Argentina

Muito desfalcada, já foi um mérito a Argentina achar 18 jogadores para trazer ao Rio

Bicampeã olímpica em 2004 e 2008, a seleção argentina dificilmente conseguirá repetir a conquista no Rio de Janeiro. O técnico Julio Olarticoechea, que assumiu em cima da hora com a saída de Tata Martino, dois dias atrás, anunciou sua lista de 18 jogadores cheia de desfalques importantes. Já foi um feito, para falar a verdade. Até a última quarta-feira, havia o risco de o time nem conseguir juntar o número de atletas necessário para disputar a competição.

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Os principais nomes da convocação argentina são o goleiro Gerónimo Rulli, da Real Sociedad, o meia Lucas Romero, do Cruzeiro, e os atacantes Manuel Lanzini, do West Ham, e Ángel Correa, do Atlético de Madrid. Nesta quinta-feira, o também colchonero Luciano Vietto foi vetado pelo seu clube, e Jonathan Calleri, do São Paulo, foi chamado para a vaga.

Rulli é um dos dois nomes com mais de 23 anos na lista. O outro é o zagueiro Víctor Cuesta, que corre o risco de não ir porque o Independiente bate o pé para mantê-lo. “Lamentamos pelo jogador, mas, do jeito que as coisas estão na AFA, não vamos cedê-lo”, disse o vice-presidente do clube, Noray Nakis, à rádio La Red.

O jeito como a AFA está é no meio de uma bagunça generalizada. O grande problema é a crise política que assola a Federação Argentina. Como a Olimpíada não faz parte do calendário oficial da Fifa, ela precisa negociar com os clubes para conseguir a liberação dos jogadores.  Mas quem vai pegar o telefone? A entidade sofreu intervenção da Fifa e está sem presidente, sendo tocada por um Comitê Normalizador, do qual estão à frente o suíço-colombiano Primo Corvaro e a paraguaia Montserrat Giménez, enviados pela Fifa e pela Conmebol.

Sem força política, sem dinheiro, sem autoridade e no meio de uma crise sem precedentes, a AFA ficou muito enfraquecida na sua negociação com os clubes. Dybala não foi liberado pela Juventus. “Não tenho permissão”, disse à DirecTV, ainda em maio, logo depois de conquistar a Copa Itália. A Internazionale adotou a mesma postura em relação a Mauro Icardi. “Ele não está disponível para ir. Há donos novos no clube e querem que todos fiquem”, informou o vice-presidente do clube italiano, Javier Zanetti.

Cuesta, aliás, foi chamado porque a AFA não conseguiu liberar os dois zagueiros acima de 23 anos que tinha em mente. Chegou a haver um acordo com o técnico Roberto Martínez para a seleção argentina contar com Funes Mori, segundo o La Nación, mas a troca de comando do Everton, com a chegada de Ronald Koeman, melou a tratativa.

O outro zagueiro veterano na pré-lista era Mateo Musacchio, que também não apareceu na convocação final. O Villarreal está na última fase preliminar da Champions League, cujas partidas serão realizadas entre 16 e 24 de agosto. O torneio de futebol da Olimpíada está marcado do dia 3 ao 20 desse mesmo mês.

Para piorar a situação da defesa, Emanuel Mammana era nome certo na Olimpíada, mas foi vendido para o Lyon na semana passada e ficou com a situação incerta. “Não sei de nada. Quero chegar, me juntar ao grupo, e depois a AFA e o clube conversarão”, havia dito, na época em que a contratação tornou-se oficial. Considerando que ele não aparece na lista, podemos deduzir como foi essa discussão.

O Atlético de Madrid de Diego Simeone havia mostrado muita boa vontade liberando Ángel Correa e Luciano Vietto. A pré-lista ainda tinha Kranevitter, que acabou de acertar o seu empréstimo para o Sevilla. E os colchoneros ainda vetaram Vietto, depois que sua convocação tornou-se oficial.

Mesmo internamente, a AFA não tem músculo de exigir que os clubes argentinos liberem seus jogadores – como faz a CBF, por exemplo. Envolvido nas semifinais da Libertadores, o Boca Juniors não liberará Jonathan Silva e Cristian Pavón até que sua campanha continental chegue ao fim. Disputa a segunda partida semifinal na próxima quinta-feira, justamente o prazo final para a Argentina apresentar sua lista definitiva para o Comitê Olímpico. Dará tempo de incluir a dupla caso o Boca seja eliminado pelo Independiente Del Valle?

Não espanta que, diante desse cenário, Tata Martino tenha pedido demissão. Mesmo com a decepção da derrota para o Chile, na final da Copa América, ele sonhava em disputar a Olimpíada. Mas a dificuldade para liberar os jogadores e montar o seu elenco foi grande demais para ele. “Devido à indefinição da designação de novas autoridades da Federação Argentina e aos graves inconvenientes para conseguir formar o elenco que representará o país nos próximos Jogos Olímpicos, o corpo técnico da seleção decidiu apresentar a sua renúncia”, disse o comunicado em que a AFA informou a saída de Martino.

O clima na entidade é tão de fim de feira que Olarticoechea foi escolhido, segundo o La Nación, basicamente porque era o único treinador restante que ainda tinha contrato com a AFA. “Quem montou a lista fui eu. Assumo toda a responsabilidade. Se algum jogador não vier, faremos uma troca. Se tivermos que ir (ao Rio) com um jogador a menos, iremos”, disse, nesta quinta-feira, na sua apresentação oficial.

A convocação de 18 jogadores ainda é provisória. Segundo o Comitê Olímpico Argentino, a definitiva precisa ser entregue em 14 de julho. A Argentina tem uma semana para tentar manter todo mundo que foi chamado, como Cuesta, ou Cristian Espinoza, que também encara resistência do Huracán para viajar ao Rio de Janeiro. Do jeito que as coisas vão, no entanto, o risco é ficar ainda mais desfalcada a cada dia que passa.

Goleiros: Gerónimo Rulli (Real Sociedad-ESP) e Axel Werner (Atlético Rafaela)

Defensores: José Luis Gómez (Lanús), Lisandro Magallán (Boca Juniors), Víctor Cuesta (Independiente), Lautaro Gianetti (Vélez), Alexis Soto (Banfield) e Leandro Vega (River Plate).

Meias: Mauricio Martínez (Unión), Santiago Ascacibar (Estudiantes), Lucas Romero (Cruzeiro-BRA), Giovani Lo Celso (Rosario Central) e Manuel Lanzini (West Ham-ING).

Atacantes: Cristian Espinoza (Huracán), Ángel Correa (Atlético de Madrid-ESP), Joaquín Correa (Sampdoria-ITA), Jonathan Calleri (São Paulo-BRA) e Giovanni Simeone (River Plate)

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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