Bundesliga

A épica conquista do Borussia Dortmund na Bundesliga 2001/02, recontada por Amoroso

Poucos dias foram mais felizes para a Muralha Amarela do que aquele 4 de maio de 2002. O Borussia Dortmund conquistava um de seus títulos mais emblemáticos diante de sua torcida, na última partida da Bundesliga. Sagrava-se campeão nacional pela sexta vez, e graças a uma memorável arrancada na disputa com o Bayer Leverkusen, em rodadas finais lotadas de épicos. Os aurinegros precisaram esperar até os 29 minutos da segunda etapa, quando Ewerthon saiu do banco e virou o jogo contra o Werder Bremen, para ter certeza que nada tiraria a Salva de Prata de suas mãos. Tempos gloriosos.

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Desde o início da campanha, o Dortmund se colocou entre os favoritos. A diretoria botou a mão nos bolsos e investiu pesado em contratações, sobretudo para o ataque, buscando o trio formado por Amoroso, Ewerthon e Jan Koller. No entanto, a concorrência era duríssima. O Bayern de Munique vinha de três títulos consecutivos na Bundesliga, além de ter faturado a Champions na temporada anterior, encerrando um jejum de 25 anos na competição continental. De qualquer maneira, o Bayer Leverkusen se provou o principal desafiante. Em anos de altos investimentos, os Aspirinas contavam com um elenco recheado de jogadores de seleção.

Mas o Borussia Dortmund também tinha os seus predicados. Treinado por Matthias Sammer, o elenco combinava experiência e juventude. Possuía à disposição nomes tarimbados, alguns remanescentes da conquista da Liga dos Campeões em 1996/97 – os veteranos Jürgen Kohler, Stefan Reuter e Jörg Heinrich, além do ascendente Lars Ricken. Tinha outros atletas provados no mais alto nível, como Amoroso, Jens Lehmann, Christian Wörns, Jan Koller, Evanílson e Sunday Oliseh. Além de uma lista extensa de talentos prontos para decolar, que incluía, Tomas Rosicky, Dedê, Ewerthon, Christoph Metzelder e Sebastian Kehl.

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Após uma sequência de quatro vitórias nas quatro primeiras rodadas, o Dortmund perdeu os clássicos diante de Bayern de Munique e Schalke 04. Com isso, só foi apresentar realmente suas credenciais ao título a partir de outubro, quando emendou seis triunfos. Foram 13 jogos de invencibilidade, que levaram o time à liderança no início do segundo turno – com direito a um marcante empate na visita ao Bayern no Estádio Olímpico, provocando as lágrimas de Oliver Kahn pela chance do tetra que se esvaia. A ótima série, contudo, se encerrou justamente na visita ao Leverkusen, vice-líder. Os Aspirinas não só golearam por 4 a 0, como também assumiram o topo da tabela.

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Diante do cenário, as últimas dez rodadas guardaram um duelo espetacular pela Salva de Prata. Graças aos tropeços do Dortmund contra Stuttgart e Kaiserslautern, o Leverkusen chegou a abrir cinco pontos de vantagem a três rodadas do final. E aí que a reação inimaginável dos aurinegros tomou forma. Primeiro, bateram o Colônia por 2 a 1, com um gol de Amoroso aos 44 do segundo tempo, enquanto o Leverkusen foi derrotado pelo Werder Bremen. Na partida seguinte, já retomaram a liderança. Superaram o Hamburgo por 4 a 3 em um jogaço no norte do país e contaram com a vitória do Nuremberg sobre os Aspirinas.

Já no último compromisso, diante da Muralha Amarela, o Borussia precisava apenas fazer sua parte contra o Werder Bremen. Começou tomando um gol aos 17 minutos, o que, combinado com a vitória parcial do Leverkusen sobre o Hertha Berlim, levava o troféu à BayArena. Entretanto, os aurinegros reagiram. Empataram antes do intervalo, com Jan Koller. E, aos 29 do segundo tempo, Ewerthon, que acabara de sair do banco, completou o cruzamento de Dedê para decretar a vitória por 2 a 1. Para decretar o título, que demoraria nove anos para voltar ao Westfalenstadion.

Aquele campeonato marcou de diferentes maneiras. Marcou um excelente time do Borussia Dortmund, que chegou a ser vice-campeão da Copa da Uefa naquela temporada, goleando o Milan por 4 a 0 nas semifinais. Poucos meses depois, o clube enfrentaria serias dificuldades financeiras. Marcou também o timaço “azarado” do Leverkusen, vice da Copa da Alemanha e da Liga dos Campeões nas semanas seguintes. E marcou a fase implacável de Amoroso no futebol europeu. Mesmo contraindo dengue durante a campanha, o camisa 22 foi maior goleador da competição, com 18 tentos em 31 jogos. Ainda hoje, o atacante é o único brasileiro a ser artilheiro em duas ligas diferentes entre as cinco principais da Europa – já tinha sido o ‘capocannoniere’ da Serie A em 1998/99, pela Udinese. E isso sem contar sua artilharia no Brasileirão de 1994, quando estourou pelo Guarani.

Para resgatar os detalhes daquela campanha histórica que completa 15 anos, conversamos com o próprio Amoroso. Falou à Trivela sobre o ambiente no clube, a amizade firmada entre os jogadores brasileiros e tchecos, a mentalidade na reta final da campanha e a relação com a apaixonada torcida aurinegra. Confira:

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A adaptação imediata e a confiança do elenco

“Eu tinha acabado de chegar da Itália. Era a contratação mais cara da história do Borussia e vinha de uma experiência no futebol italiano, que é um futebol muito difícil de se marcar gols. Então, eu já cheguei na Alemanha fazendo gols e me destacando. A partir de então, você começa a ganhar credibilidade dentro do elenco, as pessoas começam a te respeitar mais, também pelo fato de eu ter sido artilheiro do Campeonato Italiano antes. Devido aos gols que eu marcava, ganhei logo o respeito, acabei recebendo uma moralzinha diferente. A gente tinha um grupo muito experiente, de jogadores com passagem pela seleção alemã, outros que faziam parte da seleção na época. A gente tinha um time com bagagem”.

A conexão entre Brasil e República Tcheca

“Nós quatro brasileiros [Amoroso, Evanílson, Dedê e Ewerthon] éramos muito unidos. A gente estava sempre juntos, se reunia com as famílias, saía para jantar. Aí o Jan ia às vezes, o Tomas. Nós jogávamos muito próximos em campo, isso ajudou a criar uma amizade. O Rosicky, o Ewerthon, o Koller e eu éramos o pilar daquele ataque, fazíamos o bloco na frente, e nas duas laterais vinham o Evanílson e o Dedê. A gente tinha muita ligação. Até hoje nos falamos, nos comunicamos. Às vezes eu mando mensagem para o Tomas, às vezes para o Jan. Isso se deve ao nosso sucesso dentro de campo e à amizade que acabou surgindo. É uma ligação muito positiva, que não se perde”.

A importância dos campeões de 1997 no elenco

“Tinha o Ricken, que era mais jovem, o Heinrich, com experiência na Fiorentina, um lateral que também jogava no meio. O Kohler e o Reuter, por terem ganhado a Copa do Mundo pela seleção alemã, possuíam essa facilidade de saber conduzir o time quando se precisava ter um pouquinho de paciência. Principalmente nos jogos que a gente sabia que seriam mais difíceis, contra o Schalke, contra o Bayern, contra o Leverkusen. A gente sabia que podia contar com eles nos jogos mais representativos do campeonato, por essa experiência. Esses quatro jogadores ajudavam bastante. O Sammer era jovem na função, estava começando sua carreira como técnico, precisava da nossa experiência, da nossa vivência por ter trabalhado com outros jogadores. O time era muito unido, sério. A gente procurava estar junto sempre, o que faz a diferença dentro de um elenco”.

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O dia em que Kahn chorou

“Eu tive dengue, fiquei um mês sem jogar. Então, me preparei para voltar contra o Hansa Rostock, numa quarta-feira. Era titular absoluto, brigava pela artilharia do campeonato. Mas o Sammer não me colocou desde o início. Falou que ia me preparar para o jogo contra o Bayern, que aí sim eu seria titular. Fiquei no banco contra o Hansa, acabei entrando no segundo tempo, fiz o segundo gol da vitória. Eu estava tranquilo, sabia que jogaria no final de semana contra o Bayern. Era um jogo em que teria mais espaço, um jogo bom, geralmente aberto. Nosso time vinha num ótimo momento. Mas quando chegou na hora, ele não me botou na escalação para jogar desde o início. Aí eu fiquei bravo”.

“Quando fui falar com o Sammer, ele me disse que contava comigo para o início do segundo tempo. Acabou o primeiro tempo, eu via que aquele jogo estava para mim. Pensava comigo: ‘Esse jogo é pra mim, esse jogo é pra mim, preciso entrar logo’. Fiz o aquecimento no vestiário, mas o jogo voltou e ele não me colocou. Cinco minutos e nada. Dez minutos e nada. Pensei comigo: se eu não entrar com mais dez minutos, vou no banco reclamar. Aí eu fui lá e reclamei. Cheguei e disse: ‘Vem cá, você falou que ia me pôr no início, e não colocou. Vai esperar o jogo terminar pra me botar com cinco minutos? Quero entrar agora’. Só então ele me colocou no jogo”.

“Na primeira bola que eu peguei, fui dominar e sofri a falta. Peguei a bola e não deixei ninguém chegar perto – Dedê, Rosicky. Avisei: ‘Quem vai bater sou eu’. Eu batia as faltas e os pênaltis do time. Quando eles se afastaram, o Evanílson veio falar comigo. ‘Já sei, ele dá um passo para trás da barreira, vou bater no canto dele’, eu disse. E o Evanílson concordou que era isso mesmo. Eu peguei, só tirei dele. Mandei a bola por cima da barreira, pro gol. Aí eu fui no treinador e falei: ‘Tá vendo, se você não me põe no jogo, não sai nada! Eu sou foda, tenho que fazer gol mesmo!’. Sou foda e o caramba [risos]. Aquela partida ficou marcada”.

“Depois o Élber fez o gol de empate, o Lehmann deu uma cotoveladinha de leve para provocar. Teve aquela discussão. No fim, o Kahn deu aquela ajoelhadinha no chão e chorou. Aquele gol praticamente eliminou as chances do Bayern tentar ser campeão e brigar lá na frente com a gente pelo título”.

A épica reta final

“Aquele jogo contra o Leverkusen foi atípico. O time deles era muito bom também. Tinha Ballack, Zé Roberto, Lúcio, Ramelow, Butt, Kirsten, Neuville, era um timaço. E a briga pelo título ficou entre nós dois. Então aquele jogo foi muito atípico, não jogamos bem. Eu me lembro que o time deu uma desencontrada e o Leverkusen tomou conta do jogo, a gente falhou em alguns aspectos. Mas depois tivemos outras vitórias, até chegar aos jogos contra o Colônia e o Hamburgo. A gente precisava da vitória para poder sonhar com o título”.

“Contra o Colônia, teve aquele pênalti aos 42 em cima do Kohler, onde todo mundo tropeçou dentro da área, fazendo dominó. Acabei marcando esse gol aos 44 do segundo tempo e ele nos ajudou a ter sucesso, porque o Leverkusen perdeu em casa contra o Werder Bremen. Foi o jogo que mais fez diferença pra gente. Depois tivemos uma partida fantástica contra o Hamburgo. Jogamos muito e chegamos na última rodada em vantagem, dependendo só de nós mesmos”.

A rodada decisiva

“A gente não estava mal naquele jogo. Nosso time entrou concentrado. É normal, quando se briga pelo título, ter a ambição de poder decidir o jogo nos minutos iniciais. Mas não foi aquilo que aconteceu. Tomamos o gol do 1 a 0 e, então, nosso time melhorou no jogo. Sabíamos que estava tudo a nosso favor, porque a equipe estava jogando bem. Eu bati uma falta no travessão, nos deu confiança. Depois, em uma triangulação, saiu o gol. Eu e o Rosicky começamos o lance, antes que o Koller batesse de longe, no canto do goleiro. Empatamos e fomos para o intervalo no 1 a 1. Sabíamos que restavam 45 minutos para tentar virar”.

“Então, a gente foi tentando, tentando, tentando. Tivemos algumas surpresas, tomamos alguns contra-ataques naquele jogo, o que é normal quando você busca o resultado. Cheguei no banco e falei pro Sammer: ‘Põe logo o Ewerthon no jogo, porque a gente precisa dele. Põe mais um atacante. Eu não sei quem vai sair, mas põe o Ewerthon’. Nisso, o Sammer chamou o Ewerthon, ele entrou, e na primeira bola que tocou…”

“Eu sempre falava pro Dedê: ‘De primeira, Dedê, qualquer coisa chega cruzando na área que a gente vai entrar. Estamos em três atacantes, mais o Rosicky, a gente vai entrar’. Tivemos uma tabela do Dedê com o Lars Ricken, ele pegou de primeira e mandou pra dentro da área. A bola atravessou a área toda, o goleiro deu um tapinha e o Ewerthon entrou no segundo pau de carrinho, fez o gol. Foi um gol realmente de muita garra, de muita raça. A gente pode dizer que o nosso time foi mesmo superior durante toda a temporada. Merecíamos terminar como campeões”.

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A comemoração da Muralha Amarela e o reencontro

“A festa é diferente, é uma torcida incrível. Acho que não tem uma torcida igual no mundo, um paredão como aquele ali. Eu fico lisonjeado. Sou eternamente grato, porque eles me dedicaram uma música. Fui o único jogador a ter uma música cantada pela torcida, tocava até em discoteca. Era um ritmo que eles adaptaram e fizeram uma canção para mim – ‘Ninguém joga tão bonito quanto o Amoroso’. O estádio costumava tocar. Eu era o último a entrar em campo, a ser anunciado pelo speaker, e eles finalizavam com essa música. Ficou eternizada para mim essa homenagem”.

“A torcida sabia da minha ligação com eles, por ser um jogador que partia para cima, de velocidade e habilidade, que fazia jogadas diferentes. Sempre cumprimentava os torcedores, existia uma ligação afetiva – também pelo Brasil, por ser uma nação com esse dom de jogar um futebol alegre. A torcida me entendeu e acabou me adotando como um dos grandes ídolos do Borussia. Tive a oportunidade de retornar a Dortmund na despedida do Dedê, em 2015, depois de mais de 10 anos. Graças a Deus fui ovacionado. Foi algo fantástico, sem dúvidas, a demonstração de carinho quando o speaker anunciou o meu nome. Fiquei bastante feliz, lisonjeado”.

A importância daquele momento para a carreira

“Foi um momento que realmente ficou marcado para mim, por ter sido meu primeiro título internacional. Eu ganhei a Supercopa da Itália com o Parma, mas não fazia efetivamente parte daquele time, estava acabando de chegar. Mas no Borussia eu vivi desde o primeiro minuto o sonho dessa conquista. A gente sabia a responsabilidade que era devolver ao Dortmund um título nacional, com o clube sem ganhar a Bundesliga desde 96, levando a Champions em 97. Então aquele título foi realmente determinante para mim e para minha carreira. Conquistei também a artilharia e fui eleito o melhor do campeonato. [Questionado sobre a falta de chances na Seleção]: Realmente faltou um pouquinho de chance, porque eu acreditava que em 2002 eu poderia ser chamado para a Copa do Mundo. Infelizmente, não veio essa oportunidade. Mas isso não tirou o brilho da minha carreira por ter jogado na Europa, ter sido vencedor e ter defendido este grande clube que é o Borussia”.

Vale ver também o texto dos 15 anos da conquista do Dortmund no efemérides do éfemello

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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