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Imprensa alemã levanta suspeitas também sobre a escolha do país para a Copa de 2006

Nenhuma disputa para sediar a Copa do Mundo contou com uma votação mais acirrada do que a do Mundial de 2006. Alemanha, África do Sul e Inglaterra surgiam com força no pleito, realizado em julho de 2000. E a vitória dos alemães, sobre os favoritos sul-africanos, levantou trocas de acusações. Houve até mesmo pedidos para que a eleição fosse refeita, ainda mais depois da abstenção do delegado da Oceania, o que permitiu a escolha da Alemanha por um voto – se houvesse empate, o voto de minerva seria de Joseph Blatter, partidário dos sul-africanos. Quinze anos depois, o assunto volta à pauta. Ainda que o FBI não tenha apresentado nada sobre o episódio, assim como Chuck Blazer não tenha sido específico, quem levanta as suspeitas é a própria imprensa alemã.

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Nesta quinta, o jornal Bild entrevistou o antigo Ministro do Interior, Otto Schily. Ele disse não acreditar que as irregularidades aconteceram: “Eu não acho que tenham tentado influenciar membros do Comitê Executivo da Fifa por meios desleais”. No entanto, as edições online das revistas Spiegel e Zeit tentam se aprofundar na história, contrariando as declarações do político. Ambas indicam caminhos para as investigações sobre a candidatura do país, através das relações com os possíveis votantes da Alemanha na candidatura.

Naquela época, apenas 24 membros participavam da votação. E, enquanto europeus se alinhavam com os alemães, países americanos e africanos apoiavam a África do Sul. O ponto central estaria nos votos dos asiáticos. O que levanta as suspeitas da Spiegel e da Zeit sobre o estreitamento de relações do governo e de empresas do país com nações asiáticas integrantes do Comitê Executivo.

Em 28 de junho de 2000, menos de duas semanas antes da votação, o governo de Gerhard Schröder acertou a venda de 1,2 mil bazucas à Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, a empresa automotiva Daimler-Chrysler assinou um acordo com a Hyundai, enquanto a Bayer e a Volkswagen anunciavam investimentos na Tailândia e na Coreia do Sul. Segundo a imprensa alemã, todos os acordos foram fechados nas semanas próximas da votação.

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Arábia Saudita, Coreia do Sul e Tailândia participaram da escolha da sede da Copa. O representante sul-coreano no Comitê Executivo da Fifa, inclusive, também fazia parte da dinastia da Hyundai. Além disso, as três empresas alemãs citadas tiveram estádios com os seus naming rights na Copa do Mundo, sendo que Bayer e Volkswagen possuem clubes na Bundesliga. Já o quarto voto asiático dos alemães veio através de Mohammed Bin Hammam, do Catar (aquele mesmo que foi banido por tentar comprar votos na eleição presidencial da Fifa, em 2011 e que foi homem forte na campanha do Catar para sediar a Copa de 2022). O dirigente teria relações próximas com Franz Beckenbauer, organizador da candidatura alemã ao Mundial de 2006 e suspenso recentemente pela Fifa por não cooperar com as investigações sobre o suborno na escolha da sede de 2022.

Por fim, a Spiegel também levanta suspeitas sobre Leo Kirch. O empresário adquiriu os direitos de TV do Bayern de Munique em amistosos por quatro países. Entre eles, a Tunísia, que também fazia parte do Comitê da Fifa. Já a partida do clube contra a seleção de Trinidad & Tobago, de federação dirigida por Jack Warner, acabou cancelada. Na época, Beckenbauer também presidia o Bayern. Já o grupo de Kirch também estabeleceu relações comerciais com o representante da Tailândia na Fifa, Worawi Makudi.

Nenhum dos acordos estabelecidos teve problemas legais até agora. Mas, para Spiegel e Zeit, as suspeitas residem justamente em tantas coincidências durante as relações. O que poderia ser uma troca de influências, embora não existam no momento provas conclusivas sobre o assunto. Pode ser que não haja absolutamente nada de ilegal em tudo isso e as coisas não tenham necessariamente a ver uma com outra. Nem a Spiegel nem a Zeit são taxativas em acusar qualquer irregularidades, apenas apontaram que são coincidências estranhas. Por isso mesmo, a investigação sobre tantos indícios se sugere pertinente.

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Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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