A Uefa baniu o Manchester City da Champions League por dois anos por violação do Fair Play Financeiro, segundo anunciado nesta sexta-feira pelo Órgão de Controle Financeiro dos Clubes (CFCB). O clube inglês terá que pagar uma multa de € 30 milhões (£ 25 milhões) pelas violações, além de considerarem que o clube não cooperou com as investigações do seu caso – uma forma bonita de dizer que tentaram induzir a entidade ao erro com os dados fornecidos. O caso cabe recurso ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS).

O clube inglês teve a chance de apresentar a sua defesa e foi ouvido em uma audiência no dia 22 de janeiro, em sessão presidida por José da Cunha Rodrigues, quando receberam também documentos do clube relativos aos pedidos feitos pelo órgão. Depois de analisar as provas e a defesa do City, a Uefa divulgou a decisão nesta sexta-feira. Com a punição, o Manchester City estará proibido de participar de competições europeias nas temporadas 2020/21 e 2021/22.

A suspensão das competições europeias é a punição máxima da Uefa pelo Fair Play Financeiro e, somando o valor da multa aplicada, fica claro que as violações foram consideradas graves. “A Câmara Adjudicatória, considerando todas as provas, considerou que o Manchester City Football Club cometeu sérias violações do Licenciamento de Clubes da Uefa e regulações do Fair Play Financeiro ao superfaturar suas receitas de patrocínio nas suas contas e nas informações do ponto de equilíbrio contábil enviados à Uefa entre 2012 e 2016”, diz comunicado da Uefa. “A Câmara Adjudicatória também considerou, violando a regulamentação, o clube não cooperou com as investigações do caso com a CFCB”.

Em palavras mais simples, a acusação da Uefa é de que o Manchester City maquiou as suas contas para disfarçar investimentos como patrocínios. A regra do Fair Play Financeiro, como já explicamos por aqui, é que, a grosso modo, os clubes não podem gastar mais do que recebem. Ou seja: para investir, é preciso que o clube consiga gerar dinheiro também. Com isso, a Uefa conseguiu reverter uma tendência de endividamento que os clubes viviam. Em relatório divulgado em janeiro de 2019, a Uefa mostrou que os clubes tiveram lucro somado pela primeira vez. A entidade atribui o resultado ao Fair play Financeiro, iniciado em 2011.

Além de não ter colaborado com as investigações, o Manchester City foi muito além. Desde o começo, foi hostil ao Fair Play Financeiro não só nas palavras, mas nas ações. Ativamente o clube procurou sabotar o regulamento com o uso do seu poder financeiro. David Conn, no Guardian, relata que o advogado do Manchester City, Simon Cliff, escreveu, nos e-mails vazados, que o presidente do clube, Khaldoon al-Mubarak, disse a Gianni Infantino, então secretário-geral da Uefa, que não aceitaria a punição dada ao clube por exceder o limite de prejuízo estabelecido, de € 45 milhões, para os anos de 2012 e 2013. Mais do que isso, fez uma ameaça formal, que “ele preferiria gastar 30 milhões nos 50 melhores advogados do mundo para processar a Uefa pelos próximos 10 anos”.

O Manchester City acabaria tendo um prejuízo muito acima do permitido naquele período de 2012 e 2014, alcançando a marca de € 180 milhões, o que já poderia ter gerado o banimento do clube. Porém, a Uefa entrou em acordo com os Citizens que deu uma multa e restrições na inscrição, algo considerado muito leniente inclusive por membros da equipe da Uefa.

E ia além do trabalho de pressão financeira dos bastidores: um dos membros da Câmara Investigatória, Jean-Luc Dehaene, ex-primeiro ministro da Bélgica e político União Europeia, morreu em maio de 2014. Nos e-mails vazados, o advogado do City, Cliff, escreve sobre a morte de Dahaene: “Um a menos, faltam seis”.

Desde o vazamento dos e-mails, o Manchester City nunca negou o que apareceu, sempre mostrando indignação e alegando perseguição ao clube. As reações do clube comandado pela família real dos Emirados Árabes sempre negou qualquer acusação de ilegalidade e descumprimento das regras e insiste que a Uefa a persegue – e a imprensa também, segundo seus dirigentes.

Desde maio de 2019, investigadores queriam uma punição ao Fair Play Financeiro depois de analisar as contas do clube. Havia dúvida, porém, se a entidade teria coragem de fazer valer as próprias regulações contra um time que se tornou não só rico, mas também muito poderoso e influente no futebol, com uma família dos Emirados Árabes no controle. Quando a investigação foi divulgada, naquele mês de maio, o Manchester City reagiu de forma voraz e chamou o processo de “insatisfatório, reduzido e hostil”.

A suspeita, porém, não é nova. Desde 2015 a Uefa investiga uma suspeita de maquiagem nas contas do Manchester City. Só que foi em novembro de 2018 que as coisas esquentaram. A publicação alemã Der Spiegel conseguiu acesso a e-mails e documentos que mostraram o processo de maquiagem das contas do Manchester City. Por causa das informações reveladas pelos documentos, a Uefa admitiu reabrir investigações relacionadas ao Manchester City e ao PSG.

Os e-mails mostram que o principal nome por trás do Manchester City, o dono, xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, que é da família real dos Emirados Árabes, era quem efetivamente colocava dinheiro no clube, usando o patrocínio da empresa do país, Etihad, como disfarce. Os e-mails mostram que apenas £ 8 milhões do total de £ 67,5 milhões do patrocínio saíam da Etihad. O resto saía da própria empresa que é dona do clube, Abu Dhabi United Group, o que é considerado ilegal. Com patrocínios artificialmente maiores, o clube poderia gastar mais também, o que permitiu uma espécie de “doping financeiro”. Há regras que não permitem que empresas ligadas ao dono patrocinem seus clubes, justamente para evitar uma fraude do Fair Play Financeiro.

A reação do Manchester City em relação à punição da Uefa foi imediata. Em seu site, o clube acusou a Uefa de ser parcial na sua investigação e pediu que isso fosse feito por um órgão independente, que não tivesse ligação com a Uefa.

“O Manchester City está decepcionado, mas não surpreso pelo anúncio de hoje pela Câmara Adjucatória da Uefa. O clube sempre antecipou a necessidade de procurar um órgão e um processo independentes para considerar imparcialmente o conjunto abrangente de provas irrefutáveis que apoiam sua posição”, afirma o clube inglês, em nota.

“Em dezembro de 2018, o investigador-chefe da Uefa antecipou previamente o resultado e a sansão que ele pretendia dar ao Manchester City, antes mesmo de qualquer investigação começar. O subsequente processo da Uefa, problemático e consistentemente vazado, que ele supervisionou significa que havia pouca dúvida sobre que resultado ele teria. O clube formalmente reclamou ao órgão disciplinar da Uefa, uma reclamação que foi validada por uma decisão do TAS”, continua a nota do Manchester City.

“Simplificando, este caso foi iniciado pela Uefa, acusado pela Uefa e julgado pela Uefa. Com o seu processo enviesado agora encerrado, o clube irá buscar um julgamento imparcial o mais rapidamente possível e irá, portanto, em primeira instância, começar os processos no Tribunal Arbitral do Esporte na primeira oportunidade”, diz ainda o comunicado do clube inglês.

Manchester City e PSG são suspeitos de terem inflado seus próprios patrocínios há muitos anos e a Uefa nunca pareceu realmente rigorosa com esses clubes. O PSG chegou a zombar da cara da Uefa ao contratar Neymar por € 222 milhões em 2017 e, logo em seguida, contratar Kylian Mbappé em um contrato de empréstimo, com a compra condicionada ao clube não ser rebaixado e totalizando um valor de € 180 milhões – transações que, pelas receitas do PSG, seriam impossíveis. A Uefa, contatada sobe o assunto, respondeu, também de forma cínica, “que o PSG deve ter feito bem as contas”.

Já em 2017 alertamos que era preciso que a Uefa agisse, porque as ações dos clubes claramente estavam ignorando as regulações, ou tentando disfarçar de modo cínico, como foi o caso do PSG. Antes disso, ainda em 2014, explicamos por que a Uefa punia clubes como Estrela Vermelha, mas não PSG e Manchester City.

Em 2016, o Galatasaray também recebeu a pena máxima ao ser suspenso de competições europeias por violações do Fair Play Financeiro. Na atual temporada, o Milan fez um acordo para a Uefa e abriu mão voluntariamente da sua vaga na Liga Europa, justamente por violações do Fair Play Financeiro.

É verdade que a Uefa chegou a punir PSG e Manchester City em 2014, mas de forma muito branda, tanto que dirigentes de PSG e Manchester City saíram sorridentes com o que conseguiram. E olha que o PSG tinha maquiado € 125 milhões nas suas contas em 2013. Ainda com Gianni Infantino como secretário-geral da Uefa, a entidade tinha reafirmado o cerco a clubes bancados por magnatas (com enormes prejuízos, inclusive). Faltava cumprir.

Será que estamos vendo uma nova era da Uefa, que irá de fato fazer valer as regras do Fair Play Financeiro? Vamos aguardar cenas dos próximos capítulos.