América do Sul

Ataque dos EUA pode impactar os clubes da Venezuela na Libertadores e Sul-Americana?

Oito equipes venezuelanas disputarão competições sul-americanas em 2026, podendo encontrar clubes brasileiros no caminho

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela neste sábado (3) rendeu comparações com a invasão da Rússia na Ucrânia, em 2022, por violações do direito internacional. Um dos impactos da guerra na Europa foi os times de futebol ucranianos serem obrigados a atuar fora de seu país em competições continentais, o que poderia se adaptar ao contexto venezuelano em caso de um conflito em seu território.

Nos torneios sul-americanos de 2026, oito equipes venezuelanas estão classificadas. Deportes La Guaira e Universidad Central jogarão a fase de grupos da Libertadores em abril, enquanto o Deportivo Táchira disputará a primeira rodada da fase prévia nos dias 2 e 9 de fevereiro contra o The Strongest (estando no caminho do Bahia se avançar até a última fase) e o Carabobo está na segunda rodada, jogando em 17 e 24 do mesmo mês com o Huachipato.

Nos grupos da Copa Sul-Americana estão Puerto Cabello e Monagas. Já Caracas e Metropolitanos se enfrentam no começo de março na fase prévia.

A Trivela buscou a Conmebol para entender se um possível conflito armado na Venezuela. Oficialmente, a entidade afirma que está “acompanhando os recentes acontecimentos” no país venezuelano, sem entrar em mais detalhes

Enquanto conflito Venezuela-EUA não escalar, Conmebol está tranquila

Povo venezuelano no Equador comemora captura de Maduro
Povo venezuelano no Equador comemora captura de Maduro (Foto: Imago)

A reportagem apurou com uma fonte da Conmebol que os ataques dos Estados Unidos só serão uma preocupação em caso de escalada no conflito — ou seja, se realmente acontecer uma guerra entre os dois países.

O Regulamento de Segurança da Conmebol não cita especificamente o que acontece com equipes que estejam em países em guerra ou conflitos, mas um ponto do regulamento aponta que o time mandante é responsável por “toda a segurança humana, física e ordem pública durante todo o tempo de permanência na cidade-sede”, tendo apoio do setor público com a polícia local, bombeiro e outros órgãos.

A fonte acredita que, se a Venezuela não estiver em situação de segurança para receber um jogo, os times venezuelanos das competições Conmebol poderiam mandar partidas em outros territórios.

O futebol venezuelano está parado no momento após o fim do campeonato local em 6 de dezembro com o título nacional da Universidad Central em cima do Carabobo. As equipes estão em preparação para temporada 2026, ainda sem data definida de início.

Jogadores do Carabobo estão em pré-temporada
Jogadores do Carabobo estão em pré-temporada (Foto: Divulgação)

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Estados Unidos e Venezuela podem entrar em guerra?

Para entender qual é a chance dos ataques dos Estados Unidos evoluírem para um conflito dentro da Venezuela, a reportagem consultou dois especialistas em geopolítica. Os dois foram unânimes: é pequena a probabilidade que o governo americano mobilize tropas no território do país sul-americano.

— É muito pouco provável que a situação evolua para uma guerra primeiro porque a Venezuela não tem possibilidade de fazer com que a situação escale nesse nível pela disparidade militar. E segundo, porque não é interessante para nenhum dos dois. Para os Estados Unidos, seriam mais custos. Quanto maior for a intervenção, maior gasto financeiro — inicia José Victor Ferro, mestre em estudos latino-americanos pelas universidades de Salamanca, Estocolmo e Sorbonne.

— Para a Venezuela, tampouco funciona, porque quem sofre mais com essa intervenção é a própria população. A gente já sabe que a situação econômica e social no país tem piorado muito nos últimos anos, mas com uma intervenção militar, a situação que já era ruim, com problemas com inflação, com falta de alimentos, piora muito mais — completou o especialista que também é pesquisador do Institut Barcelona de Estudis Internacionals (IBEI), do Observatorio de Regionalismo (ODR) e doutorando em Ciência Política na Universitat Pompeu Fabra (UPF).

O próprio presidente Donald Trump, em coletiva neste sábado, disse ser improvável um segundo ataque contra a nação que detém a maior reserva de petróleo do mundo.

O professor em política internacional e mestre em relações internacionais Tanguy Baghdadi também não vê uma invasão americana como possível, mas, na sua visão, existe uma chance de haver um conflito interno entre diferentes forças venezuelanas a depender de qual lado tomará o exército local.

Temos que ver como vai se posicionar o exército venezuelano, que era, ou é, leal ao Maduro — analisa, ressaltando que “ainda tem muita coisa para acontecer” até os próximos desdobramentos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante entrevista coletiva
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante entrevista coletiva (Foto: Imago)

José Victor Ferro trata uma disputa interna como “não impossível”, mas improvável. “O exército estava e está até agora dentro do projeto político do chavismo [ideologia política do ex‑presidente do país, Hugo Chávez]. Eles se beneficiaram muito desse projeto. Muitos deles ocupam cargos altíssimos dentro das forças e enriqueceram muito, sobretudo no governo Maduro”, disse.

— Os dissidentes [contra o chavismo] dentro do exército já foram sendo expurgados lentamente ao longo desses anos de governo chavista. Basicamente toda a burocracia estatal é chavista — conclui.

A possibilidade do ataque americano na Venezuela era tratada como possível desde agosto do ano passado, quando navios de guerra do governo de Donald Trump chegaram ao mar do Caribe e explodiram embarcações com suposto argumento de combate ao tráfico de drogas.

Por que a Venezuela foi atacada?

Os ataques deste sábado resultaram em explosões em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira. Os fatores para a ofensiva são diversos, passando pelo petróleo venezuelano, estatizado por Cháves em 2006 — o que gerou grande prejuízo a empresas americanas –, até a se impôr no tabuleiro geopolítico.

— O governo dos Estados Unidos quer demonstrar força, mandando um recado sobretudo para a potência mundial concorrente, a China, para reforçar que a América Latina é a zona de influência estadunidense e vai permanecer assim, até se tiver de intervir militarmente — aponta Ferro.

— Outra razão é por uma espécie de ‘floridização’ [em referência ao estado da Flórida] da política norte-americana, que parece que o tempo inteiro estar jogando com os eleitores latinos dos Estados Unidos, boa parte na Flórida. […] O recado que se quer demonstrar para esses eleitores, que no geral saem de regimes autoritários de esquerda, seja da Venezuela e principalmente de Cuba, é que os Estados Unidos serão impiedosos com esse tipo de governo. Eles querem colher os benefícios disso, consolidando o seu poder perante esse eleitorado — finaliza.

Segundo o governo Trump, o presidente Nicolás Maduro, no poder desde 2013, e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e serão levados para Nova York pelo navio USS Iwo Jima. Inclusive, o presidente americano divulgou uma foto do ditador venezuelano vendado com um óculos e supostamente algemado.

Foto de Maduro preso publicada pelo presidente dos Estados Unidos em sua rede social
Foto de Maduro preso publicada pelo presidente dos Estados Unidos em sua rede social (Foto: Reprodução)

O mandatário da Casa Branca disse que os EUA criarão um grupo para uma transição de poder na Venezuela.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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