Alemanha

Por que o progressista St. Pauli parou de tocar uma das músicas mais populares no estádio

St. Pauli revisita o passado para tentar reparar danos causados pelo partido nazista

O St. Pauli abriu mão de uma de suas maiores tradições neste ano. O Millerntor-Stadion, em Hamburgo, costumava ecoar a canção “Das Herz von St. Pauli” (O Coração de St. Pauli) antes das partidas como mandante da equipe da Bundesliga, mas desde fevereiro, a melodia e a letra estão suspensas no local.

— Um hino no estádio tem o propósito de unir a todos. Deveria ser um momento bonito para todos, mas muitos torcedores não se sentem mais à vontade com a canção. É por isso que o FC St. Pauli não a toca mais — afirmou o presidente do time, Oke Göttlich, ao comentar a situação.

O clube decidiu que a “Das Herz von St. Pauli” não faria mais parte da realidade dos jogos em casa depois que uma investigação no museu da instituição revelou que os envolvidos na canção tinham ligação com o partido nazista na Alemanha e com propagandas de Joseph Goebbels.

O St. Pauli se tornou conhecido mundialmente por ser um clube que defende abertamente ideais progressistas.

Pesquisadora do St. Pauli explica como investigação do museu levou à suspensão de hino no estádio

Hans Albers, ator e cantor alemão, tinha passado relacionado ao nazismo amplamente conhecido no país. Responsável por ser intérprete da música, o artista natural de Hamburgo integrava uma lista de Goebbels de 1944 — até então confidencial — de pessoas que não poderiam correr riscos na guerra por serem consideradas “valiosas demais”.

Estar nesse documento não foi uma escolha de Albers, mas participar de propagandas do regime nazista, sim. Apesar disso, Celina Albertz, cientista política e de mídia que trabalha no museu do St. Pauli e conduziu a pesquisa, alertou que “a questão não era tão simples” ao comentar o caso no “The Athletic”.

— Por um lado, ele fazia comentários negativos sobre nazistas e nunca era visto ao lado do alto escalão do partido. Por outro, continuava a fazer filmes de propaganda, ignorando as consequências devastadoras. Ele se considerava uma pessoa apolítica — explicou a especialista.

Albers também foi obrigado a terminar o relacionamento com a namorada judia Hansi Burg no período, mas ainda mantinha encontros secretos com ela.

Novamente, era um território já conhecido. Tais detalhes da trajetória do ator e cantor não foram novidade na Alemanha. Porém, por meio das investigações sobre ele, Celina chegou aos nomes de Michael Jary, compositor, e Josef Ollig, que fez a letra da canção.

Faixa "Feminismo é imparável" exibida na torcida do St. Pauli. Clube é tradicionalmente de esquerda
Faixa “Feminismo é imparável” exibida na torcida do St. Pauli. Clube é tradicionalmente de esquerda (Foto: Imago)

Jary se chamava oficialmente Maximilian Michael Andreas Jarczyk e também estava na seleta lista de protegidos de Goebbels. A alteração no nome ocorreu para fugir do antissemitismo e evitar danos à carreira, segundo o jornal.

Ele fez uma petição ao líder da propaganda do regime para intervir em favor do amigo Bruno Balz, que foi preso e torturado por homossexualidade entre as décadas de 1930 e 1940.

Na ocasião, Jary afirmou que não poderia compor sem seu colega, o que levou à liberdade de Balz.

Com Ollig, as coisas mudaram de figura e a análise foi “mais crítica” entre os alemães. O autor não estava na relação de “protegidos”, mas integrou a “Luftwaffe”, força aérea da Alemanha nazista, além de ser correspondente de direita durante a Segunda Guerra Mundial.

De acordo com Celina, seguir padrões jornalísticos não estava na pauta desse tipo de profissional.

— Ollig não escrevia artigos (que seria o termo jornalístico), mas sim reportagens que tinham como objetivo transmitir uma imagem muito específica da guerra para a população alemã. Os relatos eram encaminhados ao Ministério da Propaganda e depois distribuídos aos jornais do país — explicou.

O foco dos nazistas era controlar a narrativa. “Após a Primeira Guerra Mundial, nacionalistas de direita propagaram a ideia de que a Alemanha não tinha perdido por causa dos militares, mas sim por causa dos soldados que foram abandonados no front”, iniciou.

— Adolf Hitler escreveu no (livro) ‘Mein Kampf’ que ele acreditava que a derrota da Alemanha era, em parte, por uma falha de propaganda. Que a população em casa não foi devidamente mobilizada — completou ela.

Com a revelação, a “Das Herz von St. Pauli” parou de ser tocada no estádio após 20 anos. Oke Göttlich, em nome do clube, agradeceu à pesquisa do museu por ressaltar o papel de Ollig na propaganda nazista.

Torcida do St. Pauli na Copa da Alemanha
Torcida do St. Pauli na Copa da Alemanha (Foto: Imago)

Celine Albertz afirmou que esperava encontrar uma realidade diferente da que constatou, e reconheceu ser difícil simplesmente esquecer a música que faz parte da história de famílias como a dela.

Ainda assim, destacou a importância de revisitar o passado. “Uma cultura genuína de memórias críticas exige que se confronte verdades incômodas, mesmo quando nos deixam desconfortáveis”, disse.

Em comunicado, o St. Pauli relembrou que a instituição já “confrontou o passado” em outras ocasiões, como em 1998, quando decidiu mudar o nome do estádio de Wilhelm-Koch-Stadion para Millerntor.

A nomenclatura antiga vigorava desde 1970 e era em homenagem ao ex-presidente do clube, mas depois veio a descoberta de que ele tinha ligação com o partido nazista e o local foi rebatizado.

— A mudança cria espaço para coisas novas — declarou Göttlich.

O clube tem tocado novas músicas antes dos jogos como mandante em busca de uma que faça o estádio pulsar tanto quanto a banida.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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