AfricaEstados UnidosMLS

A história do refugiado de guerra que mudou sua vida (e muda outras) através do futebol

Michael Lahoud é um meio-campista de pouco destaque na Major League Soccer. Passou pelo Chivas USA, antes de se juntar ao Philadelphia Union. Atualmente, o jogador de 29 anos é reserva do vice-lanterna da Conferência Leste. O que pouco importa. O exemplo deixado por Lahoud é muito maior. A história de vida do garoto que fugiu de Serra Leoa aos seis anos, com medo de ser raptado como soldado na guerra civil que vivia o país, e hoje se volta à terra-natal para estender a mão para os seus compatriotas.

Lahoud escreveu um longo depoimento no site The Tribune Players. Discute a questão dos refugiados, sob a perspectiva de quem esteve do outro lado. O fato de ser um jogador de futebol, em todo o contexto, é apenas um mero detalhe. A visibilidade que o permitiu voltar a Serra Leoa e fazer parte de um projeto educacional para construção de escolas. A profissão que lhe dá voz no mundo todo e que o ajuda a conscientizar sobre os entraves vividos por quem foge de seu país. A história é longa, mas vale ser lida:

Neste momento, há centenas de crianças que estão fugindo da Síria, arriscando as suas vidas em busca de um novo lar. Eles não sabem sobre política. Eles não se importam com quem começou a guerra. Eles estão apenas desesperados e confusos e orando por benevolência. Eu sei, porque eu era exatamente como eles.

Quando eu tinha seis anos, estava sentado em minha pequena sala de aula em Serra Leoa, me preparando para uma prova, quando minha avó apareceu na porta. Ela estava suando e sem fôlego. Eu imediatamente percebi que tinha algo errado. Minha avó sussurrou algumas palavras ao meu professor e me pegou pela mão. Ela me disse que precisávamos voltar para casa imediatamente.

Enquanto voltávamos para nossa vila, eu comecei a ligar os pontos. Meus pais tinham deixado o país para trabalhar nos Estados Unidos quando eu era bem pequeno, então morava com meus avós. Serra Leoa não é como a América ou a Europa. Temos uma cachoeira no nosso quintal, onde vemos animais exóticos. Não existem videogames. Podíamos brincar na vizinhança todos os dias, sempre sem supervisão. Mas, de repente, meus avós se tornaram bastante restritivos.

Minha avó me disse: “Não vá para o mato, porque o bicho-papão vai te pegar”. Ela não estava brincando sobre isso. Ela estava séria. Era um aviso.

Eu não sabia naquele momento, mas o bicho-papão não era um monstro. Ele era os rebeldes da Frente Unida Revolucionária (RUF, sigla em inglês), que raptavam as crianças dos vilarejos e forçavam-nas a se tornar soldados. Serra Leoa estava no meio de uma guerra civil, e ela ficava cada vez mais próxima da nossa porta. Eu estava alheio a tudo isso, claro. Meu mundo inteiro era a escola e o futebol. Mas, no momento em que minha avó foi à escola, a situação era desesperadora. A RUF estava às portas de nossa comunidade pacífica. Quando voltamos para casa, meus parentes estavam pegando as minhas coisas e amontoando em uma mala. Era caótico. As pessoas estavam discutindo e correndo em pânico. Mesmo com seis anos de idade, eu poderia sentir a tensão.

Finalmente, fui até minha bisavó e perguntei: “O que está acontecendo? Por que todo mundo está agindo como maluco?”. Ela me disse: “Não se preocupe. Você está indo de férias para a América. Eles estão apenas animados”.

No minuto seguinte, eu entrei no carro do meu tio, olhando minha casa ficando para trás e pensando: “Wow, estou indo para Hollywood!”. Porque, na África, todo o conceito que eu tinha dos Estados Unidos naquela época era Hollywood. Mal sabia que seria a última vez que eu veria minha casa em 20 anos.

Quando meu tio e eu chegamos próximos à capital, Freetown, as coisas se tornaram muito reais. Havia uma massa de pessoas com malas, tentando entrar na balsa. Os soldados do governo, com metralhadoras e bazucas, patrulhavam o caminho. Quando fomos empurrados para frente, um dos soldados ficou bastante agressivo com meu tio, pedindo o visto.

Ele não tinha. O soldado começou a empurrá-lo para longe com sua arma, e eu fiquei com muito medo. Em seguida, meu tio me pegou e me entregou na multidão ao soldado que estava na balsa. A próxima coisa que eu me lembro era de estar em pé na balsa. Nunca me esquecerei daquela confusão de armas, e pernas, e gritos. Meu tio havia ido embora. Eu estava sozinho em meio ao caos.

A loucura, na próxima parte da viagem, é como se tivesse perdido minha memória. Segui a multidão no aeroporto e agarrei minha passagem. Os funcionários do aeroporto ou um amigo da família poderiam ter me guiado ao portão de embarque. Eu nunca havia voado antes. Eu nunca tinha tido férias antes. Eu me lembro do avião saindo do chão e de pensar que estávamos voando em um grande tudo de metal. Nada fazia sentido. Meu mundo inteiro estava mudando tão rápido que eu não podia processar.

Quando o avião aterrissou, pensei que estava em Hollywood. Então, eu andei para fora do terminal e nenhuma das placas faziam sentido. Todas estavam em uma língua estrangeira. Eu entrei em pânico. Pensava duas coisas: onde estou e onde estão todas as pessoas que se parecem comigo. Algo que faz Serra Leoa única é que nunca falamos sobre a cor das nossas peles. Não havia: “Você é negro, branco, roxo, rosa”. Você era apenas parte da comunidade. Senti algo muito diferente. Senti como se todos no aeroporto estivessem olhando para mim. Quando eu tentei falar com alguém, eles me olhavam como se fosse de outro planeta. Foi a primeira vez na minha vida que percebi que as pessoas podem ser consideradas diferentes.

lahoud

Eu não estava em Hollywood. Eu estava em Paris.

Eu comecei a chorar no meio do corredor do aeroporto Charles de Gaulle. Eu pensava que minha vida estava acabada. Eu pensava que ninguém viria para me buscar e eu ficaria para sempre preso naquele aeroporto. As pessoas só passavam por mim, como se não estivesse ali. Então, uma comissária de bordo que estava no meu avião me reconheceu. Eu me lembro dela olhando para a minha passagem e dizendo que eu estava indo para a América.

Para mim, aos seis anos de idade, senti como se aquela mulher tivesse salvado minha vida. Ela me colocou no segundo avião, e voei novamente, para o desconhecido. Pensava que Hollywood era muito longe. Que o mundo devia ser muito grande.

Quando cheguei novamente, eu caminhei pelo aeroporto e fiquei aliviado que as placas estavam em inglês. Meu inglês não era muito bom, mas pelo menos sabia que estava no país certo. Só tinha um problema: minha mãe deixou Serra Leoa quando eu tinha três anos, e as únicas coisas que tinha para reconhecê-la eram fotos antigas. Eu não tinha ideia onde estava chegando ou para onde estava indo.

Eu segui a multidão a uma pequena rotatória fora do saguão. Asfalto era algo novo em Serra Leoa, então a primeira coisa que pensei era que as estradas na América eram todas muito boas. Havia muitas marcas e muitos carros. As pessoas saíam dos carros e corriam para os seus parentes, abraçando. Em seguida, entravam nos carros e iam embora, sorrindo.

Isso continuou por um tempo. As pessoas iam e vinham. Eu estava sozinho. Ninguém estava vindo a mim. Eu andei em torno do estacionamento por u longo tempo, até que uma caminhonete começou a me seguir bem lentamente. Eu entrei em pânico. Pensei que tinha vindo de tão longe para ser raptado pelo bicho-papão. Então, uma mulher saiu e começou a correr em minha direção. Estava prestes a largar minha mala e fugir o mais rápido que podia, quando ela gritou meu nome.

Era a minha mãe.

lahoud1

Então, este é o lugar onde a maior parte das histórias termina, e você vai voltar ao Facebook, e se sentir muito bem sobre a humanidade. Mesmo se você não souber quem eu sou, colocara meu nome no Google e verá que eu fui para a faculdade, que atualmente jogo na MLS. Esse é o seu final feliz.

Se você quer que esta história seja tão simples, clique em outro lugar agora.

Porque esse é o lugar onde uma história de uma crise de refugiados, como a que acontece no meu país e como está aconteceu atualmente no Oriente Médio, se torna mais complicada e difícil.

Eu era a única pessoa do meu vilarejo que tinha recebido um visto de emergência antes que a guerra civil explodisse. Todos os meus colegas de classe que ficaram no país e que fizeram aquela prova que minha avó não deixou, e todas as pessoas da minha cidade, e todo o resto da minha família, não tinham aquele pedaço mágico de papel. Eles ficaram imersos em uma guerra que eles não queriam participar. Centenas de crianças foram raptadas e forçadas a lutar. A guerra atingiu todos os cantos do país.

Eu só posso falar da minha própria experiência, mas a vida de um refugiado em um novo país é extremamente solitária. Quando eu percebi que estava em Washington ao invés de Hollywood, e que ficaram de vez nos Estados Unidos ao invés de estar de férias, a realidade se tornou crua. No meu primeiro dia de aula, eu percebi que todo mundo estava vestido de maneira muito diferente. Em minha escola católica em Serra Leoa, todo mundo vestia camisa e gravata. Aqui, as roupas importavam. Os penteados importavam. Mesmo os desenhos de suas pastas escolares importavam.

No meio do dia, uma voz saiu pelo alto-falante, pedindo para que eu fosse à sala de leitura. Eu tive que me levantar na frente de todos e ir à minha aula de inglês, como segunda língua. Eu estava envergonhado. Por um longo tempo, senti que como se estivesse em uma exposição. A única coisa que queria na vida era um amigo.

Um dia, no recreio, eu estava sentado sozinho, vendo um grande grupo de crianças jogar “wallball” quando a bola de tênis rolou perto de mim. As crianças estavam gritando para que eu jogasse de volta. Mas eu nunca tinha arremessado uma bola na minha vida. Então eu fiz o que era natural para mim: eu chutei. Foi quando percebi que a bola parou no telhado da escola.

Todo mundo estava olhando para mim, como se perguntassem: “Qual é, garoto? Você arruinou nosso recreio!”. Eles se viraram de costas e resmungaram, chateados. Eu queria sair correndo e nunca mais voltar para a escola. Em seguida, uma das crianças veio correndo para a minha direção. Pensei que talvez ela quisesse me bater. Fiquei tenso.

“Ei, como se chuta uma bola assim?”. Ele me estendeu a mão como uma onda. Eu só olhava para ele. “Essa foi a coisa mais legal que eu já vi na minha vida!”. Ele estava apenas tentando me cumprimentar. “Meu nome é Jack, podemos ser amigos”. Esse deve ter sido o melhor momento da minha vida. “Ok, você pode ir à minha casa”.

lahoud2

Depois desse dia, passei boa parte dos meus próximos 10 anos de vida indo à casa de Jack Wolf. Nós nos tornamos melhores amigos. Conheci todos através dele. Era o garoto que todos amavam. Ele tinha um estilo de surfista antes mesmo de isso ser popular na Virgínia. Ele era um líder natural.

Jack tinha uma regra, mesmo aos 10 anos de idade: Antes que nós pudéssemos ir ao quintal e jogar bola depois da escola, tínhamos que terminar nossa lição de casa primeiro. Sem brincadeira.  Ele colocava música clássica enquanto estudávamos. Ele me mostrou tantas coisas que eu não conhecia, e ainda estava curioso pela minha própria cultura africana. Ele via o diferente como algo legal. Quando eu tinha um sotaque forte, ele costumava dizer que as garotas iam gostar daquilo quando ficássemos mais velhos.

Jack não tinha ideia do que eu acabara de passar quando ele correu para mim na hora do recreio. Ele não sabia que eu tinha vindo do oeste da África. Ele não sabia sobre a guerra civil. Ele não se importava. Ele pensou que eu era alguém diferente que seria legal de conhecer. Este garoto irlandês-americano, com um cabelo loiro platinado, se tornou o irmão gêmeo que eu nunca tive.

Quando eu assisto as notícias agora e vejo os refugiados em fila indo para a Europa, a questão que continua em minha mente não é como eles vão assimilar isso. Minha questão é: “Quem será a aeromoça do Charles de Gaulle deles? Quem será o Jack Wolf deles?”.

Eu entendo que é uma questão complexa. Sou apenas um jogador de futebol, não um político. Mas eu posso dizer a vocês, em nível humano, que isso é bastante simples: estas pessoas, especialmente as crianças, foram apanhadas em uma maré. Elas estão confusas e com medo. Eles estão apenas procurando alguém para ser um amigo.

Se você falasse comigo agora, não saberia do meu passado. Eu perdi meu sotaque. Fui para a Universidade de Wake Forest, depois para a MLS. Eu me torneio um americano real. E, de novo, aqui é onde a maior parte das histórias termina com um final feliz. “Refugiado de guerra civil vai aos Estados Unidos e se torna jogador profissional”. Quem não quer compartilhar essa história no Facebook. Mas, de novo, a realidade é mais complicada.

A verdade é que não sou diferente de qualquer pessoa que desfruta de relativa segurança. Na época em que estava no colegial, eu tirei Serra Leoa da minha cabeça. Era mais fácil ignorar. Há momentos em que eu tive que encarar a verdade indesejável, como quando assisti ao filme Diamante de Sangue, ou quando minha avó finalmente se juntou a nós em Virgínia, depois da guerra civil, e toda a felicidade dela parecia ter sido drenada para fora de seu corpo. Ela viveu tempos muito difíceis com essas pessoas. Eu sabia que ela tinha visto coisas horríveis, mas eu não queria mergulhar profundamente na verdade.

lahoud3

Tudo mudou em 2010. Eu estava jogando pelo Chivas USA na MLS. Estávamos na estrada rumo a Seattle. Eu estava sentado no ônibus do time, provavelmente pensando em carros e mulheres como um garoto de 23 anos. Quando saí do ônibus para ir ao nosso hotel, uma mulher desconhecida veio até a mim. “Ei, você tem um segundo para conversar? Venho tentando te encontrar faz um tempo. Como você gostaria de mudar o mundo?”.

O que ela disse mexeu comigo. Parecia o momento em que Jack veio até mim na escola. Senti como se alguém tivesse aberto uma porta. Nós conversamos no saguão do hotel e ela me explicou que se chamava Cindy e trabalhava com o Schools for Salone, uma organização que se dedica a melhorar o dizimado sistema de educação em Serra Leoa. Nossa conversa me forçou a perceber duramente sobre como tive sorte de escapar da guerra. Depois de um exame de consciência, eu disse a Cindy: “Não quero só tuitar sobre isso. Eu quero construir uma escola”.

Então, partimos para arrecadar US$ 50 mil para construir uma escola em Serra Leoa. Eu não voltava para lá havia 20 anos. Sinceramente, eu não podia entender de verdade o desafio que nós estávamos enfrentando até 2013, quando eu fui convocado para a seleção. Eles me pediram para declarar a minha nacionalidade e jogar uma partida das Eliminatórias. Era uma decisão muito significativa para mim. Eu tinha tentado tanto ser americano que tinha ignorado minhas raízes africanas por um longo tempo.

Eu aceitei.

Quando eu aterrissei em Serra Leoa, todos disseram que eu poderia ter uma reação muito emocionada, como em um filme. A verdade é que eu me sentia vazio. Eu não reconhecia nada da minha infância. A guerra destruiu tudo. Na época, Serra Leoa era o país mais próspero em todo o continente africano. A moeda estava pareada com o dólar americano. Agora, tudo o que eu via eram escombros e desespero.

Quando cheguei ao meu vilarejo, fui para a casa da minha avó. Ela foi uma das últimas pessoas a me ver antes que eu deixasse Serra Leoa. Ela saiu de seu quarto e me viu pela primeira vez em 20 anos, então ela começou a chorar. Eu disse: “Vó, você está bem? O que há de errado?”. E ela respondeu: “Todos os dias eu rezei por você. Eu sempre soube que você ia voltar, e eu sabia que poderia se tornar um grande homem”.

Michael Lahoud [Leone Stars v Swaziland 31 May 2014 (Pic: Darren McKinstry)]

Eu perdi isso tudo.

Ela não me perguntou sobre a vida nos Estados Unidos. Ela não me perguntou sobre o futebol. Tudo o que ela se importava era sobre eu ter me tornado um bom homem.

Minha avó faleceu ano passado. Apesar de tudo que ela enfrentou, eu estava feliz que ela viu que eu não me esqueci de Serra Leoa. O país ainda enfrenta desafios incríveis, incluindo a recente epidemia de ebola. É fácil olhar para longe e pensar em coisas menos complicadas. Mas todos nós podemos tomar a lição de Jack Wolf no playground. O que nós queremos ser como sociedade? Queremos resmungar e virar as costas a quem precisa de ajuda? Ou queremos correr na direção deles com a mão estendida, dizendo que podemos ser amigos?

É muito difícil ser Jack Wolf. Mas obrigado Deus por tolos como ele.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo