AlemanhaBundesliga

Manneh fugiu da guerra civil da Gâmbia para fazer história na Bundesliga após dois anos

A Gâmbia é o menor dos países da África. Em contraponto, é uma das nações mais miseráveis do mundo. Lá, a fome, a disseminação do preconceito, a violência, o desemprego, a seca, a falta de acesso à escolaridade e a precariedade no sistema de saúde são fatores que se fazem presentes e assombram uma população de dois milhões de pessoas. Fatores estes que fazem dela um lugar instável, com péssimas condições de ser habitável e inseguro por conta da guerra civil. Tal características explicam o alto número de cidadãos que fugiram do país para se instalarem em outros locais, sendo a Europa o destino mais almejado pelos refugiados. Um desses civis é Ousman Manneh, um garoto que chegou à Alemanha carregando traumas, os quais foram deixados de lado no momento em que ele marcou seu primeiro gol na Bundesliga, o da vitória do Werder Bremen em cima do Bayer Leverkusen, no último sábado.

LEIA TAMBÉM: O conto de fadas do refugiado africano que, meses após cruzar o mar, assinou com o Hamburgo

Há dois anos, Manneh não poderia imaginar que seria o protagonista de um jogo entre duas tradicionais equipes alemãs. Que viraria uma partida da primeira divisão do principal campeonato da Alemanha. Sua realidade na Gâmbia era árdua demais para que pensasse nessas condições como algo além de um sonho. Mas em 2014, quando o agora atacante dos Grün-Weissen deixou sua família para trás e foi viver em um campo de refugiados em Blumenthal, a maior de suas aspirações começou a ganhar forma. E, de pouco a pouco, se concretizar. Foi batendo uma bolinha com outros garotos que se encontravam na mesma situação que ele que Manneh, com 17 anos, chamou a atenção do clube que carrega o nome da cidade em que foi viver, o Blumenthaler. Foi ali, na quinta divisão do campeonato, em que o gambiano começou a trilhar seu caminho rumo à elite do futebol germânico.

A estadia no time, no entanto, acabou sendo breve, uma vez que seus 15 gols em 11 partidas com a equipe de base despertaram a cobiça do Werder Bremen. Não durou nem um ano até que o garoto estivesse treinando com o elenco mais jovem dos Grün-Weissen e, como no Blumenthaler, brilhando com a bola nos pés. Mas apesar de seu inegável e conspícuo talento, Manneh só veio a estrear pela equipe principal do Werder no dia 21 de setembro deste ano, depois de um ano e alguns meses ganhando experiência, adquirindo força e criando juízo (algo que todo jovem precisa) no time sub-19.

Foi diante do Mainz, no Weserstadion, que Alexander Nouri decidiu dar a Manneh o primeiro gosto de sua conquista. Da guerra civil da Gâmbia, de uma vida sem muitas perspectivas, de tempos e situações difíceis de serem tolerados para a Bundesliga. Para um dos quatro principais campeonatos europeus. E embora sua primeira aparição não tenha tido um final feliz para ele e o resto do time, que foram derrotados por 2 a 1 em casa, o gambiano não fez com que a fé do treinador nele já caísse por terra. Pelo contrário, Nouri cedeu um voto de confiança a Manneh pelas próximas três rodadas, até que o menino de 19 anos fizesse valer a convicção do técnico.

Em seu sétimo confronto na Bundesliga, o Werder empatava com o Leverkusen até os 14 minutos da segunda etapa, quando o mais novo jogador do elenco colocou os anfitriões à frente no placar. Izet Hajrovic cobrou falta com um passe rasteiro para Zlatko Junuzovic, que cruzou no meio da grande área para Manneh fazer história. Para construir, diante de 41 mil espectadores, mais uma etapa de uma narrativa que merece ser contada por todo o tormento que a envolveu no começo. 2 a 1 para o os Grün-Weissen, resultado que perdurou até o apito final e que foi muito importante para o reerguimento da equipe de Bremen no campeonato. “Eu não posso acreditar no que aconteceu. Um dos meus maiores sonhos se tornou realidade. Eu estou sonhando?”, questionou o camisa 47 ao final do jogo. “É um sentimento sem explicação. Que orgulho eu tenho de ser o primeiro gambiano a marcar na Bundesliga!”.

.

Mostrar mais

Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo