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A classificação do Boca Juniors e a diferença que ainda se faz com o 9

Desde que chegou ao comando do Boca Juniors, Guillermo Barros Schelotto possui um esquema de jogo muito claro. Conta com uma defesa firme, um meio-campo combativo, pontas participativos. E a presença de centroavantes que decidem partidas. Não se pode negar a qualidade de jogadores como Wilmar Barrios, Pablo Pérez, Sebastián Villa e Cristian Pavón nos sucessos mais recentes dos xeneizes. Mas uma das vocações do time é confiar em homens de frente que garantem resultados. Algo comprovado da maneira mais contundente possível nesta quarta-feira, dentro do Allianz Parque, com a classificação sobre o Palmeiras. Homens que serão muitíssimo importantes nos duelos sísmicos contra o River Plate nas finais.

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Não são todos os clubes na atualidade que valorizam a figura do centroavante de área. Aquele homem que não precisa se restringir a um jogo em um quadrado limitado no campo, mas que permanece como destino principal das jogadas. O Boca Juniors, no entanto, mantém esse princípio. Nem sempre foi assim desde o retorno de Schelotto à Bombonera, é verdade, mas o potencial máximo do time só foi atingido a partir desta estratégia. E não se nega como a engrenagem funciona bem, ou como teve dificuldades quando o camisa 9 não atravessava o seu melhor momento. O sucesso se rege pelo instinto matador.

Darío Benedetto é o principal símbolo desta visão. O centroavante jogou muita bola para ajudar o Boca a conquistar o bicampeonato argentino nos últimos anos, mesmo passando boa parte da temporada passada ausente. É o cara que une presença de área, qualidade técnica e muita capacidade nas finalizações. Não à toa, sua ausência a partir do final de 2017, ao romper os ligamentos do joelho, gerou dor de cabeça a Schelotto. Mesmo assim, as opções sobram ao setor ofensivo. E fizeram valer o reerguimento xeneize nos mata-matas da Libertadores, depois de uma fase de grupos bastante desacreditada.

Pelos princípios de seu jogo, Schelotto deixou um banco de reservas recheadíssimo no Allianz Parque. Benedetto, Tevez e Zárate eram as opções para o segundo tempo. E se os dois últimos, se não são exatamente os típicos centroavantes, possuem enorme qualidade para jogar centralizados no ataque, adaptando o estilo do Boca. Não à toa, participaram de momentos importantes na campanha, sobretudo Zárate contra o Cruzeiro. A vez, no entanto, seria de Wanchope Ábila. Créditos correspondidos logo no primeiro tempo, com o gol que deu tranquilidade aos argentinos no tenso duelo.

Ábila tem alguns defeitos visíveis. Não é o centroavante que aproveita todas as bolas e nem possui muita mobilidade. Ainda assim, não deixa de lutar, algo que deveria ser o primeiro item na cartilha de qualquer jogador de sua posição. Pois, entre sua espreita pelo gol e a desatenção da marcação, acabou premiado com o cruzamento de Villa para botar o Boca em vantagem. Seus números são relativamente modestos nesta volta à Argentina. Mas de pouco em pouco, oferece sua contribuição para que os xeneizes se reafirmem como potência. A escolha de Schelotto nesta quarta foi um reconhecimento à entrega e à persistência de Wanchope.

Todavia, Benedetto seguia no banco do Boca Juniors. E depois do que acontecera na Bombonera, era impossível não dar uma nova oportunidade àquele que se afirma como principal símbolo desta geração. Por incrível que pareça, a eficiência nos chutes anda em desuso com alguns centroavantes. Não com o artilheiro xeneize, que combina precisão e potência para finalizar. Um desleixo da marcação seria suficiente, e com todo o espaço possível na entrada da área, caberia ao herói definir mais uma vez contra o Palmeiras. Tiro certeiro, no canto do goleiro, que evidencia os predicados de um camisa 9 que vai além da 9. Justamente no momento em que os alviverdes pareciam inteiros para uma reação impensável, o balde de água fria.

Boca Juniors e River Plate diferem bastante em suas filosofias de jogo, entre o futebol reativo de Schelotto e o propositivo de Marcelo Gallardo. Assim, os homens de frente também possuem distinções. Enquanto os millonarios preferem jogadores que abram espaço a quem vem de trás, a exemplo de Lucas Pratto, o trunfo dos xeneizes estão naqueles que aguardam a oportunidade para resolver. Serão peças-chave nas finais mais explosivas que a Libertadores já viu. O zelo por um ofício, que aproxima os boquenses da história, mais uma vez.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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