Argentina
Tendência

Riquelme recebeu uma homenagem do tamanho de sua grandeza no Boca: imensurável

Oito anos depois de sua aposentadoria, Riquelme voltou a campo na Bombonera lotada para fazer sua partida de despedida

Juan Román Riquelme encerrou sua carreira como futebolista há mais de oito anos. O craque havia retornado ao Argentinos Juniors, onde deu seus primeiros passos nas categorias de base, para auxiliar a reconstrução do clube na segunda divisão e pendurou as chuteiras em 2015. Desde então, o eterno camisa 10 teve outras passagens no futebol, inclusive como vice-presidente do Boca Juniors. Faltava, no entanto, uma despedida que demonstrasse sua idolatria dentro de La Bombonera. O que, enfim, aconteceu neste domingo. As arquibancadas do estádio lotaram para aplaudir a lenda, pela última vez com a camisa xeneize. Seria uma noite emotiva, com vários convidados ilustres, de Carlos Bianchi a Lionel Messi. Ninguém mais festejado, porém, que Román. Um dia depois de completar 45 anos, o maestro recebeu uma reverência do tamanho de sua grandeza no Boca: imensurável.

Riquelme estava no quintal de casa em La Bombonera. E da maneira como sempre gostou: rodeado por arquibancadas lotadas, próximo dos seus, pronto a tratar o gramado como um grande palco. Mais de 55 mil pessoas encheram as tribunas, para tratar o amistoso festivo de veteranos feito uma final de Libertadores. Román merecia, após liderar o Boca Juniors em seu período mais glorioso. Além dos fogos de artifício e da chuva de papel picado, os torcedores exibiram um bandeirão enorme com a imagem do camisa 10 em sua emblemática comemoração com as mãos na orelha, em que peitava o então presidente Mauricio Macri – hoje seu opositor político nos corredores xeneizes.

De Bianchi a Messi, enquanto Scaloni calçava as chuteiras

A lista de convidados ilustres na Bombonera ia de técnicos a craques. Carlos Bianchi, Alfio Basile e José Pekerman deram peso à beira do campo. Enquanto isso, as equipes se dividiram entre heróis do Boca e lendas da seleção da Argentina. Antigos companheiros de Riquelme puxavam a fila entre os boquenses, incluindo Óscar Córdoba e Rodrigo Palacio. Martín Palermo foi a ausência mais sentida, sem conseguir conciliar os compromissos como técnico. Já a Argentina possuía Messi como dono da camisa 10. Outros tricampeões do mundo estavam presentes, a exemplo de Ángel Di María, mas havia espaço a ex-jogadores do passado, inclusive identificados com o River Plate, como Pablo Aimar. O técnico Lionel Scaloni, por sua vez, calçou chuteiras e entrou em campo com a camisa 18 da Albiceleste.

A equipe de Riquelme venceu por 5 a 3, o que era de menos na ocasião. Román marcou o seu gol, com a categoria costumeira, num chute no cantinho. Messi também faria o seu, ao driblar o veterano goleiro Navarro Montoya. A torcida do Boca Juniors chegou a pedir para que o craque vestisse a camisa xeneize, mas também lembrou que “em La Boca, o maior é Román”. O futebol serviu de mero pretexto para se engrandecer um pouco mais uma figura gigantesca como Riquelme. A lenda agradeceu aos seus treinadores, aos companheiros e também a Diego Maradona – o ídolo representado através da camisa 10 utilizada por Román no final, mencionado também no discurso de despedida do veterano.

“Sem vocês não poderia viver”: As palavras de Riquelme

“Estou feliz demais. Isso é muito para mim. Quero agradecer a todos os companheiros e técnicos. Em 10 de novembro de 1996 eu entrei no filme mais lindo, com minha estreia. Meu pai me fez torcedor do Boca, como todos vocês, e vou morrer bostero, como todos vocês. A cada dia que me levanto e a cada dia em que vou dormir, peço a Deus para que possamos continuar com essa relação e esse respeito. Sem vocês, eu não poderia viver”, declarou um emocionado Riquelme, que teve a chance de atuar ao lado de seu próprio filho durante a noite. “Desde a primeira partida até a última, fui muito querido. Pude jogar com o maior que vi de criança, que foi Maradona. Hoje é um dia maravilhoso para todos os bosteros porque também podemos desfrutar de alguém que é incrivelmente grande e que é Messi. Não sei se é maior que Maradona, mas são os maiores que eu vi”.

A Argentina possui uma relação muitíssimo especial com seus ídolos, a ponto de venerar as maiores figuras. Riquelme é exatamente um daqueles raros que atingiu essa aura sacrossanta no país. Foi uma sumidade no Boca Juniors, no período mais expressivo do clube além das fronteiras. Jogou o fino durante muitos anos, sendo um dos mais dignos de aplausos, de qualquer torcida. E vestiu a camisa xeneize com um gosto raro, de quem foi a encarnação do próprio Boca enquanto esteve em campo. A homenagem foi dedicada a Román, mas também à identidade e à grandeza dos boquenses, às quais a ligação do camisa 10 é inquebrantável.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo