Copa da Alemanha

O Saarbrücken protagonizou um milagre digno de sua história e tirou o Bayern da Pokal

Presente na primeira edição da Champions, o Saarbrücken atualmente luta para não cair na terceira divisão alemã, mas conseguiu despachar o Bayern da Copa da Alemanha com uma milagrosa virada aos 51 do segundo tempo

A torcida do Saarbrücken possui muitos orgulhos para rememorar em seu passado. O clube disputou a primeira edição da Copa dos Campeões da Europa e por duas vezes foi finalista no antigo formato do Campeonato Alemão. Também possui seis aparições na Bundesliga, incluindo na primeira temporada, e quatro semifinais de Copa da Alemanha. A Pokal já representa um pequeno milagre na história recente do FC, com direito a uma caminhada entre os quatro melhores do torneio em 2019/20, quando figurava na quarta divisão nacional. Ainda assim, o feito do Saarbrücken nesta quarta-feira se torna até maior em certos aspectos. O time que corre risco de rebaixamento na terceirona alemã conseguiu eliminar o Bayern de Munique, diante de uma empolgada torcida no Ludwigspark. Vai para as oitavas de final, com uma vitória de virada por 2 a 1 construída na base da valentia e selada com um gol heroico aos 51 do segundo tempo.

Uma derrota destas, para o Bayern de Munique, é fruto de uma hecatombe em campo. Foi uma atuação péssima do time de Thomas Tuchel, que pouquíssimo produziu durante o primeiro tempo e parou na marcação durante o segundo. A estratégia do técnico em poupar titulares não se pagou e Harry Kane viu o naufrágio dos companheiros sem sair do banco. Contudo, a incompetência do Bayern não anula a façanha do Saarbrücken. A equipe da terceirona não se amedrontou e desde o primeiro tempo saiu para o jogo, conseguindo o gol. Já na segunda etapa, o FC precisou de resiliência e também de boas defesas de seu goleiro, até que os céus se abrissem para o gol da vitória no fim dos acréscimos. É uma noite inesquecível no Ludwigspark, em que os torcedores mais jovens puderam experimentar a grandeza que tantas vezes só ficaram sabendo por pais e avós.

A história do Saarbrücken

O Saarbrücken é um clube com um passado riquíssimo. A equipe surgiu em 1903, na região de Sarre, fronteira da Alemanha com a França. Disputou as fases finais do Campeonato Alemão a partir dos anos 1930, com um vice em 1943. Já depois da Segunda Guerra Mundial, Sarre virou um protetorado francês, com autonomia em relação à Alemanha. O Saarbrücken figurou na segundona do Campeonato Francês e levou o acesso, mas a resistência dos times locais impediu que disputasse a primeira divisão. Assim, acabou readmitido no Campeonato Alemão-Ocidental e até teve novo vice em 1951/52. Porém, como Sarre ainda era um território autônomo, contava com sua própria federação e seu próprio comitê olímpico. A seleção de Sarre disputou as Eliminatórias para a Copa de 1954. Já em 1955/56, Sarre mandou um representante na edição inaugural da Copa dos Campeões: foi o Saarbrücken, eliminado por um forte Milan, mas capaz de vencer por 4 a 3 em pleno San Siro.

A população de Sarre, no entanto, decidiu via referendo voltar a fazer parte da Alemanha Ocidental. Assim, o Saarbrücken virou outra vez um clube integralmente alemão. Em 1963, quando a Bundesliga surgiu, o FC terminou escolhido como representante de Sarre na nova competição nacionalizada. Porém, não teria muito sucesso na elite. Foi rebaixado logo em 1963/64 e vagou pelas divisões de acesso, até retornar em 1976/77. Durou apenas mais duas edições na primeira divisão, antes de nova queda. Depois disso, o Saarbrücken faria mais duas aparições esporádicas na Bundesliga, em 1985/86 e em 1992/93, mas com a queda instantânea. Desde então, o FC sofreu com problemas financeiros. Chegou a cair para a quinta divisão em 2007. Já nos últimos anos, variou entre o terceiro e o quarto nível.

A Copa da Alemanha oferece uma ponta de orgulho ao Saarbrücken durante os anos mais recentes. Como os campeões regionais disputam a Pokal, o Saarbrücken tantas vezes representa Sarre. O auge recente aconteceu na temporada 2019/20, quando o FC disputou as semifinais pela quarta vez em sua história, a primeira em 35 anos. A equipe eliminou Colônia, Karlsruher e Fortuna Düsseldorf, sucumbindo apenas ao Bayer Leverkusen. Aquela era a primeira vez que um clube da quarta divisão ficava entre os quatro melhores da Copa da Alemanha. Também foi a última temporada do Saarbrücken no quarto nível, com o acesso à terceirona, onde se estabeleceu desde então.

O auge do Saarbrücken não coincidiu tanto com a ascensão do Bayern de Munique. Mesmo assim, os times possuem 14 encontros anteriores. O primeiro foi na semifinal da Copa da Alemanha de 1956/57, com vitória dos bávaros, que levaram seu primeiro título na competição e também seu primeiro troféu nacional em 25 anos. São nove vitórias do Bayern, incluindo algumas surras. Todavia, o Saarbrücken também conseguiu aplicar um 6 a 1 em 1976/77, contra um oponente que tinha Sepp Maier, Franz Beckenbauer, Karl-Heinz Rummenigge e Gerd Müller entre os titulares. São três triunfos do time de Sarre. Já os encontros mais recentes tinham ocorrido na Bundesliga 1992/93. O Saarbrücken empatou por 1 a 1 em casa, mas tomou de 6 a 0 no Olímpico de Munique, com três tentos de Mehmet Scholl.

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O gigantesco milagre desta quarta

Thomas Tuchel entrou com um time misto. Mesmo assim, o Bayern alinhava diversas estrelas em campo. Manuel Neuer era o goleiro, com a defesa formada por Bouna Sarr, Matthijs de Ligt, Kim Min-jae e Alphonso Davies. O meio tinha Joshua Kimmich e Frans Kräztig, além da trinca à frente com Leroy Sané, Thomas Müller e Mathys Tel. No ataque, Eric Maxim Choupo-Moting. Ainda eram um grande desafio ao Saarbrücken, apenas o 15° colocado da terceira divisão, dois pontos acima da zona de rebaixamento.

O Saarbrücken demonstrou uma postura corajosa desde os primeiros minutos, em que incomodava o Bayern de Munique. Oferecia pressão na marcação e não recuava. Porém, os bávaros precisaram de apenas 16 minutos para conseguir o gol, logo em sua primeira finalização. Thomas Müller teve muito espaço na intermediária. Preparou o chute e disparou no cantinho. Parecia uma partida fácil para os visitantes. Só parecia. De Ligt se lesionou pouco depois e deu lugar a Konrad Laimer. Enquanto isso, o time não conseguia impor seu ritmo. Estava desleixado na criação das jogadas e não oferecia perigo para ampliar a diferença. A marcação dos azarões estava sempre muito atenta e chegava firme.

Isso permitiu que o Saarbrücken acreditasse numa reação. Nos 15 minutos finais do primeiro tempo, os anfitriões passaram a levar o Bayern aos apuros. O primeiro aviso veio numa jogada de Amine Naïf para Kasim Rabihic, mas a finalização saiu por cima. Pouco depois, Kimmich faria um desarme no limite, enquanto Rabihic teve uma batida travada. O empate se prenunciava e se confirmou nos acréscimos, aos 46. Numa jogada rápida do FC pelo meio, a defesa bávara cochilou. Lukas Boeder recebeu a enfiada, escapou do carrinho de Kim e só rolou para Patrick Sontheimer definir, sem que Neuer pudesse fazer qualquer coisa.

O segundo tempo seguiu duro para o Bayern. O Saarbrücken conseguia suas escapadas e indicava o perigo. Contudo, os bávaros passariam a insistir mais nas finalizações e esbarrariam no goleiro Tim Schreiber. Se andava difícil romper a marcação dos azarões, o Bayern começou a arriscar mais de fora da área. Já quando Choupo-Moting achou Sané na área, Schreiber foi ótimo para fechar o ângulo. Aos 15 minutos, então, Tuchel realizou três alterações. Mandou a campo Kingsley Coman, Serge Gnabry e Jamal Musiala, enquanto Sané, Sarr e Krätzig saíram. Era uma formação totalmente ofensiva.

O Saarbrücken lutava para manter sua intensidade, com as suas próprias alterações. O time da casa seguia com algum escape nos contragolpes, mas sem criar chances tão claras de virar. Já o Bayern martelava de fora da área, com pouca precisão. O grande lance veio aos 30 minutos, quando Coman mandou uma sapatada de longe e o goleiro Schreiber se esticou todo para uma senhora intervenção. Já nos minutos finais, a partida virou um ataque contra defesa. O Saarbrücken recuou e povoou sua área. O Bayern passou a finalizar em qualquer mínima oportunidade. Só que não tinha brechas. A defesa rifava a maioria dos lances e Schreiber permanecia muito atento. De novo barrou Coman.

Quase o Saarbrücken cometeu o crime aos 43, não fosse um desarme providencial de Kim. Já os acréscimos seguiram no ataque do Bayern, com os anfitriões mais dispostos a sobreviver. Entretanto, os bávaros não conseguiam acertar seus lances. E uma mínima fresta poderia garantir a esperança do Saarbrücken. Foi o que aconteceu aos 51, no último minuto do tempo adicionado pelo árbitro, com o gol da vitória. Numa cobrança de lateral, os pequenos foram com tudo e os gigantes estavam desatentos. Tim Civeja escapou pelo lado direito e fez o cruzamento rasteiro para Marcel Gaus, entrando livre na área. A bola ainda deu um leve desvio no meio do caminho e matou o vendido Neuer. Era o milagre. O árbitro ainda deu uma colher de chá para o Bayern. Não terminou o jogo imediatamente. O time até voltou ao ataque, mas não fugiu do vexame.

A linda festa

Assim que o apito final soou, uma cena linda aconteceu no gramado do Ludwigspark. Os reservas do Saarbrücken invadiram o campo e familiares também se fizeram presentes. Era uma comoção enorme dos pequeninos, que conseguiam um feito gigantesco. O próprio Bayern não escondia o baque, com alguns jogadores atônitos enquanto deixavam o campo. Thomas Müller chegou a conversar com torcedores, no meio de todo o caos que se instaurou por tamanha façanha.

Com a classificação, o Saarbrücken disputará as oitavas de final da Copa da Alemanha pela terceira vez neste século. Sonhará alto, para tentar repetir aquele feito de 2019/20, quando sucumbiu apenas nas semifinais. A vitória sobre o Bayern de Munique credencia o FC diante de qualquer oponente da Alemanha. Enquanto isso, prevalece um sentimento de vergonha aos bávaros. O time não vence a Copa da Alemanha justamente desde 2019/20. Desde então, caiu diante de Holstein Kiel, Borussia Mönchengladbach e Freiburg. Nenhum deles vindo da terceira divisão, como o Saarbrücken.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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