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River Plate volta ao Japão com mesma paixão de 19 anos atrás, mas em realidade totalmente distinta

O Mundial de Clubes, atualmente, representa uma oportunidade grande aos clubes sul-americanos. O campeão da Libertadores chega de peito aberto para enfrentar o dono da Champions, na tentativa de se afirmar além dos limites continentais. Mas sem o peso da responsabilidade. Passando à decisão, o representante sudaca costuma entrar como o desafiante. O franco-atirador, geralmente inferior em qualidade técnica, que tenta surpreender. Não à toa, desde que a Fifa voltou a organizar a competição, o normal é ver o sul-americano à espreita, jogando para segurar os adversários e matar a partida na mínima oportunidade. Postura relativamente recente, diante do que se via até o início dos anos 2000.

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O River Plate é um exemplo claro dessa transformação. O time de Marcelo Gallardo se consagrou na Libertadores já por prezar pela eficiência. Sem se expor, os Millonarios contaram com uma equipe bastante sólida, pronta para controlar sem a bola os adversários e garantir as vitórias em ataques rápidos. Assim, os portenhos fizeram várias vítimas pelo caminho e derrotou o Tigres na decisão. Bem diferente do timaço de 1996, que já contava com Gallardo – na época, um promissor meia, no banco de reservas. Os alvirrubros contavam, indiscutivelmente, com um dos melhores times do mundo na década. Em tempos nos quais a Lei Bosman apenas engatinhava e a força econômica não pesava tanto quanto no futebol atual, ficava mais fácil de segurar os grandes destaques. De montar um grande esquadrão.

Basta ver a maneira como o River Plate encarou a Juventus no Japão, no Mundial Interclubes de 1996. A Velha Senhora contava com um grande elenco, com vários craques que ganhariam ainda mais moral nos anos seguintes. Del Piero e Zidane despontavam entre os melhores do mundo, amparados por jogadores da estirpe de Ciro Ferrara, Deschamps, Boksic e Peruzzi. Porém, a equipe de Marcello Lippi não podia se colocar tão à frente do River Plate. Olhando no papel, e mesmo por aquilo que produziam em campo, não havia o favoritismo escancarado dos dias atuais aos europeus.

O maior simbolismo disso estava em Zidane. O craque francês cresceu idolatrando Enzo Francescoli, que passou anos defendendo o Racing de Paris. Aproveitou o encontro com a lenda do River Plate em Tóquio para pegar a sua camisa. E não queria mais largá-la, voltara a se sentir como um menino. “Um dos meus maiores sonhos era ter a camisa de Francescoli. Eu consegui e, não só isso, fui dormir com ela. Minha mulher não ficou muito feliz com isso”, contou Zizou, tempos depois. Um ano antes, Véronique Fernández já tinha concordado em batizar em seu primogênito como Enzo, homenagem ao uruguaio.

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Já aos 35 anos, Francescoli voltara ao River Plate em 1994. Para viver os últimos grandes momentos de sua carreira, incluindo, além da Libertadores, também a Copa América de 1995 com a seleção uruguaia. El Príncipe era o ápice da maestria do time treinado por Ramón Díaz. E que servia de exemplo também a tantos outros jovens promissores que começavam a despontar. Além de contarem com categorias de base bastante fortes, os alvirrubros também faziam ótimas observações no mercado.

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Dono da camisa 10, Ariel Ortega recebia todas as expectativas da torcida. Era o jovem maestro entre outros nomes cercados de expectativas, como Juan Pablo Sorín, Julio Cruz e Marcelo Gallardo. Roberto Bonano, Celso Ayala e Sergio Berti ofereciam um pouco mais de rodagem entre os titulares. E, no banco de reservas, os millonarios ainda conheciam o potencial de Marcelo Salas. O atacante havia sido trazido meses antes, da Universidad de Chile, para ocupar a lacuna deixada por Hernán Crespo – vendido à Europa após a conquista continental, como Matías Almeyda. Mas o chileno só eclodiu em Núñez a partir de 1997, quando se tornou o primeiro jogador de fora da Europa a concorrer ao prêmio de melhor do mundo da Fifa.

No Estádio Internacional de Tóquio, o respeito imperou entre os grandes times do River Plate e da Juventus. Em duelo aberto, a Velha Senhora criou as melhores chances durante o primeiro tempo, parando nas boas defesas de Bonano. Já na segunda etapa, o River chegou a carimbar o travessão, mas acabou derrotado com um gol aos 36 minutos. Del Piero dominou na área e deu lindo chute cruzado para estufar as redes. No final, os millonarios partiram para a pressão, sem conseguir passar por Peruzzi. Diferença mínima entre europeus e sul-americanos, que se repetiu em vários duelos naquela época. Ainda que os donos da Champions tenham levado a Copa Intercontinental cinco vezes entre 1995 e 1999, todos os vencedores suaram bastante para ficar com a taça. Grêmio, Vasco e Palmeiras, sobretudo, venderam caro a derrota. E, em 2000, o Boca Juniors quebrou a sequência contra o Real Madrid.

Entre a conquista do Internacional no Mundial em 2006 e o triunfo do Corinthians em 2012, a Europa conseguiu restabelecer uma hegemonia tão longa contra os sul-americanos. Mas nem de longe contando com a mesma resistência. O River Plate busca a decisão, possivelmente contra o Barcelona, para ser mais um nesta luta. Os alvirrubros não viveram bom segundo semestre, com apenas duas vitórias nos últimos dez jogos, além de uma classificação mediana no Campeonato Argentina e a eliminação nas semifinais da Copa Sul-Americana diante do surpreendente Huracán. Não é um retrospecto que intimide.

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Como explicação à queda, o River Plate perdeu alguns jogadores importantes após a conquista da Libertadores. Funes Mori e Cavenaghi, sobretudo, partiram para o futebol europeu, enquanto Teo Gutiérrez já havia saído um pouco antes. Enquanto isso, Carlos Sánchez e Kranevitter só esperam a competição internacional para se mudar. Terão a última chance para ampliar suas histórias em Núñez. E contam com o apoio da torcida, que já toma as ruas japonesas, para conseguir o feito.

No fim das contas, esta será a grande arma do River Plate no Mundial de Clubes: o calor dos alvirrubros, para motivar a garra de seus jogadores dentro de campo. A organização do time contará bastante, ainda que seja um desafio superar a qualidade técnica dos europeus. Não dá para se equiparar, como aconteceu há 19 anos. O mundo e, em especial, o futebol mudaram bastante neste intervalo. E, por mais que a paixão dos millonarios permaneça a mesma, a maneira de perceber o time e de torcer o dele se transformou.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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