Argentina

Messi não precisou de gol para oferecer um recital no espetáculo da Argentina contra a Itália

Um Messi leve flutuou em campo contra a Itália e comandou o baile da Argentina, em 3 a 0 que ficou até magro

Lionel Messi atravessa um momento mais leve em sua carreira. Pode não ser a máquina de gols tão frequente em outros anos, mas consegue desfrutar bem mais dentro de campo. Prestes a completar 35 anos, sabe que seu tempo para aproveitar é curto. E a seleção argentina, cada vez mais, representa um prazer ao camisa 10. A conquista da Copa América aliviou uma enorme pressão e a perseguição pela falta de títulos. Messi por vezes parece flutuar. Um belíssimo exemplo disso veio em Wembley, durante a incontestável vitória da Albiceleste por 3 a 0 sobre a Itália, na chamada Finalíssima entre os campeões sul-americanos e os europeus. O craque não balançou as redes, mas teve uma atuação inesquecível por seus lances de mágica. É uma impressão forte desta versão rejuvenescida do capitão, às portas da Copa do Mundo.

A Argentina cresceu muito desde a conquista da Copa América. A equipe se impôs na decisão contra o Brasil, em que precisou de organização e um grande lampejo no Maracanã. Desde então, a Albiceleste como um todo fica mais leve. Há um entendimento maior entre os jogadores e um espírito de doação que marca este ciclo sob as ordens de Lionel Scaloni. Paulatinamente, com um futebol mais vistoso. Se a grande campanha nas Eliminatórias contou com vários jogos em que os argentinos precisaram jogar bem apenas por um intervalo mais curto de tempo, a melhora se tornou gradativa. As exibições passaram a encher mais os olhos, até que viesse o espetáculo em Wembley. O melhor aconteceu no segundo tempo, quando o triunfo estava encaminhado e os argentinos puderam simplesmente se divertir.

É até difícil citar apenas um nome da Argentina, entre os muitos jogadores que brilharam contra a Itália. Lautaro Martínez e Ángel Di María merecem menções honrosas, pelos gols e também pelo gosto que exibiam a cada lance plástico. Messi, ainda assim, é quem faz a “Scaloneta” girar ao seu redor. Os gritos de olé e as grandes jogadas construídas na Finalíssima quase sempre tinham o camisa 10 como ponto de partida ou ponto de chegada. Os argentinos têm essa consciência de que, com o craque à vontade, eles são superiores.

Messi participou dos gols, de dois, mesmo sem marcar. Sua ação no primeiro tento é maravilhosa, especialmente pelo giro que aplicou em Giovanni Di Lorenzo. Foi como se o camisa 10 parasse o tempo, até esperar o momento ideal para se virar e partir em direção ao gol, sem que o marcador sequer visse sua sombra. Escolheu o instante certo para a ultrapassagem de Lautaro, que escorou seu passe na pequena área. Já no terceiro gol, a arrancada do craque impressionou pela vitalidade nos acréscimos do segundo tempo. O atacante até seria freado pela zaga italiana, mas a sobra permitiu que Paulo Dybala desse seu chute de primeira rumo às redes. Quando tentou anotar o seu, Messi esbarrou em Gianluigi Donnarumma, responsável por grandes defesas – e por evitar um massacre maior.

Messi ergue a taça (GLYN KIRK/AFP via Getty Images/One Football)

Um dos lances mais emblemáticos, aliás, apresentou diferentes faces desse Messi tão dedicado à seleção. O camisa 10 se esforçou muito na defesa e, durante o segundo tempo, bateu a carteira de Jorginho na frente da área argentina sem que o volante sequer percebesse. O veterano então arrancou por todo o campo, com os defensores correndo para trás, como se temessem um drible humilhante. Messi então invadiu a área e abriu para o chute, sem tanto ângulo, que Donnarumma repeliu. Além da magia, há muita energia no camisa 10 nesta fase com a Albiceleste.

O refinamento de Messi na noite em Wembley, contudo, está em lances pequenos. Aqueles que não valiam necessariamente o gol, mas sim o deslumbramento. E foram vários. Os dribles, as penteadas, as fintas de corpo sem nem precisar tocar na bola. Os giros e tapas na medida aos companheiros. Nem quando a marcação dobrava parecia capaz de brecá-lo. Só abusando da violência: Giorgio Chiellini tentou arrancar a camisa e Leonardo Bonucci deixou o cotovelo. Durante o segundo tempo, num momento em que a Argentina rodou a bola e botou a Itália na roda, o grito de olé nas arquibancadas era orquestrado pelo maestro com a camisa 10. Isso até que os italianos perdessem a paciência e Di Lorenzo (o mesmo que não achou o atacante no lance do primeiro tento) desse uma entrada dura no craque, sem muitos motivos. Só mesmo assim para desbancá-lo durante o recital.

Merecidamente, Messi foi eleito o melhor em campo – em premiação que por vezes ele recebeu graças ao renome, mas definitivamente não foi o caso nesta noite. E pôde criar o hábito de erguer mais uma taça, com a entrega do Troféu Artemio Franchi. Os companheiros, antes disso, repetiram a bonita cena do Maracanã: jogaram Messi para o alto. Existe uma reverência em relação ao craque que é muito legal nesse elenco. Os demais sabem que estão ali para fazer Messi maior, e têm um gosto imenso por isso. Porém, a questão não é apenas de luta, como em tantas outras equipes limitadas da Albiceleste. Desta vez, o camisa 10 sabe que pode dividir mais as responsabilidades e que outros vão se prontificar a decidir junto com ele. Não precisa mais carregar tudo sobre as suas costas. Até por isso, nota-se mais feliz.

Messi está num momento de sua trajetória no qual o que vier é lucro. Ninguém tira seu lugar como lenda do esporte. Porém, não é que deixa de lado as ambições. Dá para fazer mais, especialmente com a sua última Copa do Mundo às portas de acontecer. É bacana saber que o camisa 10 terá uma despedida em alto nível, depois de toda a melancolia e ranger de dentes ocorrida em 2018. Que poderá aproveitar mais o Mundial sem aquele amargor de antes. O caminho rumo à taça é longo e, mesmo que essa seja a melhor Argentina em muito tempo, não será necessariamente a melhor forma de Messi em uma Copa. Mas ainda pode ser a mais leve e, flutuando, o craque continua sublime em campo. A Itália não vai se esquecer jamais.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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