Do WhatsApp à liderança: Como mensagem de Dzeko recolocou o Schalke no rumo da Bundesliga
Ex-Manchester City e Inter, atacante tem justificado a curiosa escolha da carreira na segunda divisão alemã
Quando Raúl González trocou o Real Madrid pelo Schalke 04, em 2010, encontrou em Gelsenkirchen um refúgio improvável após 16 temporadas no topo da elite espanhola. Em dois anos, virou símbolo: 40 gols, 21 assistências, uma Copa da Alemanha, uma semifinal de Champions League e o carinho eterno da torcida. O apelido “Señor Raúl” sintetizava mais que números — representava liderança e impacto imediato em um clube que precisava de identidade.
Mais de uma década depois, outro veterano decidiu escrever sua própria história no mesmo palco. Aos 39 anos, Edin Dzeko desembarcou na Veltins-Arena carregando experiência, currículo e uma frase que resumiu sua postura diante do tempo: “Vou fazer 40 anos em março, mas só o que acontece em campo importa. Talvez daqui a algumas semanas as pessoas não estejam mais falando da minha idade, mas de outra coisa…”. A resposta veio rápido — e em forma de gols.
Contratado na janela de inverno após passagem discreta pela Fiorentina, o centroavante bósnio iniciou sua trajetória no Schalke em ritmo acelerado: quatro gols e três assistências nas primeiras cinco partidas. O impacto imediato do veterano reacendeu o sonho do acesso do clube após três temporadas na 2. Bundesliga.
De quebra, Dzeko tornou-se o marcador mais velho da história da competição, com 39 anos, 11 meses e quatro dias. “Estou feliz por ter conseguido jogar mais de 20 minutos”, comentou, numa referência direta à falta de espaço que enfrentava na Itália.
A mensagem que abriu as portas para Dzeko no Schalke

A transferência, porém, começou de maneira inusitada. “Você ainda precisa de um atacante?”, escreveu Dzeko via WhatsApp para Nikola Katic. O zagueiro, compatriota e agora companheiro de equipe, fez a ponte com o técnico Miron Muslic.
— Aí tudo começou a se encaixar — relembrou o atacante ao jornal alemão “Die Welt”.
— Do outro lado, o treinador admitiu surpresa: “Claro que foi emocionante porque eu não esperava a mensagem dele. Fiquei muito feliz por ele ter ligado, mas não sabia o motivo nem o que ele queria”.
Se o contato foi direto, a negociação exigiu desprendimento. Campeão alemão em 2009 com o Wolfsburg, Dzeko abriu mão de parte considerável do salário para viabilizar o acordo.
— Muita gente me disse que eu estava louco, mas não estou! Estou muito empolgado com o Schalke. Dinheiro não é problema para mim — reforçou, deixando claro que o desafio esportivo falou mais alto.
Dentro de campo, os resultados sustentam o discurso. Após vitória por 5 a 3 sobre o 1. FC Magdeburg — com um gol e uma assistência do bósnio — o Schalke assumiu a liderança isolada a 11 rodadas do fim da temporada, à frente de Darmstadt 98, SV Elversberg, SC Paderborn 07 e Hannover 96. Se na primeira metade da campanha a solidez defensiva sustentou o time, agora é o ataque que decide.
O entusiasmo não se limita aos números. Ídolo histórico do clube, Klaus Fischer exaltou o reforço em entrevista à “RTL”.
— Tenho muito respeito por esse homem. Ele sabe onde está o gol e como marcar. Ele é a melhor coisa que poderia ter acontecido ao Schalke. Dzeko é garantia de gols, um jogador fundamental. Espero que ele não se lesione, porque aí ele marcará muitos gols e garantirá o retorno do Schalke à Bundesliga.
Em Gelsenkirchen, a história parece repetir um roteiro conhecido: um veterano desacreditado encontra terreno fértil para redefinir seu fim de carreira. Como Raúl um dia fez, Dzeko transforma experiência em combustível. E tudo começou com uma simples pergunta enviada pelo celular.



