A conquista do Monterrey no Torneio Apertura colocou Antonio Mohamed como um dos maiores vencedores do Campeonato Mexicano neste século. Entre os técnicos, apenas Tuca Ferretti possui mais troféus da Liga MX que o argentino, campeão anteriormente com o Tijuana (2012) e com o América (2014). O título à frente dos Rayados, ainda assim, possui um valor especial ao treinador. Ele cumpre uma promessa feita ao falecido filho de Mohamed e, por isso mesmo, a noite no Estádio Azteca seria cercada de emoções.

Revelado pelo Huracán, Turco Mohamed chegou a defender Boca Juniors e Independiente no início dos anos 1990, após disputar a Copa América de 1991 com a seleção argentina. O meio-campista, todavia, construiu boa parte de sua carreira no próprio futebol mexicano. A ligação mais forte era com o Toros Neza, onde passou cinco anos, de 1993 a 1998. Depois disso, iniciaria sua relação com o Monterrey, vestindo a camisa listrada até 2000. Seu filho Faryd era um garotinho recém-saído das fraldas nessa época e acabou adotando os Rayados como o seu clube favorito. Com frequência entrava em campo ao lado do pai. “Meu filho nasceu no México, era fiel mascote do Monterrey e muitas fotos que tenho dele com são com o time”, contaria El Turco.

Mohamed rodou por outros clubes depois de sair do Monterrey, com a passagem mais relevante pelo Atlante, até encerrar a carreira em 2003. Faryd, ainda assim, mantinha sua fidelidade aos Rayados. A trajetória como treinador começou já neste período, à frente do Zacatepec, antes de passar por Morelia e Querétaro. Em 2005, El Turco retornou à Argentina para comandar o Huracán na segundona. No ano seguinte, o Globo chegou a disputar o acesso com o Argentinos Juniors, mas empatou os duelos decisivos e deixou a promoção escapar. Faryd, triste pela derrota, logo teria um motivo para se animar: o garoto de nove anos viajaria com o pai rumo à Alemanha, para acompanhar a Copa do Mundo in loco.

Antonio, Faryd e outros amigos do veterano assistiram a vários jogos, incluindo o Alemanha x Argentina das quartas de final do Mundial, em Berlim. Depois da eliminação, anteciparam o voo de volta à Argentina e dirigiam-se a Frankfurt no motorhome alugado pelo treinador. Antonio começou no volante, mas passou a um amigo para dormir um pouco ao lado do filho. Na altura de Dresden, o veículo sofreu um acidente, ao ser atingido na traseira por outro carro a 180 quilômetros por hora. Com ferimentos na cabeça e nos pulmões, Faryd foi encaminhado ao hospital em estado grave, mas não resistiu e faleceu quatro dias depois. El Turco Mohamed correu o risco de amputar a perna, com uma tripla fratura, mas se recuperou após 60 dias internado e retomou o trabalho no Huracán três meses depois.

“É uma situação que, num segundo, muda sua vida. A partir daquele momento, minha vida mudou e estou tentando soltar essa dor. Eu creio que já quase tenho tudo isso transformado em energia positiva, em viver com meus outros filhos, em amar os meus filhos. Todos temos uma história de dor por trás. Não é questão de se vitimizar, mas de poder aproveitar os filhos e olhar adiante. Há pouco tempo de vida, temos que dar luz, estar positivos, olhar sempre para frente. Esta é minha história”, contou recentemente Mohamed, em entrevista à televisão argentina.

A partir daquele instante, a carreira de Antonio Mohamed como treinador possuía objetivos paralelos: cumprir as promessas feitas a Faryd antes que o filho falecesse. A primeira delas se realizou ainda em 2007, quando venceu os dois jogos contra o Godoy Cruz e levou o Huracán de volta à primeira divisão argentina. No entanto, o pai também dissera que voltaria ao Monterrey, time de coração do menino, para ser campeão com os Rayados. O momento chegou em 2015, quando El Turco já tinha se consagrado com Tijuana e América. Em três anos à frente do clube regiomontano, o técnico até faturou a Copa MX em 2017, mas não conseguiu levar a taça na Liga MX. Foram dois vice-campeonatos até deixar o clube em 2018.

Levado de volta ao Monterrey no último mês de outubro, Mohamed liderou uma guinada na equipe, que corria riscos de se ausentar dos mata-matas do Apertura 2019. Os Rayados desbancaram favoritos até medirem forças com o América na decisão. Após a vitória por 2 a 1 no jogo de ida, a fé acompanhava El Turco no Azteca. Apesar dos dois gols de vantagem ao América no primeiro tempo, o treinador mudou o time na etapa complementar e conseguiu forçar os pênaltis. Então, na marca da cal, o esperado título aconteceu. O Monterrey venceu os anfitriões por 4 a 2 e, enfim, a promessa a Faryd se cumpria 13 anos depois.

Enquanto os jogadores comemoravam em campo, Antonio Mohamed chorava copiosamente no banco de reservas. As memórias eram inerentes. O técnico segurava firme nas mãos um rosário, que carrega a cada partida como uma representação de Faryd – segundo suas próprias palavras, um sinal da certeza de que o filho o acompanha. “Minha mãe, meu pai e meu filho devem estar fazendo um banquete lá em cima, de felicidade com este título”, afirmou Mohamed, entre o sorriso e os olhos marejados. “O prometido é dívida. Vocês sabem o que sinto por este clube, por esta camiseta. Tudo para o céu!”. A imagem fala por si.