Argentina

Politicagem impera e torcedor é quem perde na Argentina

A violência no futebol argentino atingiu um patamar sem precedentes. Os sucessivos episódios, o último deles terminando na morte de dois torcedores após confronto de facções rivais do Boca Juniors, levaram o Ministério da Segurança e a Associação de Futebol da Argentina a tomarem medidas drásticas. O primeiro anúncio foi de que, até dezembro, os jogos não contarão com torcidas visitantes. Agora, vão restringir o acesso às arquibancadas apenas aos sócios dos clubes. Uma esterilização que parece não ter limites.

A princípio, a entrada limitada aos sócios acontecerá nas duas primeiras rodadas do Campeonato Argentino e da segunda divisão. A medida foi tomada sob o pretexto de que o preço dos ingressos ainda precisam ser determinados. Porém, também serve como medida paliativa das autoridades para uma questão que claramente está fora de controle.

“Isso dá mais propriedade ao clube, no sentido que seus próprios associados são os que vão ao espetáculo. É melhor que os clubes tenham mais sócios. A medida vai gerar mais associados para os clubes se sustentarem”, avalia Ricardo Casal, Ministro de Segurança da província de Buenos Aires.

O problema é que a análise do burocrata é muito rasa diante de um problema com vários outros desdobramentos. E a reação natural é o protesto nos arredores dos estádios, algo que já aconteceu em outras ocasiões e tem tudo para se repetir desta vez – com grandes possibilidades de acabar resultando em mais violência.

Perdem os barra bravas, mas também os clubes e os torcedores

De fato, a restrição aos sócios evita a revenda de ingressos, uma das principais fontes de renda dos barra bravas. Cercar a estrutura dessas facções parece uma boa medida inicial, mas é difícil prever seu efeito imediato. Tão importante quanto isto é mapear os esquemas de corrupção e de favorecimento político que ajuda a manter o sistema. Porque, embora o governo não ressalte este ponto, vários políticos estão envolvidos até o pescoço com essas máfias.

No entanto, penalização mais dura acaba incidindo sobre o torcedor comum, que não é associado aos clubes e não poderá mais frequentar as arquibancadas. Uma alternativa interessante diante da restrição foi apresentada pelo Talleres, que pretende criar uma condição especial para que os torcedores se associem por uma ou duas rodadas, pagando o preço equivalente ao ingresso.

A reação do Talleres é natural. Afinal, os clubes perdem – e muito – com o acesso limitados aos sócios. Alguns não têm estrutura para suportar novas adesões imediatas e outros nem mesmo o estatuto permite, como o próprio Boca Juniors ou Colón, por já possuírem mais associados do que a capacidade de seus estádios.

E um fato que parece nem de longe ter passado pela cabeça (ou melhor, pelas bocas) das autoridades: a maioria barra bravas possuem carnês de sócios dos clubes. Não é fechando os portões dos estádios que a influência deles será extirpada e os conflitos serão eliminados. A disputa pelo poder vai muito além de uma mera determinação da AFA ou do governo. Está mais internalizada na conivência dos dirigentes e na falta de um controle mais efetivo sobre a ação dos mafiosos que se travestem como torcedores.

No pano de fundo de um imbróglio sem tamanha, obviamente, o jogo político. Dentro de dez dias, a Argentina terá as eleições primárias legislativas e essas medidas paliativas seriam a forma de responder a uma das questões mais graves do país. Um banimento que pode até enganar parte da opinião pública, mas nem de longe ataca o problema. E que deixa cada vez mais claro aos torcedores de verdade que a violência não irá acabar tão cedo no futebol argentino.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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