada cardiorrespiratória nas arquibancadas e faleceu. Tinha apenas 40 anos. O jovem deixou o futebol e precisou de quatro anos para maturar a vida regida pela saudade. Aos 16, fez um teste no Arsenal de Sarandí e foi aprovado. Resolveu cumprir a vontade de sua mãe, uma das maiores incentivadoras de seu sonho. Naquele recomeço, também abandonou os estudos e passou a trabalhar como pedreiro ao lado do pai. A bola o levou a outro caminho.

Dentro de campo, as virtudes de Benedetto são evidentes. Não deixa de ser um centroavante clássico, com presença de área, potência nos arremates e força física. Porém, vai além ao também conseguir preparar jogadas e se movimentar além da grande área. Acima disso, sempre joga com o máximo de vontade. A quem não conhecia o seu futebol durante os primórdios na Argentina ou não acompanhou suficientemente seu impacto no México, sua ascensão até pareceu um achado do Boca. Mas, no fim das contas, os gols acumulados na Bombonera apenas oferecem o devido reconhecimento a quem se firma como um dos melhores atacantes em atividade nas Américas.

Há ainda um jogo de volta e o camisa 18 será bastante necessário no Allianz Parque, especialmente para tranquilizar a situação xeneize com um gol fora de casa. Ainda assim, a noite de quietude na Argentina somente se incendiou com a entrada explosiva do artilheiro. Daqueles jogos que marcam a história de um clube na Libertadores, e mesmo de um gigante como o Boca Juniors. Benedetto ganha um motivo a mais à sua idolatria.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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