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O conto de fadas do refugiado africano que, meses após cruzar o mar, assinou com o Hamburgo

Todos os dias, milhares de refugiados cruzam o Mar Mediterrâneo em busca de uma nova vida. Isso acontece há décadas, com a maioria vinda da África, embora o fluxo a partir do Oriente Médio tenha aumentado durante os últimos meses. Espanha e Itália, pelas distâncias, são os destinos mais recorrentes, assim como a Grécia. Porém, esses refugiados nem sempre ficam por lá, se juntando também à grande massa de migrantes em países como França e como Alemanha. Um caminho tão comum, que foi percorrido por Bakery Jatta, gambiano que nesta semana assinou contrato com o Hamburgo, mesmo sem nunca ter atuado por um clube – nem nas categorias de base.

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Jatta deixou a Gâmbia em meados de 2015, fugindo da miséria e das instabilidades de seu país. Atravessou o Deserto do Saara, depois o Mediterrâneo e desembarcou na Itália, antes de rumar à Alemanha em agosto. Por lá, encontrou refúgio na academia do ex-boxeador Lothar Kannenberg, na cidade de Bremen. O local oferece estudos e treinos a jovens infratores e também a migrantes que queiram se inserir na sociedade, aprendendo a língua e praticando esportes. Pois o sucesso do gambiano foi tão grande que ele atraiu o interesse do Hamburgo. Após alguns dias de testes, acertou com o clube, embora só tenha conseguido assinar contrato agora, após completar 18 anos.

“Eu cresci sem meus pais, as condições de vida para mim na África eram muito ruins”, declarou, em entrevista à AFP. “Eu sabia que eu tinha que tomar esse caminho difícil e perigoso se eu quisesse uma chance de ter um futuro. Eu corri muitos riscos. Foi um momento difícil, mas agora eu só quero olhar para frente. Para mim, tudo é novo e empolgante. Em Gambia, não tinha um clube, aprendi quase tudo o que sei jogando na rua. Quero agarrar esta oportunidade, é meu objetivo. Quero dar tudo para me tornar o melhor ‘Baka’ que eu puder e me tornar modelo para outras tantas pessoas”.

Jatta, que também chegou a treinar no Bremer desde sua entrada na Alemanha, deverá aprimorar seus fundamentos no Hamburgo. O ponta receberá um salário mensal de € 10 mil e assinou com o clube pelos próximos três anos. Ele se juntará aos Dinossauros para a pré-temporada, que será realizada na Suíça a partir do fim de junho. “Bakery tem instintos de jogo fortíssimos. Nós olhamos estritamente para o seu desempenho, não para o seu histórico. Não haverá um bônus por ser refugiado”, explicou o técnico Bruno Labbadia, em entrevista ao Bild.

Sem dúvidas, Jatta precisará trabalhar duro. Mais do que se adaptar à equipe, terá que fazer treinos básicos que nunca teve e se inserir em um ambiente no qual a maioria absoluta dos jogadores lida desde a infância, mas que ele nunca viveu. O esforço, mais que o talento, será a sua fortaleza. O caminho pela frente será longo. Mas não mais penoso que o enfrentado meses atrás, entre as ameaças do deserto e do oceano. Sua vitória já é imensa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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