“Ser diferente não é nosso objetivo. Não sentamos para pensar como podemos nos diferenciar dos outros clubes ou como podemos aprimorar nossa marca. Nós simplesmente temos nosso perfil. Não fazemos nada por isso. O que fazemos é por nossa comunidade. O que importa para nós é: como o que fazemos afetará os torcedores, que são nossa prioridade?”.

As palavras de Dirk Zingler, presidente do Union Berlim, deixam claro que não há um projeto estrito para se forjar um clube singular. Mas, de fato, o Union acaba sendo – quase que por osmose. Porque, afinal, se tornou raro no futebol ver um time que valoriza seus traços mais importantes: a torcida, a identidade, o acolhimento. Os Eisernen se atêm a isso como principal premissa e conduzem seu futebol pensando primordialmente no que acontece nas arquibancadas. A estabilidade financeira e o sucesso esportivo são felizes desdobramentos. Agora, com o inédito acesso à Bundesliga.

A própria trajetória do Union torna o clube singular. A agremiação reconta diversos momentos históricos de Berlim, sobretudo durante a divisão da capital em duas partes. Os Eisernen foram percebidos como um time que se contrapunha ao sistema autoritário na Alemanha Oriental, mas nem por isso pretendem se colocar como um símbolo da resistência ou como uma bandeira política específica. A leitura depende de seu contexto e a valorização almejada pelos berlinenses é da gente que construiu sua história. O futebol é o mote a uma torcida apaixonada, mas que nem por isso deixa de se comprometer com seu entorno e de transmitir um senso de comunidade gigantesco. Futebol e sociedade não se separam, ainda mais em Köpenick.

É como escreve a revista 11 Freunde, definindo o clube logo depois do acesso: “O Union Berlim não é explicitamente político como o St. Pauli, mas implícito – aliás, eles não se gostam por causa desta sutil diferença. No Union, tudo se volta à experiência no estádio. […] Isso cria uma comunidade especial e um clima diferente, porque não se subordina à lógica comercial. Também não é anticomercial, porque os patrocinadores são convidados para ser parte de tudo. Para se decifrar exatamente o que é, os etnólogos e os cientistas culturais podem quebrar a cabeça”. O Union é o que é, num misto de contraposições, sem tentar necessariamente se promover pelas singularidades que o moldam. Mas há um antagonismo inerente à sua raiz.

Entre o que se percebeu no passado e o que se delineou com o tempo, entre o que faz e o que transmite por tabela, o Union Berlim se diferencia. O próprio entorno do futebol o empurra a isso. Os Eisernen seguem seu caminho. Como define o jornalista Leandro Vignoli, no livro ‘À Sombra de Gigantes’: “É um clube que enfrentou o regime socialista e hoje luta contra a premissa capitalista da comercialização do futebol. Não deixa de ser um grande conceito de ironia”. A tal da singularidade que rodeia o Estádio An der Alten Försterei.

Pode ser que o futebol rudimentar não atraia muita gente, que pessoas torçam contra o Union Berlim por aquilo que se encaixa em estereótipos. No entanto, é praticamente impossível passar incólume à identidade dos Eisernen sem criar algum tipo de relação. É uma essência do futebol que, em tempos modernos, surge na Bundesliga. Para recontar um pouco dessa história e desses pensamentos que rodeiam o lado leste de Berlim, elaboramos uma lista com 20 motivos para acompanhar o Union na primeira divisão do Campeonato Alemão. São 20 motivos que indicam por que os berlinenses são diferentes, após chegarem à elite.

– Porque surgiu como um time de raízes populares em Berlim

A origem do Union está em Oberschöneweide, então um município a leste de Berlim, que se tornou pólo industrial a partir do final do Século XIX. Em tempos nos quais o futebol ainda era um esporte ligado às elites, o chamado Olympia Oberschöneweide era composto por estudantes e paulatinamente se aproximou dos operários. O nome “Union” e as cores daqueles primórdios (azul e branco) foram adotadas após uma breve fusão com o Union 92, um dos clubes tradicionais de Berlim. Mas, no fim das contas, as camisas azuis viraram um símbolo da ligação proletária, se assemelhando aos uniformes utilizados pelos trabalhadores.

Durante a década de 1910, Oberschöneweide virou centro da indústria bélica para a Primeira Guerra Mundial e se desenvolveu como uma região operária. Cerca de 60% dos membros do Union foram convocados ao front, sendo que só um quinto retornou. Já durante os anos de 1920, surgiu o apelido de “Eisern Union”, o Union de Ferro, referência justamente às fábricas. Os jogadores, por sua origem, também eram chamados de “garotos metalúrgicos”.

– Porque tem um dos estádios mais legais do mundo

Um reforço a esta origem popular do Union aconteceu em 1920, quando o clube inaugurou o seu atual estádio. A obra aconteceu em Köpenick, distrito vizinho a Oberschöneweide e que seria incorporado à estrutura administrativa de Berlim meses depois da construção. Localizado dentro de um parque, o estádio ganhou o nome de “An der Alten Försterei”, referência à guarda florestal. E a arquitetura emblemática se mantém, sobretudo na fachada, independentemente das sucessivas reformas desde a década de 1950. Não é a modernização que mudou o caráter rústico do local, com suas arquibancadas de concreto ou a casinha onde fica o placar manual. Foi nesta mesma época, aliás, que os Eisernen viveram seus primeiros sucessos. Conquistaram duas vezes o Campeonato Berlinense e chegaram à final do Campeonato Alemão de 1923, então regionalizado, derrotados pelo Hamburgo na decisão.

– Porque se contrapôs à divisão da Alemanha

O Union se manteve como um clube modesto nos anos 1930, engolido pela estrutura do futebol estabelecida durante o Terceiro Reich, e ressurgiu brevemente ao conquistar o título regional em 1940. Já ao final do conflito, o representante de Oberschöneweide voltou às cabeças e faturou o Campeonato Berlinense em 1948. Nas quartas de final do Campeonato Alemão, a equipe levou 70 mil ao Estádio Olímpico, apesar da derrota por 7 a 0 diante do St. Pauli. E na temporada seguinte, o Union recuperou seu antigo nome. Embora a influência soviética no leste de Berlim desejasse romper as “ligações burguesas” do futebol, a alcunha se encaixava nos padrões políticos.

Os Eisernen, de qualquer forma, não demorariam a ter seus atritos com o sistema. Em 1950, por ser vice-campeão de Berlim, o Union ganhou o direito de disputar a fase final do Campeonato Alemão-Ocidental. Na época, a liga da capital ainda não era dividida. Pois o regime oriental tentou impedir a viagem dos berlinenses a Kiel, onde enfrentariam o Hamburgo. Os jogadores peitaram a imposição e foram derrotados pelos Dinossauros por 7 a 0. Duas semanas depois, grande parte dos membros se mudaram a Berlim Ocidental e criaram o Union 06 Berlim. A separação afetou profundamente o Union Oberschöneweide. O Union 06 não apenas levou os melhores jogadores, como também a maioria da torcida. O trânsito de pessoas ainda era amplo entre as duas metades de Berlim e a nova agremiação jogava com casa cheia no Poststadion. Um apoio que se refletiu em campo, com os ocidentais faturando o Campeonato Berlinense em 1953. Apesar dos prejuízos, a relação entre as agremiações cindidas era fraternal.

– Porque aproximou as metades de Berlim

O Union Oberschöneweide penou em sua absorção dentro do Campeonato Alemão-Oriental durante o início dos anos 1950. Dentro do projeto estatal de ligar o futebol à indústria, o clube virou “Motor” e passou a ser apoiado pela companhia de transformadores elétricos. Foi nessa época que o uniforme mudou de azul para vermelho. A iniciativa só não significou o sucesso esportivo, com o descenso na liga e diferentes fusões nos anos seguintes. Ao mesmo tempo, o regime comunista direcionava o sistema para ter um time forte na capital. Transferiu o Vörwarts (fomentado pelo exército) de Leipzig a Berlim e também depenou o Dynamo Dresden para impulsionar o Dynamo Berlim, apoiado pela Stasi, a polícia secreta.

A mudança de identidade e o sucesso do Union 06 afastou o “Motor” de seu público. Além disso, era normal que os melhores jogadores debandassem e fossem buscar oportunidades do lado ocidental. A força dos orientais só começou a se restabelecer na virada para os anos 1960. E com a influência do Muro de Berlim, a partir de 1961. A construção impedia que os torcedores fossem ao Poststadion apoiar os alviazuis. Enquanto isso, os alvirrubros criavam esperanças de acesso. Foi assim que o público de Oberschöneweide voltou a encher o velho estádio, mas não só eles. A barreira criada pelo muro também fez com que o Union se tornasse o time favorito de muitos torcedores do leste que apoiavam outros clubes do oeste, com menção especial ao Hertha.

– Porque foi um canal de resistência

O verdadeiro renascimento do Union “oriental” aconteceu entre 1963 e 1966. Primeiro, o TSC Berliner foi fundado como um clube poliesportivo destinado à sociedade civil da capital, contrapondo os oficialismos de Dynamo e Vörwarts. O time de Oberschöneweide, então, acabou incorporado como departamento de futebol. Já em 1966, a agremiação readotou o nome de Union. Neste mesmo período, o governo da Alemanha Oriental criou um plano de desenvolvimento do futebol, credenciando alguns clubes como centros formadores. Mesmo na segunda divisão, os Eisernen foram incluídos no projeto. A intenção era justamente oferecer uma oportunidade à massa trabalhadora representada pelo clube. A agremiação passou a ser fomentada pelo principal sindicato local.

Por mais que o Union fizesse parte da estrutura do regime, o clube passou a ser visto como um contraponto ao autoritarismo do exército ou da polícia secreta. De volta à primeira divisão, o time passou a frequentar o meio da tabela da Oberliga e conquistou a Copa da Alemanha Oriental em 1968. Ao mesmo tempo, o Vörwarts se mudou para Frankfurt (Oder), enquanto os desmandos para ajudar o Dynamo se ampliavam. Manipulações de resultados, transferências massivas de jogadores e intimidações eram protocolo comum para beneficiar a equipe da Stasi. E em tempos nos quais a vigilância sobre a população atingia uma realidade distópica, o Union surgia como um antagonista.

– Porque foi um símbolo de contracultura

Cabe dizer que o Union Berlim não era e nem poderia ser oficialmente um clube contra o poder. A maioria dos torcedores que frequentava o Estádio An der Alten Försterei estava ali pelo futebol – que fosse um futebol limpo, diferente do Dynamo. De qualquer maneira, não se nega a veia popular dos Eisernen. As médias de público quase sempre superavam os 10 mil torcedores na virada das décadas de 1970 para os anos 1980, mesmo com a equipe transitando entre a primeira e a segunda divisão. Concomitantemente, o Dynamo tinha médias inferiores na maioria dos anos, e isso enquanto emendava seu decampeonato nacional. Além do mais, seus números eram inflacionados por agentes da Stasi e outros funcionários das autoridades públicas, que ganhavam ingressos para o Friedrich-Ludwig-Jahn-Sportpark.

A torcida do Union se calcava em pessoas “comuns” da Berlim Oriental, sobretudo operários, mas também absorvia descontentes com o regime. Movimentos da contracultura começaram a se associar ao clube, em especial punks e hippies. Filha de um torcedor fanático dos Eisernen, a cantora Nina Hagen é o maior exemplo desta aproximação com os punks. De maneira similar ao que aconteceu com o Spartak Moscou na União Soviética, as arquibancadas dos Eisernen transmitiam uma sensação de liberdade – mesmo que a vigilância da Stasi fosse perene, mantendo registros de quem frequentava o An der Alten Försterei. “Nem todo torcedor do Union é inimigo do Estado, mas todos os inimigos do Estado são torcedores do Union”, afirmava o editor da Eulenspiegel, a revista satírica mais popular do país.

Os clássicos com o Dynamo Berlim, ainda que dominados pelo clube da Stasi em campo, contavam com um clima quente nas arquibancadas. “Die Mauer muss weg” (O muro vai cair) e “Wir wollen keine Stasi schweine” (Nós não queremos os porcos da Stasi) eram alguns cânticos que se ouviam do lado do Union no fim da década de 1980. Além disso, com o hooliganismo e a violência crescendo nos últimos anos de Alemanha Oriental, os embates entre ultras eram frequentes. Movimentos neonazistas ganharam força neste período, sobretudo na torcida do Dynamo, algo que persiste por décadas. Todavia, esses grupos também tiveram espaço na torcida do Union, em menor escala. Os ultras do grupo chamado “Borussen” chegaram a divulgar materiais fascistas durante a década de 1980 e tiveram força nos anos 1990, quando o público no Estádio An der Alten Försterei se reduziu.

– Porque representou tempos de mudança na Alemanha

Que o muro dividisse Berlim, isso nunca interrompeu a ligação do Union e do Hertha entre as duas metades da cidade. Como dito acima, as arquibancadas dos Eisernen passaram a atrair muitos torcedores do Hertha que viviam no lado oriental. Além do mais, como o trânsito de moradores ocidentais não sofria restrições tão pesadas com o muro, muitos alviazuis frequentavam o An der Alten Försterei. Vestir a camisa listrada era um sinal de apoio e de desafio ao autoritarismo. E quando o Hertha ia disputar as copas europeias nos outros países da Cortina de Ferro, via a torcida do Union tomar o setor visitante para apoiar o time. Foi assim em compromissos na Iugoslávia, na Tchecoslováquia e na Bulgária durante a década de 1970.

Quando o Muro de Berlim caiu, em novembro de 1989, não demorou para Union e Hertha celebrarem a amizade. Em janeiro de 1990, os dois times disputaram um amistoso no Estádio Olímpico de Berlim, que representava os novos tempos diante da reunificação da Alemanha. Mais de 51 mil torcedores encheram as arquibancadas para o “Hertha und Union, eine Nation” (Hertha e Union, uma nação), que terminou com a vitória dos alviazuis por 2 a 1. Meses depois, outro resultado simbólico dos Eisernen aconteceu no clássico contra o Dynamo, pela Copa da Alemanha Oriental. O triunfo rompia o jejum de 14 anos contra os rivais e também sinalizava o fim dos privilégios impostos pela Stasi.

– Porque foi salvo pela torcida na maior tormenta

O gargalo na reunificação do Campeonato Alemão foi estreito aos times da Oberliga. Apenas dois ganharam o acesso direto à Bundesliga, o que levou o Union Berlim a recomeçar sua trajetória na terceira divisão. As médias de público caíram drasticamente neste período, em tempos nos quais os movimentos neonazistas também afetavam as arquibancadas. E, mesmo que não fosse bancada por uma instituição falida do antigo governo comunista, o que afundou diversos clubes relevantes, a agremiação encarou o impacto em sua transição econômica. Conquistou o acesso em campo nas temporadas 1992/93 e 1993/94, mas não pôde subir à segundona porque a Bundesliga negou a licença. Garantias bancárias falsificadas foram entregues à liga e logo descobertas.

Como consequência, o Union precisou se desfazer de seus principais jogadores, como Marko Rehmer e Sergej Barbarez, mas nem assim os Eisernen conseguiam quitar seus débitos. A situação chegou a um limite em fevereiro de 1997, quando a imprensa já apontava que a falência era inescapável. Então, cerca de três mil torcedores organizaram uma manifestação no Portão de Brandemburgo para evitar a bancarrota. A iniciativa chamou a atenção da mídia. O Studiocanal e a Nike ofereceram patrocínios ao clube, que evitaram a quebra imediata. Mesmo assim, a torcida seguiu se empenhando para tirar as contas do vermelho. Realizava vaquinhas nas arquibancadas do An der Alten Försterei, bem como outras doações. Foi neste momento que Nina Hagen gravou o hino do clube, arrecadando com a venda do disco. “Eisern Union” continua soando no sistema de som durante os jogos dos berlinenses.

– Porque escreveu uma daquelas histórias que a gente adora nas copas

Apesar de toda a draga, o Union Berlim conseguiu se sustentar. E começaria a se reerguer em pouco tempo. Em 2000/01, o perseguido acesso à segunda divisão da Bundesliga se concretizou – desta vez, com dinheiro para bancar a licença. Todavia, ainda mais marcante foi a campanha até a decisão da Copa da Alemanha. Pela terceira vez na história (e última, desde então), um time da terceirona alcançava a final da Pokal. Os Eisernen deixaram dois adversários da elite pelo caminho. Nas quartas de final, derrotaram o Bochum por 1 a 0. Já nas semifinais, a torcida vibrou com a classificação sobre o Borussia Mönchengladbach nos pênaltis. Após o empate por 2 a 2 no tempo normal, os anfitriões anotaram 4 a 2 na marca da cal, para delírio dos 18 mil presentes no An der Alten Försterei.

Já na decisão, diante de 73 mil no Estádio Olímpico de Berlim, o Union não suportou o Schalke 04. Jörg Böhme anotou os gols na vitória por 2 a 0 dos Azuis Reais. Ainda assim, a façanha valeu uma vaga na Copa da Uefa aos Eisernen – sua primeira participação em uma competição continental, após algumas aparições na Copa Intertoto. Os berlinenses chegaram a eliminar o Haka Valkeakoski, da Finlândia, na primeira fase. Sucumbiram na etapa seguinte, contra os búlgaros do Litex Lovech.

– Porque fez as pessoas literalmente darem o sangue pela salvação

A permanência do Union Berlim na segunda divisão por três temporadas não garantiu a estabilidade econômica do clube. Os berlinenses sofreriam dois descensos em sequência depois disso, indo parar na quarta divisão. Sem dinheiro para bancar as dívidas e pagar a licença na liga, a agremiação precisou mais uma vez contar com os torcedores. Em 2004, uma grande campanha de doação de sangue foi armada. Os fanáticos dariam seu sangue e o valor simbólico pago pelo sistema de saúde alemão seria direcionado aos Eisernen. Além disso, outras iniciativas foram realizadas. O clube vendeu camisetas, realizou shows de rock e disputou dois amistosos no Estádio An der Alten Försterei – contra St. Pauli e Bayern de Munique. Por fim, alcançaram os quase €1,5 milhão necessários para cobrir os rombos.

Nesta mesma época, o Union passou a ser presidido por Dirk Zingler. Dono de uma empresa de logística, ele frequentava as arquibancadas desde os tempos de Oberliga – embora tenha se envolvido com o exército da Alemanha Oriental durante a juventude, o que virou motivo de controvérsia anos depois. Apesar dos questionamentos, tornou-se um dirigente que entendia a torcida e a identidade do clube. Não à toa, o presidente passou a adotar medidas que distribuíssem o poder entre a massa que frequenta as arquibancadas. As decisões administrativas são submetidas a consultas populares. Valorizam a coletividade e garantem um ambiente democrático dentro da agremiação.

– Porque seu estádio é sinônimo de vanguarda

O Union Berlim trouxe novas ideias ao seu comando, mas ainda precisou se reerguer em campo. Conquistou o acesso na quarta divisão de maneira imediata, em 2005/06. Além disso, passou três anos na terceirona, até retornar à segunda divisão. Neste intervalo, o Estádio An der Alten Försterei precisou ser reformado e adaptado às normas da Bundesliga. Com a grana curta e a falta de compromisso da empreiteira contratada, a própria torcida colocou a mão na massa. Mais de 2 mil torcedores se cadastraram como operários voluntários, somando 140 mil horas de serviço. Foi um passo importante para a modernização e a estabilidade dos berlinenses na segunda divisão, a partir de 2009.

Além disso, a diretoria garantiu que o Estádio An der Alten Försterei mantivesse seu nome com outra iniciativa inteligente. Em 2011, o clube decidiu vender os naming rights para os próprios torcedores. Foram disponibilizadas 10 mil cotas de €500, apenas aos sócios da agremiação. Pois o sucesso na campanha foi total, garantindo €5 milhões para as melhorias das próprias estruturas – com um novo setor de arquibancadas. “Nós decidimos vender nossa alma”, disse o presidente Dirk Zingler, em uma entrevista ao jornal Berliner Zeitung. “Para os membros”, completou.

– Porque realiza o melhor Natal e transforma o campo em sala de estar à Copa

O Estádio An der Alten Försterei começou a abrir seus portões para eventos além do futebol. A iniciativa mais famosa surgiu em 2003, quando 80 pessoas se juntaram para celebrar o Natal nas próprias estruturas da agremiação. Desde então, o crescimento do público para os festejos natalinos é assombroso e, nos últimos anos, se aproximou dos 30 mil presentes, com o valor dos ingressos doados a instituições de caridade. Nas vésperas do 25 de dezembro, uma multidão toma as arquibancadas e o gramado para cantar músicas tradicionais, acender velas e colocar touquinhas de Papai Noel. Mais do que uma oportunidade para aproximar o clube de seu público, a comemoração também estreita os laços com a comunidade. Em 2016, a ocasião teve um significado maior, após os atentados do Estado Islâmico em Berlim. Foi uma chance de mostrar a força da população contra o terror.

Já em 2014, o Estádio An der Försterei funcionou durante a Copa do Mundo. O clube instalou um telão nas arquibancadas e espalhou quase 800 sofás pelo campo. Havia um clima de “sala de estar”, até pela decoração preparada pela agremiação. Assim, os berlinenses puderam congregar na conquista do tetracampeonato mundial, acompanhada no local. A venda de cerveja certamente ajudou a aquecer as finanças durante o mês de férias do elenco. Há ainda outros eventos culturais oferecidos pelo clube, incluindo teatros, corridas de ruas e um final de semana dedicado somente à promoção do futebol feminino entre jovens.

– Porque se preocupa com a inclusão e com a integração

A preocupação do Union Berlim, vale dizer, não se restringe aos seus torcedores. O senso de pertencimento do clube vai além e a agremiação abertamente adota campanhas progressistas, que conversam com a sociedade de Berlim. Em uma metrópole cosmopolita, sobretudo por seu fluxo cultural, os Eisernen se inserem na realidade, mas sem perderem seus traços originais. É importante também como a torcida, ainda baseada em grupos familiares e nos trabalhadores da capital, abraça este tipo de visão política.

Os exemplos são costumeiros. O Union Berlim já abriu as portas de sua sede para receber refugiados do Oriente Médio e da África durante o inverno e participou das discussões sobre a situação de refugiados no país. Possui um programa para debater a homossexualidade no futebol. E tem um trabalho de integração que visa combater o racismo, com a sensibilização de jovens sobre os obstáculos encarados pelas minorias. Desde 2007, o estatuto da agremiação afirma: “Todas as pessoas têm o direito à não discriminação, independentemente de sua cor, etnia, religião, ideologia, orientação sexual ou dificuldades especiais”. Mais do que em promoções, isso se nota em ações.

O maior passo para o comprometimento social do Union aconteceu em 2016, quando o clube lançou sua própria fundação. A ideia do projeto é ampliar os esforços e reforçar as parcerias que já existiam. A primeira medida da nova organização foi a expansão dos treinamentos gratuitos oferecidos a crianças e adolescentes. Além de proporcionar a saúde e a socialização, a iniciativa também foca na educação sobre a integração e a tolerância.

– Porque não vira as costas aos seus jogadores

As políticas do Union Berlim não são apenas da boca para fora. O clube realiza também um grande trabalho interno, de respeito e valorização de seus jogadores. Cada contratação passa por uma ampla avaliação da comissão técnica, que também inclui o diretor de marketing, o assessor de imprensa e o chefe da base. Isso reforça a análise em conjunto e considera aspectos além do jogo entre os atletas.

Mais importante, o Union se importa com o aspecto humano, algo que ficou claro em 2015. Meio-campista da equipe, Benjamin Köhler estava em final de contrato quando descobriu um câncer de estômago. A diretoria renovou o vínculo do veterano e ofereceu o apoio em sua luta contra a doença. Em campo, o time chegou a paralisar o jogo contra o Bochum aos sete minutos, para homenagear o camisa 7 com camisas especiais e faixas. Quase um ano depois, curado, Köhler voltou aos gramados e recebeu uma ovação da torcida no Estádio An der Alten Försterei. Permaneceria no time até 2017, quando se aposentou aos 36 anos, com problemas no joelho.

– Porque realiza o desenvolvimento com os pés no chão

O Union Berlim passou as últimas dez temporadas na segunda divisão da Bundesliga e cresceu gradualmente até conquistar o acesso nesta semana. Porém, essa estabilidade não significa necessariamente a bonança econômica. É um clube que joga com as armas que tem e monta elencos competitivos, mas sem grandes medalhões para acelerar os passos. As crises do passado deixaram lições profundas. Da mesma forma que a própria economia da antiga Berlim Oriental, onde está inserida a maior parte de sua torcida, restringe possibilidades. Mas não é por isso que os Eisernen desapegam de suas raízes para criar um projeto comercial. A prioridade segue sendo a paixão do torcedor, não necessariamente as vitórias. A fidelidade sustenta mais que o sucesso.

“Nossos patrocinadores são tão importantes para nós quanto os torcedores comuns. Mas, em nosso ambiente, os patrocinadores só podem ter sucesso se a promoção deles estiver de acordo com o que defendemos e se eles respeitarem as expectativas dos nossos torcedores”, afirmou Zingler, durante reportagem à revista 11 Freunde, em 2013. Segundo o presidente, a “proteção dos 90 minutos” é sagrada aos Eisernen. Também é isso que motiva uma política de preços acessíveis nos ingressos e valores congelados nos carnês de temporada, mesmo que isso traga suas limitações financeiras.

– Porque a torcida é a prioridade

Antes de pensar grande, o Union Berlim trata de sustentar a atmosfera em seu estádio. O futebol, ainda que figure como o intuito da agremiação, também é uma consequência do que dá certo fora de campo. O Estádio An der Alten Försterei proporciona um ambiente sem grandes luxos, mas completamente inflamado e contagiante. Impera aquele que deveria ser o princípio das arquibancadas: torcer de maneira ensandecida. A partir disso é que a roda gira. E a invasão de campo após o acesso contra o Stuttgart se torna uma baita amostra. É nisso que se fincam os pés de uma agremiação consciente de suas limitações e de sua pequenez.

“Balançadores de bandeiras, batedores de palmas e música de gol. O futebol se tornou show business. E corre o risco de se tornar imutável e indistinguível”, escreveu o clube, quando lançou a ideia de vender os naming rights aos torcedores. “O Union se estabeleceu sua própria e única cultura de futebol: arquibancadas de pé, paixão direta e futebol inalterado”. O desafio na primeira divisão será justamente priorizar este clima, diante das regras mais restritas às estruturas dos estádios na Bundesliga. Há um projeto de ampliação do estádio para 37 mil espectadores, mas mantendo os conceitos e garantindo mais 10 mil lugares em pé.

– Porque o show nas arquibancadas é frequente

Sinalizadores, cachecóis, cantoria intensa. Diante do projeto favorável, o Estádio An der Alten Försterei possui um clima único. Há ares de culto – ao futebol, ao clube, à paixão. As imagens explicam melhor do que qualquer coisa:

– Porque até os jogos fora de casa reservam espetáculos

Se as cenas no Estádio An der Alten Försterei quase sempre são impressionantes, o Union Berlim também possui uma torcida fiel nos jogos fora de casa. O preço acessível dos ingressos em Berlim facilita o financiamento das viagens por parte dos seguidores. Não à toa, os encontros com adversários da primeira divisão na Copa da Alemanha se tornaram simbólicos, diante das invasões realizadas pelos berlinenses. Foi assim que, duas vezes nos últimos três anos, os Eisernen roubaram a cena até no Signal Iduna Park:

– Porque seu sucesso é um exemplo a outros clubes

Há uma certa oposição entre o RB Leipzig e o Union Berlim. Os encontros dos clubes na segunda divisão foram marcados por protestos dos berlinenses contra o time da Red Bull. Chegaram a se vestir de preto e realizar 15 minutos de silêncio, “em respeito à morte do futebol”. Mas é importante ressaltar, também, que são dois projetos de futebol totalmente distintos. Enquanto o RasenBallsport cria um mercado em Leipzig e tenta se estabelecer como uma marca na modalidade, investindo em jovens jogadores, o Union Berlim vê o sucesso esportivo como uma consequência dos planos voltados à sua torcida. E este pode ser um caminho bem interessante à maioria absoluta dos clubes, sem um patrocinador abastado, mas com seu grupo de fiéis seguidores.

Através da gestão consciente e das ações ao público, o Union Berlim se tornou o clube mais bem sucedido entre todos os que participaram da antiga Oberliga. A valorização do estádio e as medidas coletivas não são possíveis em agremiações maiores, mas permitiram ao Eisernen se afirmarem e ampliarem a relação com o público. É difícil dizer o quanto irá durar a jornada na Bundesliga, até porque as exigências financeiras da elite forçam a realidade modesta dos berlinenses. Mas a história de ascensão do time e o protagonismo dado à torcida é algo que qualquer seguidor de clube pequeno gostaria de ver acontecendo em seu estádio. O Union Berlim é um norte, justamente por conhecer e respeitar sua identidade.

E o mais bacana é notar a postura propositiva dos Eisernen. Em outubro, o clube enviou uma carta para a liga alemã, propondo mudanças para melhorar o futebol profissional. “Se as competições nacionais se tornam desinteressantes, a presença de público diminui, então isso afeta a mídia e finalmente afasta os investidores. Uma competição nacional fraca também reduz a competitividade internacional”, escreveu a agremiação. Entre as propostas estão uma integração maior da terceira divisão, o contra-ataque à inflação salarial, a valorização das categorias de base, a profissionalização da arbitragem e o aumento do número de grupos representativos, sobretudo de torcedores, na organização dos campeonatos. O foco na “experiência de estádio” também foi um ponto central.

– Porque o futebol é feito das grandes histórias

E mais um capítulo começará a ser escrito na próxima Bundesliga. Será bacana acompanhar a maneira como o Union Berlim lidará com os novos obstáculos e como a torcida aproveitará a ocasião inédita, talvez curta, de estar na primeira divisão. Cada partida tende a ser inesquecível, independentemente dos resultados. Serão 34 partidas para engrandecer este comprometimento e esta trajetória, que quase nunca dependeu das vitórias para ser fascinante.