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Morte suspeita na Argentina mostra por que o protesto de judeus merecia ser ouvido

Parece enredo de filme da máfia. O promotor Alberto Nisman foi encontrado morto em seu apartamento em Buenos Aires. Ele estava caído ao lado da arma utilizada para o tiro, abrindo a possibilidade de suicídio. Mas as circunstâncias deixam margem para se acreditar em crime. Até porque a morte ocorreu horas antes de Nisman apresentar uma denúncia ao Congresso argentino. O tema: informações que mostrariam o envolvimento de pessoas importantes do governo de Cristina Kirchner no encobrimento dos responsáveis ao atentado da Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), ocorrido em 1994.

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Trata-se do maior ataque terrorista da história da América Latina. Uma bomba destruiu o prédio da Amia, matando 85 pessoas. Desde então, as diversas investigações foram infrutíferas, sempre com suspeita de que os sucessivos governos argentinos participariam de um abafamento do caso.

Por que estamos falando nisso em um site de futebol? Bem, entre as centenas de protestos que ocorreram durante a Copa do Mundo de 2014, um deles teve justamente esse mote. Judeus brasileiros se mobilizaram para reclamar da falta de justiça às vítimas do atentado da Amia. Praticamente ninguém se importou na época. A estranhíssima morte de Nisman mostra que o assunto merecia mais atenção.

Veja abaixo a reportagem da Trivela sobre a manifestação da comunidade judaica de São Paulo em julho de 2014:

Não são pelos 20 centavos, mas pelos mortos do atentado que liga Argentina e Irã
Comunidade judaica pede que o atentado à Amia seja lembrado durante Argentina x Irã (AP Photo/Dario Lopez-Mills)
Comunidade judaica pede que o atentado à Amia seja lembrado durante Argentina x Irã (AP Photo/Dario Lopez-Mills)

Eram poucas pessoas, cerca de 60. Eles estavam na avenida Paulista, em São Paulo, com faixas e roupas pretas. Em uma Copa com uma quantidade considerável de protestos pelas cidades, uma manifestação tão reduzida receberia pouca atenção. Mas não deveria. Essas seis dezenas queriam apenas que o maior atentado terrorista da América Latina fosse lembrado antes de Argentina e Irã se enfrentarem no Mineirão.

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A história começou em 18 de julho de 1994 em Buenos Aires. Uma bomba explodiu na sede da Associação Mutual Israelita-Argentina, destruindo o prédio e matando 85 pessoas (67 dentro do edifício e o restante na vizinhança) e ferindo mais de 300. A conta ainda cresce se forem incluídos os imóveis danificados.

Apesar da gravidade, o caso nunca avançou na Justiça. Durante anos, os responsáveis eram trocados e surgiam acusações de acobertamento. Em 2005, o cardeal Jorge Mario Bergoglio (atual Papa Francisco) deu a primeira assinatura de uma petição por justiça. Em 2006, os promotores Alberto Nisman e Marcelo Martínez Burgos acusaram formalmente o governo do Irã de ordenar a ação, e o Hezbollah por executá-la. A versão é contestada, mas ganha força pelo fato de que um grupo ligado ao Hezbollah havia assumido um atentado contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires em 1992, dois anos antes do ataque à Amia.

Sede da Amia após atentado terrorista de 1994

A questão é que, até hoje, ninguém foi punido. Um acordo entre Argentina e Irã limitou as investigações a quem já estivesse na lista de procurados pela Interpol e os interrogatórios foram realizados pelos iranianos. A Justiça argentina ficou fora de boa parte do processo.

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A comunidade judaica argentina, a maior da América Latina, até hoje organiza grandes manifestações todo 18 de julho (veja algumas fotos abaixo). O próximo, em menos de um mês, marcará o 20º aniversário do atentado. Claro que um encontro entre Argentina e Irã na Copa do Mundo não podia passar batido.

Por isso, a comunidade judaica brasileira realizou o protesto deste sábado. O pedido era que o caso fosse lembrado. O Congresso Judaico Latino-Americano criou campanha – inclusive enviando cartas para Joseph Blatter e Dilma Rousseff – para que houvesse um minuto de silêncio antes da partida no Mineirão. Não foram atendidos.

Provavelmente eles não esperavam ter sucesso. Mas só queriam que a sociedade não esquecesse que, até hoje, o maior atentado terrorista da América Latina segue impune.

Faixa em protesto realizado em São Paulo no dia de Argentina x Irã (AP Photo/Dario Lopez-Mills)

Homem chora em protesto de 2013 contra a impunidade no caso da Amia (AP Photo/Victor R. Caivano)

Protesto por justiça no 19º aniversário do atentado à Amia, em 2013 (AP Photo/Victor R. Caivano)

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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