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Hoje é dia de parabenizar Ghiggia. Dia de aplaudir uma das mais belas histórias do futebol

Apenas um sobrevivente. Justo ele. Justo o homem que definiu o destino daqueles outros 21 que dividiam o campo no Maracanã. Não por sua vontade, o chute rente à trave condenou 11 brasileiros pelo resto da vida. E, apesar do orgulho pela conquista, não tornou os 11 uruguaios mais felizes por aquilo. Alcides Ghiggia segue como a principal prova viva do que aconteceu no dia 16 de julho de 1950. Um senhor que completa 88 anos nesta segunda sem merecer o rótulo de vilão que muitos lhe dão. Merece, sim, admiração. Sobretudo, pela maneira como sempre tratou o jogo de sua vida: uma final, e não uma sentença.

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Mesmo sendo um dos maiores jogadores uruguaios de todos os tempos, talvez o mais decisivo, Ghiggia leva uma vida simples. Sua riqueza é o culto que seu nome invoca, morando ainda em uma casinha simples no subúrbio Montevidéu. A lenda tem histórias para contar. E, com seu estilo bonachão, costuma brincar com a sorte – “apenas o Papa, Sinatra e eu calamos o Maracanã”, é sua frase mais clássica. Mas sem nunca faltar com o respeito aos colegas. Nas frequentes vezes em que encontrava os 11 brasileiros, não tocava no assunto. A história já estava escrita, e como outra qualquer no futebol, imutável.

Ainda assim, Ghiggia precisou esperar mais de 63 anos para ter a sensação tão aguardada. Apenas em 2013 é que teve o gosto de ver o Estádio Centenário comemorar o seu gol em Barbosa. O silêncio de 200 mil no Maracanã se transformou em vibração de outros milhares. Levaram às lágrimas o velho boleiro. E poderia ter sido mais. Ainda que tenha participado do sorteio, Ghiggia merecia estar de volta ao Maracanã naquele 13 de julho de 2014. Para ser também ovacionado no palco que calou. Transformar o seu próprio lema.

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Poucos aniversários precisam ser tão comemorados no futebol quanto o de Ghiggia. Porque o ex-atacante é o único sobrevivente de uma das histórias mais bonitas do esporte. De muito sofrimento, é verdade, mas de um lado humano sem tamanho. Os aplausos para o uruguaio também ressoam a Obdulio Varela, Schiaffino, Maspoli e outros mitos de sua equipe. Ecoa a Barbosa, Juvenal, Bigode, Bauer, Augusto, Danilo, Chico, Ademir, Zizinho, Jair e Friaça. O reconhecimento de que aqueles 11 brasileiros também eram gigantes. Por mais que os pés do veterano tenham negado o agradecimento da grande maioria.

O nosso muito obrigado, Ghiggia. A você e a todos os outros. Aproveitemos enquanto você ainda pode nos ouvir.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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