Muito além de uma rivalidade

O último dia 25 de janeiro marcou o primeiro aniversário da Revolução Egípcia. Nesta data houve o início dos protestos que deflagraram a Primavera Árabe e a queda do presidente Hosni Mubarak. Era o fim do poder instaurado por três décadas e o início de um novo momento político. Passada uma semana exata do evento, o futebol egípcio vivenciou a maior tragédia de sua história. E as cenas de horror vistas em Port Said nesta quarta-feira têm relação direta com as agitações vividas no país.

Ao longo do último ano, várias foram as provas do papel das torcidas no desenrolar da revolução. Manifestantes com a camisa do Al Ahly, clube historicamente ligado à massa operária, participaram dos atos na Praça Tahrir, da tomada da embaixada israelense e de outros eventos primordiais dentro do contexto político egípcio.

Na última semana, a federação local já havia adiado a 16ª rodada do Campeonato Egípcio, tentando evitar manifestações durante o aniversário da revolução. Contudo, ameaças feitas na Internet acabaram tomando neste 1º de fevereiro. Depois de 73 mortes – número oficial até o momento – a competição voltou a ser interrompida, desta vez sem retorno previsto.

A rivalidade entre as torcidas (que, cabe frisar, é menor que a existente entre Al Ahly e Zamalek) foi o estopim para a batalha, mas a negligência dos policiais acabou por permitir que ainda mais sangue fosse derramado. Executora da repressão de Mubarak, a polícia egípcia agiu brutalmente durante as manifestações de 2011. Porém, com o sucesso da revolução, as forças de segurança passaram a retaliar a população através de sua inoperância. A omissão foi um sinal da conivência aos ataques contra os torcedores do Al Ahly.

Horas depois do ocorrido, o Partido de Liberdade e Justiça, majoritário no novo parlamento, acusou os partidários de Mubarak como responsáveis pelo caos: “Os eventos de Port Said foram orquestrados e são uma mensagem dos remanescentes do antigo regime. Este é um plano explícito para criar discórdia, que tem como objetivo levar o Egito a uma concatenação de crise e não está isolado de nenhuma maneira da cena geral dos dias anteriores”. O PLJ é o braço político da Irmandade Muçulmana, forte opositora do ex-presidente.

As declarações do presidente do Al Masry, Kamel Abu Ali, também alinham o clube ao lado do antigo regime: “Este é um complô para derrubar o Estado. A polícia tem que voltar com força e devemos deixá-los fazer o seu trabalho. Quando um criminoso precisa ser punido, não devemos defendê-lo”.

Atual chefe de estado (e ex-ministro da defesa de Mubarak), o Marechal Mohamed Hussein Tantawi recebeu os jogadores do Al Ahly no aeroporto e aproveitou a ocasião para pedir a colaboração do povo para com os militares. Entretanto, o Egito aguarda uma quinta-feira de intensas manifestações contra a própria junta militar que conduz a transição política no país. Milhares de pessoas se reúnem nas estações de trem do Cairo, aonde chegam os feridos do conflito. O terror de Port Said abre um novo capítulo da revolução.

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