América do Sul

Em um time sem posições rígidas, a dinâmica permitiu ao Chile golear e encantar

Dá para dizer que a Bolívia está longe de ser um adversário de nível e que ambos os times já estavam classificados. Tudo bem, são fatos. Mas não dá para menosprezar por completo a grande atuação que o Chile teve no encerramento de sua participação na fase de grupos da Copa América. Enfim, o time de Sampaoli fez tudo o que se esperava, em crescente desde a estreia na competição. E mesmo poupando alguns de seus destaques no segundo tempo, La Roja goleou por 5 a 0 no Estádio Nacional de Santiago. Mais um resultado para aumentar a confiança do time, ainda mais diante dos problemas extracampo sofridos por Arturo Vidal. E que também serve de lição sobre opções táticas e jogo coletivo.

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Por mais que a Bolívia tenha batido o Equador e conquistado a classificação, as fragilidades do time são evidentes. E, além de não repetir o grande primeiro tempo contra os equatorianos, La Verde ainda foi vítima da intensidade dos chilenos. Acabou atropelada. Logo aos três minutos, Aránguiz abriu o placar, em boa jogada coletiva, que começou em ótimo lançamento de Medel e uma ajeitada de Vargas que se transformou em passe. Já o segundo gol era questão de tempo. Alexis Sánchez cobrou falta na trave, enquanto Vargas perdeu gol feito. Acabou saindo só aos 37, em uma bola roubada por Sánchez, que tabelou com Valdívia e fuzilou.

Para a segunda etapa, Sampaoli tirou um pouco o pé. Substituiu os seus dois principais jogadores, Vidal e Sánchez, para as entradas de Matías Fernández e Ángelo Henríquez. Administrando mais o jogo, o Chile envolvia a Bolívia. Desandou na goleada a partir dos 20 minutos. Em uma jogada envolvente, Aránguiz fez o seu segundo na noite. Já o mais bonito veio dos pés de Medel. O zagueiro iniciou a jogada, se projetou à frente e recebeu um belíssimo passe de Valdívia na diagonal, para matar no peito e encobrir o goleiro. Àquela altura, Medel era o jogador de linha mais defensivo, já que Sampaoli preferiu testar, substituindo Jara por David Pizarro e recuando o volante Marcelo Díaz para a zaga. No fim, um infeliz gol contra de Raldes, fechando a conta para o Chile.

Depois de três jogos e uma preparação um tanto quanto turbulenta, o time de Sampaoli retoma de maneira plena as características que tornaram o time tão badalado entre o fim das Eliminatórias e a Copa de 2014. A intensidade e a pressão no campo ofensivo foram fatores fundamentais, assim como as tabelas em direção ao gol. La Roja foi até mais letal do que costuma ser, em uma equipe por vezes acusada de não saber aproveitar bem as vezes em que se aproxima do gol. Alexis Sánchez e Eduardo Vargas, especialmente, se movimentaram bastante para criar espaços. Além das próprias chances, permitiram a chegada dos companheiros e a criação de Valdívia (eleito merecidamente o melhor do jogo, ainda que outros de seu time também merecessem).

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Mais importante, no entanto, é a forma como os jogadores do Chile vão além de suas funções. Sánchez é um atacante que marca, o que permitiu o seu gol. Aránguiz é um volante que passa bem e se projeta, balançando as redes duas vezes. Medel se mantém na zaga, mas também extrapola e também ajuda na armação. O dinamismo do time de Sampaoli se dá aí. É o que torna o coletivo tão forte, além de sua qualidade técnica. Uma vantagem tática do time como um todo, que o torna realmente favorito na Copa América – ainda que a defesa, motivo de maiores temores, não tenha sido testada nem de perto contra os bolivianos.

Além do mais, o Chile teve mais um reforço de peso nesta sexta: o de sua torcida. Nos últimos jogos, até mesmo os jogadores reclamaram do silêncio e das vaias em alguns momentos. Desta vez foi diferente. Durante os 90 minutos, foi possível notar o enorme barulho em Santiago, ainda que a atuação do time tenha ajudado a empolgar. De qualquer forma, o momento decisivo a partir dos mata-matas deve causar a mobilização. E, com Argentina, Uruguai e Brasil (ou Colômbia) potencialmente do outro lado da chave, os chilenos podem ficar com o caminho aberto até a final. Para conseguir embalar ainda mais depois desta goleada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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