Cantona tem muito a nos dizer sobre o ataque em Paris e a intolerância

Eric Cantona é um jogador de futebol como poucos. Não por causa do talento que demonstrou ao longo da carreira, sobretudo defendendo o Manchester United. Mas porque poucos ex-atletas demonstram uma visão de mundo tão ampla quanto à do francês. Virtude que ele reiterou na última semana, durante entrevista à rede de televisão Euronews. Questionado sobre os ataques em Paris e discriminação, o veterano propôs uma análise acima das religiões, assim como reforçou a capacidade do futebol em promover a integração.
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“O que eu quero dizer é que, hoje em dia, o que aconteceu não deve ser usado contra o Islã. O fanatismo está em todos os lugares, mas pertence apenas a uma minoria. O restante é simplesmente católicos, budistas, muçulmanos. Eu penso que é importante tomar uma longa ou histórica visão. Se nós focarmos apenas na atualidade, se nos limitarmos aos noticiários atuais, é como se as coisas nunca tivessem acontecido antes. É preciso resgatar que tudo isso já aconteceu, isso tudo já aconteceu com grupos terroristas que não eram islâmicos”, respondeu Cantona ao repórter Diego Giuliani.
O veterano continuou sua defesa da liberdade aos islâmicos: “O perigo seria dizer que todos os muçulmanos são assim, mas estou convencido que 90% deles se sentem desconfortáveis hoje e estão envergonhados com o que aconteceu. É importante evitar dizer que um muçulmano é moderado, se ele é apenas um cidadão como eu ou você. O que significa isso? Que o Islã é uma religião extremista? É uma provocação latente, você vê? E isso é muito perigoso. Não devemos pintar a todos com o mesmo pincel. Este é o perigo, eu penso”.
Questionado sobre os temores quanto ao crescimento de grupos racistas e de extrema direita, Cantona também foi categórico em sua resposta: “Parece que tudo isso está ligado à crise econômica. Parece que, se não houvesse a crise de 1929, Hitler nunca obteria o poder. E, infelizmente durante a crise, as pessoas caíram no desespero, eles não sabiam mais em que se segurar e tudo isso permitiu o nascimento do extremismo. O que é perigoso, mais uma vez, é tomar vantagem do desespero de algumas pessoas para espalhar ideias malucas. Esses que criam e desenvolvem ódio por motivos políticos, para ter poder. E penso que isso é triste e repreensível”.
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Além disso, Cantona reiterou a sua confiança sobre a força do futebol para combater o racismo e a discriminação: “Eu penso que o esporte, e o futebol em particular, pode fazer isso. Porque, se você é melhor que alguém, você joga. Esta é a beleza no esporte. O que é lamentável é que, assim que você deixa o campo, a situação se torna como no resto da sociedade: se a cor da sua pele ‘não corresponde’, você pode não ter o lugar que merece. Se no resto da sociedade tivesse modelos, se os jovens tivessem modelos… Mas hoje eles não têm mais modelos. Eles não existem, porque a nossa sociedade é injusta”.
Um craque também com as palavras, e que reitera as suas visões no recém-lançado documentário “Futebol e imigração, 100 anos de uma história em comum”.
A entrevista completa, com mais respostas de Cantona, pode ser conferida no vídeo abaixo, em inglês:


