África

O Egito vive outra tragédia, de novo em um contexto muito além do futebol

Dias depois do aniversário de três anos do massacre de Port Said, o futebol egípcio voltou a declarar luto. Afinal, o que era para ser uma rodada de festa nas arquibancadas, se tornou novamente em uma semana negra. Desde a morte de 74 torcedores do Al Ahly na partida contra o Al Masry, os estádios egípcios mantiveram os seus portões fechados em partidas locais. A reabertura aconteceu na última quarta-feira, ainda que sem admitir a capacidade máxima às torcidas. Para outra tragédia acontecer logo no domingo: segundo as fontes oficiais, 19 torcedores do Zamalek morreram nos arredores do Estádio Air Defense, antes da partida contra o Enppi. Alguns veículos de imprensa, no entanto, reportam 40 mortes.

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O conflito entre a versão do governo e a dos ultras do Zamalek vai muito além dos números. Segundo as autoridades, um pisoteamento causou as mortes, depois que membros da torcida organizada dos alvirrubros tentavam forçar a sua entrada nas arquibancadas, mesmo sem ingressos. Já os ultras acusam os policiais de fazerem uma emboscada fechando uma gaiola de metal na entrada do estádio, além de abusarem do uso de gás lacrimogêneo e balas de borracha para reprimi-los. As ruas do Cairo se transformaram em um verdadeiro campo de batalha, também com pneus queimados, rochas e fogos de artifício, em barricadas montadas por partes dos torcedores.

Os motivos da briga vão muito além do futebol. A tragédia de Port Said é o capítulo mais intenso da participação política dos ultras no Egito. Torcedores do Al Ahly e do Zamalek saíram às ruas durante os eventos da Primavera Árabe, entrando em confronto com a polícia egípcia nas manifestações pela queda do presidente Hosni Mubarak, que permaneceu por quase três décadas no poder. O ranço criado desde então gerou as 74 mortes em Port Said, pouco mais de um ano depois da Revolução de 25 de janeiro. As forças policiais que faziam a segurança no estádio fecharam as saídas dos ultras do Al Ahly e permitiram que os torcedores do Al Masry entrassem com artefatos para o massacre.

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A partir deste momento, o conflito entre policiais e ultras se intensificou ainda mais. Rival histórico do Al Ahly, o Zamalek anunciou apoio ao clube e saiu às ruas nas manifestações após Port Said. Mesmo os anúncios das sentenças aos envolvidos na tragédia, com 21 condenados à pena de morte, resultaram em mais assassinatos nas ruas. Os clubes egípcios só puderam encher as suas arquibancadas em jogos válidos pelas copas africanas, e mesmo assim em estádios longe do Cairo nos primeiros meses. A volta à capital a partir de 2013 acabou marcada por novos protestos e conflitos com a polícia, ainda que sem mortes.

Nas últimas semanas, as manifestações das torcidas do Egito aconteciam justamente pela volta aos estádios. Em dezembro de 2014, durante decisão da Copa das Confederações Africanas (o segundo torneio mais importante do continente), os ultras do Al Ahly tiveram comportamento classificado como exemplar pelas autoridades egípcias e fizeram mosaicos pedindo pela volta das torcidas no campeonato nacional. Da mesma forma, o Dérbi do Cairo só contou com arquibancadas cheias nos treinos. E, apesar do impedimento, os torcedores do Zamalek conseguiram estender faixas de protesto pela reabertura dos portões.

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A tragédia de domingo deixa um novo ponto de interrogação sobre o futebol no Egito. Apesar das mortes, a partida entre Zamalek e Enppi foi realizada normalmente, com parte das arquibancadas ocupadas até mesmo pelos Ultras White Knights. Formado nas categorias de base e ligado aos ultras, Omar Gaber se recusou a entrar em campo, o único, e deve ser punido pela diretoria. Já o governo egípcio anunciou a interrupção da liga nacional por tempo indeterminado, enquanto toma novas decisões sobre o caso.

Mideast Egypt Soccer Riot

Os ultras do Al Ahly se manifestaram após o ocorrido no Cairo e prometeram apoio ao Zamalek. “A liga em 2012 foi cancelada com o sangue de nossos mártires. Hoje, os mártires vieram da torcida do Zamalek, e todo o seu pecado é que eles queriam torcer pelo seu time. Apesar de tudo, a partida foi disputada e nada aconteceu”, declarou o grupo. “Pela segunda vez, torcedores morrem apenas por irem a um jogo. A morte se tornou tão banal? O assassino está a salvo sem punição”.

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Não será surpreendente se, nos próximos dias, outras batalhas nas ruas do Egito acontecerem envolvendo as duas torcidas. Dois clubes forjados a partir do nacionalismo no país africano, durante o início do Século XX, e que também se incumbiram de engrossar as manifestações na Praça Tahrir contra Hosni Mubarak. Neste momento, entretanto, a luta dos ultras não se prende tanto à política. Ela se concentra mais na busca pelo próprio direito de torcer, assim como na antiga briga contra a repressão policial. Ainda que não haja um lado totalmente inocente em meio a tanto sangue derramado.

Assim como já aconteceu em tantos outros países, em diversos momentos da história contemporânea, a queda de braço se concentra entre os jovens que buscam aquilo que sentem como liberdade em meio de um estado repressivo. Desta vez, travestido em meio às torcidas de futebol. E enquanto a reação das autoridades abusar da força nas respostas, a solução não parece tão próxima. Prejudicando risco o futebol egípcio e, pior, todo o resto da massa de torcedores dos grandes clubes.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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