Pekerman: “Faltam rebeldes no futebol”

José Pekerman falou muito mais à Trivela do que as seis páginas que foram publicadas na edição de janeiro da revista (capa ao lado). Além de explicar sua visão sobre a participação argentina na Copa do Mundo e contar um pouco de sua metodologia de trabalho, responsável por revelar uma série de grandes jogadores, o treinador argentino falou também sobre sua decepção com o excesso de pressão que existe hoje no futebol.
“Há jogadores que, para não terem problema, passam a bola para um companheiro que está mal posicionado apenas para não ficarem com a responsabilidade”, acusa o argentino. É por isso que, mais uma vez, defende Riquelme, um de seus tantos pupilos formados pelas categorias de base da albiceleste.
Pekerman também critica os treinadores que não sabem lidar com jogadores acima da média, o que muitas vezes acaba por ser prejudicial para o próprio time. “Na prancheta, todos os treinadores são geniais e sempre ganham. Nunca erram. O difícil é fazer as coisas acontecer sem o desenhinho”, critica.
Abaixo você lê o trecho da entrevista com o treinador que não publicado originalmente na revista.
Confira a segunda parte da entrevista com Pekerman
Um dos jogadores que você mais elogia da atual safra agentina é Javier Mascherano. Aqui no Brasil, alguns críticos mais preconceituosos chegaram a dizer que ele era um jogador comum. O que você acha disso?
Macherano é um jogador abençoado. A tal ponto, que estreou na seleção principal da Argentina antes mesmo de jogar pelos profissionais do River. E todos sabem a importância que tem um volante na seleção argentina. Sempre foi um posto estratégico. Isso que você disse, de entender muito sobre futebol, já víamos desde que ele tinha 14, 15 anos. Ele chegou à seleção principal sem sequer passar pelos juvenis. Foi para a seleção de um Sul-Americano. Quando peguei a convocação e vi em que clube estava, li “Renato Cesarini”. Pensei: o que é isso? É um clube da liga regional de Rosário. Depois, o River foi lá e o contratou. Foi o mesmo que fez com Aimar, Constanzo, e muitos outros juvenis. Quando o vimos jogar, reconhecemos desde já que se tratava de uma pedra preciosa. Um menino, um garoto com problemas, mas com boa cabeça. E ele escutava – queria aprender.
Aqui no Brasil, sempre se comenta a possibilidade de os clubes trazerem treinadores estrangeiros. O nome mais comentado sempre é o de Carlos Bianchi. Se houvesse um convite, você pensaria nisso?
Realmente, nunca pensei a respeito. Eu sinto que países com a história de Brasil e Argentina, com o conhecimento que têm, às vezes te fazem se sentir substituível. Não te falo isso para ficar bem, porque na Argentina acontece a mesma coisa que no Brasil. Essas discussões também acontecem lá. Nunca estamos conformados. Assim como há uma maior predisposição à tática na Argentina – sempre houve muita discussão pública e gostamos de debater o assunto publicamente, principalmente na época de Menotti –, nunca nos satisfazemos, pois faz parte da ambição sempre querer estar melhor.
Você é um crítico ferrenho da “pressão por resultados” a que está submetida o futebol hoje em dia. Diz que esse é um dos motivos para o futebol estar num nível inferior ao de outros tempos. Se não houvesse tanta cobrança, o jogo seria melhor?
Claro! Os jogadores sentem prazer por jogar futebol. Se você tira deles a pressão e a rivalidade, e lhes deixasse simplesmente jogar, seria belíssimo. Na realidade, existe um vínculo entre eles. Se você passa a bola bem, espera receber bem de volta. Se um controla bem, o outro também quer mostrar que controla bem. Isso, aliás, é uma das coisas que me tem incomodado como treinador. Parece que os jogadores estão perdendo os conceitos do futebol.
Em que sentido?
Há jogadores que, para não terem problema, passam a bola para um companheiro que está mal posicionado apenas para não ficarem com a responsabilidade. É por isso que defendo jogadores como Riquelme, que muitas vezes se coloca numa posição incômoda porque o companheiro não fez um movimento correto. Como ele não quer passar mal a bola, prefere segurar um pouco a mais. Aí, por isso, dizem que Riquelme é lento. Incomodam-se com ele, que está sendo muito inteligente. Ele assume o compromisso. Tem coragem. Se ele perde a bola, prejudica o companheiro. Conheço muitos jogadores que, por não saberem suportar esse tipo de pressão. Essa solidariedade não existe mais nos grandes jogadores. Não há mais jogadores como Cruyff, Platini, Zidane. Como o Juninho Pernambucano, por exemplo
Mas você vê algum motivo para isso acontecer, de não haver mais jogadores como esses?
Acho que hoje em dia há jogadores que são muito protegidos pela imprensa, por serem muito simpáticos. E a imprensa não vê essas coisas. Têm que observar mais. Na Argentina estamos preocupados por isso: o jogador está cada vez mais dizendo “estou fazendo meu trabalho e outras coisas não são minha responsabilidade”. Por isso digo que há jogadores que às vezes têm coragem, porque não seguem a corrente. Faltam rebeldes, que corram contra a corrente.
Quem você colocaria como um desses “rebeldes”?
Riquelme é um deles. Só para deixar claro: não digo rebeldes de mau caráter, agressivos e mal-educados. Ele não faz alguma coisa só para dizer que fez. Por isso teve problemas com Van Gaal, que dizia que ele tinha de jogar pelas laterais e que ele não podia sair dali. E Riquelme dizia: “Mas eu vou para a lateral. Se aqui na Europa é necessário que eu faça isso, eu faço. Mas vou e volto. Quando vem um companheiro, retorno ao meio. Se não tem ninguém e a bola está lá, posso ir”. Foi o mesmo que houve com Rivaldo. Às vezes falta diálogo, falta compreensão. Os jogadores mais inteligentes sofrem com isso, porque entendem o futebol e precisam se sacrificar. Os técnicos ficam mostrando desenhinhos e acham que tudo se resolve com isso. No desenhinho fica tudo fácil, mas na prática é outra coisa. Na prancheta, todos os treinadores são geniais e sempre ganham. Nunca erram. O difícil é fazer as coisas acontecer sem o desenhinho. Precisam fazer com técnica, precisão, inteligência, coragem. Às vezes se recebe a bola com espaço, com vantagem e tudo isso os jogadores sabem. Hoje o ritmo de jogo está mais acelerado e é cada vez menor o número de jogadores com visão de jogo, capaz de manejar o tempo. Ir rápido não significa que você chegará antes, se você for devagar não quer dizer que não chegará nunca. Há momentos de transição no jogo. Momentos de aceleração, de posse, de mudar posições. Enquanto um ataca, você tem de pensar na recuperação. Tem-se de estar preparado para uma bola perdida, porque numa situação assim se perde um campeonato. Isso vemos permanentemente. Em 2002, por exemplo, o Brasil saiu campeão depois de uma falha de Oliver Kahn. Aí mudou tudo, porque o Brasil não estava bem até aquele momento. Alguém falou alguma coisa? Não.
Pelo que você fala do Riquelme, ele parece um gênio. Por que, então, ele é tão criticado por tanta gente?
Se você um dia conversar com o Riquelme e ele estiver com vontade e confiar em você, tenho certeza que se surpreenderá. As pessoas não têm idéia do que ele entende de futebol. Ele pode explicar qualquer jogada, por que uma coisa ou outra aconteceu ou não. “Isso aconteceu por isso e por isso; porque o defensor estava parado assim; o passe demorou na jogada anterior…”. Ele tem tudo, mas é muito calado e está sempre na defensiva. Mas se você está com ele, entende porque chegou aonde chegou. Só isso para exemplificar. Uma vez tive uma longa conversa com ele, quando ainda era jovem. Estava no auge no Boca Juniors, com uns 20 anos. Comentei com ele: “Román, uma das poucas coisas com que não estou de acordo contigo é com você gostar do Palermo. Não consigo aceitar que você, Riquelme, possa gostar de jogar com ele”. E Riquelme me respondeu: “José, Palermo é inteligentíssimo. O Boca nunca teria ganhado o que ganhou sem ele. Com Palermo, jogar futebol fica fácil”. Eu retruquei: “Mas ele é torto, se move mal, é lento…”. “Nada disso. Quando jogamos e temos Palermo no time, sabemos que ganharemos as partidas. Ele faz coisas que as pessoas não têm noção que ele faz em campo. Tenho certeza que há outros jogadores com outras qualidades, mais estética, mais técnica, mas ele é um centroavante.” É claro que ele estava falando do Palermo da primeira passagem pelo Boca, não do atual (risos).
Fotos: EFE


