River Plate x Argentinos Juniors marcou início de trajetória do técnico mais jovem do futebol argentino
Conheça Carlos Cavagnaro, que virou treinador aos 22 anos e cuja carreira virou livro em junho
Algumas carreiras são lembradas pelos títulos. Outras pelos caminhos que percorreram. Carlos Cavagnaro reúne um pouco dos dois. Aos 22 anos, entrou para a história ao se tornar o treinador profissional mais jovem a comandar uma equipe de futebol, assumindo o Argentinos Juniors em 1969.
A jornada de Cavagnaro ganhou vida em “Antes de Todos”, livro lançado em junho de 2026, e escrito por seu sobrinho, o psicólogo Ideler Cavagnaro. A obra recompõe a carreira do treinador por meio de documentos, relatos e memórias, revelando a trajetória de um pioneiro que fez do futebol uma ferramenta de conexão em alguns dos contextos mais desafiadores.
Ao longo de quatro décadas, o argentino trabalhou em mais de 20 países espalhados por quatro continentes. Depois de deixar Necochea, cidade litorânea da província de Buenos Aires, onde nasceu, rumo à capital, passou por destinos como Guatemala, El Salvador, México, Filipinas e Maldivas, encontrando cenários marcados por guerras, instabilidade política e profundas transformações sociais. Em muitos deles, o futebol assumia um papel que ia muito além das quatro linhas.
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O início de tudo no futebol argentino
Nascido em 1946, Cavagnaro iniciou sua trajetória muito antes de assumir um banco de reservas. Ainda adolescente, começou a jogar nas categorias de base do Vélez, mas uma lesão grave fez com que ele precisasse deixar os gramados. Com apenas 16 anos, ganhou uma nova chance e passou a trabalhar como auxiliar técnico.
Ele vivenciou seis temporadas aprendendo ao lado dos experientes treinadores Roberto Sbarra, com passagens por Gimnasia, Vélez e Independiente, e Victorio Spinetto, ídolo do Vélez e com passagens pela seleção argentina.
— Passei muitas tardes no Vélez, convivendo com os jogadores e a comissão técnica. Certa tarde, fui ver o Huracán jogar contra o Boca Juniors, e o Huracán seria o adversário do Vélez na semana seguinte. Nosso técnico era Roberto Sbarra, e ele me pediu para falar sobre o Huracán. Contei tudo o que tinha visto. Pouco tempo depois, Carmelo Simeone, que jogava no Boca Juniors, chegou e disse a mesma coisa. Foi aí que parei de jogar, e Sbarra me usou como olheiro: eu tinha 16 anos — contou o ex-treinador em entrevista ao “Notícias de Necochea”.
Cavagnaro seguiu desenvolvendo seu trabalho como auxiliar técnico, até que, em 1969, o jovem de apenas 22 anos foi contratado para assumir o Argentinos Juniors, seu primeiro grande clube. E no dia 16 de março daquele ano, fez sua estreia pelo Bicho, justamente contra o poderoso River Plate pelo Torneio Metropolitano.
Ali, ele se tornou o treinador mais jovem a dirigir uma equipe profissional da primeira divisão. O recorde, certificado pela Associação do Futebol Argentino (AFA), ultrapassou fronteiras e, neste ano de 2026, se candidatou ao Guinness World Records que criou uma categoria específica para avaliar o feito.
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O Argentinos Juniors terminaria aquele campeonato na nona posição de 18 clubes participantes. Depois da passagem pelo Bicho, Cavagnaro passou por Ferro Carril, Círculo Italiano e Atlético Regina até chegar ao Vélez, em sua primeira passagem como treinador do clube. A equipe da qual era torcedor e pela qual também passou como jogador das categorias de base tornou-se um dos pilares de sua história.
Após a passagem pelo Fortín quando levou o clube à sexta posição do Campeonato Argentino, Cavagnaro rodou por alguns clubes até chegar no Pumas, do México. Nele, teve um encontro inesquecível em 1975 quando ficou cara a cara com Pelé, já no fim de carreira, à época defendendo as cores do New York Cosmos.
Depois, teve passagem pela seleção da Guatemala, antes de retornar ao Vélez em 1977. Foi nesta segunda passagem pelo clube do coração que tudo mudou. O treinador, agora mais experiente e com bagagem, protagonizou uma campanha marcante, quando a equipe permaneceu 34 rodadas na liderança do Campeonato Argentino e derrotou o River Plate quatro vezes em um único ano, um feito jamais repetido. Apesar do feito, foram os Millionarios os campeões enquanto o Vélez ficou com a terceira posição.
— O Vélez de 1977 foi o meu melhor trabalho: eu tinha 31 anos — conta.
— Naquele ano, vencemos o River Plate em todas as quatro partidas que disputamos e goleamos o Boca Juniors de Toto Lorenzo. Jogávamos um futebol moderno, graças a tudo que eu havia aprendido em minhas viagens pela Europa: pressionávamos alto, fechávamos o campo adversário e jogávamos em triângulo. Era um futebol de vanguarda. Também estudávamos todos os nossos adversários, até mesmo como batiam pênaltis. Todo esse período me traz muita satisfação porque o Vélez é um clube que amo. É uma escola da vida: eu me formei lá — contou.
Mas foi longe da Argentina que sua carreira teve um destino único. Passou por países como Guatemala, El Salvador, México, Filipinas, Honduras, Panamá, Granada, São Cristóvão e Névis, além de atuar como coordenador da seleção sub-20 do Egito, medalha de bronze no Mundial da categoria em 2001.
Além disso, grandes nomes do futebol argentino fizeram sua estreia em clubes justamente sob o comando de Cavagnaro. José Pekerman, reconhecido técnico argentino, estreou como jogador no Argentinos Juniors enquanto Carlos era o treinador. Já Gustavo Costas, vitorioso técnico do Racing, ganhou sua primeira oportunidade como jogador na Academia, também sob o comando de Cavagnaro.
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O bom desempenho como treinador fez com que ele tivesse amizades fora do futebol, mas com grandes personalidades argentinas. Uma das principais parcerias do técnico foi Juan Manuel Fangio, histórico piloto de Fórmula 1 argentino.
— Para a Copa de 1978, fui contratado como comentarista de TV e, à noite, era convidado para jantar em muitas embaixadas. Fui a quase todas elas com Juan Manuel Fangio, um grande amigo que era uma celebridade no país. O pai dele era membro da Frente Ampla (partido político de centro-esquerda e movimentos de coalizão formados por apoiadores de Juan Domingo Perón), assim como o meu. Fangio era um homem sábio, profundo e humilde. Ele me deu anos de vida. ‘Você precisa comprar um carro, Carlitos’, ele me dizia toda vez que me levava para casa. Eu respondia que não gostava de dirigir. ‘Claro, porque você tem um motorista péssimo’, ele dizia e ria. Um verdadeiro grande homem — disse.
O fim de uma longa carreira
Em 2007, Carlos Cavagnaro se aposentou do futebol. O treinador, que havia iniciado sua trajetória como técnico em 1969, decidiu colocar fim em sua longa carreira. No VB Sport, clube das Maldivas, o treinador deixou a beira de campo.
Hoje, aos 80 anos, Carlos Cavagnaro vive em Necochea, onde fundou, em 1987, a Unidade Acadêmica Cavagnaro, dedicada à educação, que oferece formação integral que abrange desde a educação infantil até o nível superior, oferecendo cursos profissionalizantes, como o de Psicopedagogia.
Décadas depois de iniciar uma jornada que atravessou continentes, sua história continua sendo redescoberta por uma nova geração, agora registrada em livro e podendo ganhar reconhecimento também nos registros do Guinness World Records.