Diretor do RB Leipzig rechaça clube como ferramenta de marketing e diz: “A diversão só está começando”
O RB Leipzig é um time que causa manchetes desde que começou a pintar como um clube que poderia subir rapidamente. Veio galgando divisões e, aos chegar à segunda, enfrentou uma enorme resistência de vários torcedores de clubes tradicionais. Apesar disso, ganhou o acesso à primeira divisão e foi além. Sua campanha é impressionante e tem sido o único time a acompanhar o gigante Bayern de Munique. De fato, é o único clube que parece capaz de brigar pelo título com os bávaros. O diretor esportivo Ralf Rangnick, 58 anos, ex-Hoffenheim, fala sobre o projeto de futebol do clube e rechaça a ideia de ser apenas marketing.
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Rangnick tem história no futebol alemão. Foi jogador de futebol e teve um grande destaque como técnico. Seu trabalho no Stuttgart teve muito destaque. Passou também pelo Schalke 04, mas foi no Hoffenheim que o brilho foi mais intenso. Ele ajudou o clube, um novato na primeira divisão, a se estabelecer na Bundesliga, com muitos jogadores jovens. O desenvolvimento de jogadores acabou se tornando um ponto fundamental da caminhada do clube, que também era bastante criticado por ser um clube com um dono milionário. Algo parecido com o RB Leipzig.
Foi por isso que Rangnick chegou ao RB Leipzig como diretor esportivo em 2012. Aliás, ele dividia o cargo de diretor esportivo do clube alemão e do Red Bull Salzburg, da Áustria, o primeiro time onde a Red Bull, que é austríaca, investiu no futebol. Seu trabalho no RB Leipzig era claro: desenvolver talentos e promover o time a chegar à primeira divisão. No futuro, brigar por títulos. Só que as coisas aconteceram muito rápido. Em 2015/16, o time ficou seu técnico e o diretor esportivo sentou no banco de reservas para comandar o time no acesso da segunda divisão para a primeira.
Mudanças no futebol da Alemanha
Sua experiência tem sido importante para o time da Alemanha Oriental – o único na Bundesliga, aliás. A visão de Rangnick sobre futebol é ampla e ele conta que o futebol mudou muito dos tempos que treinava o Stuttgart, no final dos anos 1990, para o jeito de jogar de hoje. E a mudança passa pela parte tática e reflete na parte física.
“No fim dos anos 1990 nós usávamos uma linha de quatro jogadores na defesa e tentávamos colocar pressão na bola. Mas nós éramos a exceção. Do meio para o fim dos anos 1990, a maioria dos times ainda usavam um líbero e dois marcadores com um número 10 que estava basicamente poupado dos deveres defensivos, com dois carregadores de água atrás dele. Esta era a formação padrão na Bundesliga. Então, times como Stuttgart, Mainz, Ulm ou Gladbach chegaram e introduziram um estilo de jogo que era mais focado na bola”, explicou Rangnick, em entrevista à rede alemã Deutsche Welle.
“Nos últimos seis ou sete anos o jogo de transição extrema começou a ser usado, onde os times vão para o ataque em velocidade depois de conquistarem a bola e, depois de perdê-la, muitos tentam mudar para uma contra-pressão imediatamente. Isso levou a termos mais arrancas. O número de corridas em velocidade ou arrancadas em uma partida aumentaram dramaticamente. Em termos de atletismo e dinâmica, o futebol se tornou um jogo completamente diferente”, disse ainda o diretor.
O projeto Leipzig
Qual é o segredo do Leipzig conseguir esse sucesso todo, logo de cara? Claro que isso tem a ver com o dinheiro que o clube gastou em contratações. Mas quem o clube contrata? Este é um dos pontos chave do projeto: não há estrelas, só jogadores jovens e com potencial. A composição do grupo do Leipzig, desde as divisões inferiores, é tentar montar um time com potencial de futuro. Desenvolver os jogadores. Já contamos um pouco sobre como o Leipzig funciona neste texto de Leandro Stein.
“Aqui no Leipzig, o desenvolvimento tem sido baseado principalmente na qualidade dos nossos jogadores e no seu desenvolvimento. Acredito que também temos uma boa equipe de apoio aos jogadores. Caso contrário, este desenvolvimento não seria possível”, declarou Rangnick.
Muitas vezes o time é questionado por ter a Red Bull por trás. Aliás, o RB do nome do time, embora seja uma clara referência à marca austríaca, na verdade quer dizer RasenBallsport, algo como “esporte de bola na grama”. A rejeição já foi maior, é verdade, mas ainda há questionamentos em relação ao time ser artificial, um clube empresa, esse tipo de coisa que se ouve em vários lugares do mundo, com vários times. Rangnick, que já viveu isso no Hoffenheim, rejeita o rótulo.
“Até onde eu posso ver, há muitos clubes na Bundesliga que não têm problema com a forma como construímos o clube. No leste da Alemanha, nós somos o terceiro clube mais popular da liga. Eu acho que há menos ‘RB haters’ do que no nosso tempo na segunda divisão. Nós estamos felizes com nosso patrocinador, mas nós nunca pensamos por um minuto em como podemos vender mais latas [de Red Bull]. O que nos guia e motiva é desenvolver jogadores. Nós não somos uma ferramenta de marketing”, afirmou o diretor.
Cotado para ser diretor esportivo da seleção alemã, na DFB, a federação de futebol do país. Ele, porém, parece feliz no clube da Alemanha Oriental e vislumbra mais. “Não, eu não acho que é para mim [o cargo na DFB]. Não apenas isso, mas eu realmente aprecio o que eu tenho aqui. E para ser franco, a diversão está apenas começando por aqui. Nós estamos agora plantando as sementes do trabalho de desenvolvimento que fizemos nos últimos quatro anos. No momento, eu não posso imaginar nada chegar que me faça afastar disso”, declarou.
“Nós sabemos pela experiência com o Hoffenheim que agora que as coisas estão funcionando, alguém como eu é necessário para garantir que as coisas que afetam a atmosfera em volta do clube não mude”, contou Rangnick.



