Zola: O pequeno gigante
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Mais do que o péssimo resultado obtido pelo Chelsea diante do Hull City na 25ª rodada do Campeonato Inglês (0 a 0 em Stamford Bridge), o maior destaque da partida foram os protestos de alguns torcedores contra o técnico Luiz Felipe Scolari. Uma faixa em especial chamou a atenção da imprensa por brandir os seguintes dizeres: “Out Scolari! Zola / Di Matteo Chelsea Legends in”, que em bom português seria algo como “fora Scolari, queremos Zola e Di Matteo, verdadeiras lendas do Chelsea”.
O pedido se referia a dois treinadores ainda iniciantes, mas que já fizeram muito pelo time de Londres quando atuaram com a camisa azul. Enquanto Di Matteo se notabilizou por ser um meio-campo eficiente de passe refinado e chutes fortes, Zola foi um verdadeiro ídolo para os torcedores do Chelsea. Suas arrancadas em velocidade, toque de bola rápido, cobranças de falta precisas e dribles desconcertantes cativaram os fãs dos Blues de tal forma que o atleta foi votado pelos torcedores como o maior jogador da história do clube.
Da quarta divisão para o fenomenal Napoli
Gianfranco Zola começou a sua carreira profissional em 1984, com 18 anos, no Nuorese, time sardenho da série C-2 italiana (quarta-divisão), onde atuou como mezzapunta (o meia mais avançado que por vezes atua como segundo atacante nas equipes do país). O bom desempenho do jovem italiano de apenas 1,66 m (10 gols em 31 partidas no período de duas temporadas) lhe rendeu uma transferência para o Sassari Torres, também da Sardenha, onde Zola faturou o campeonato da série C-2 na temporada 1986-87 e participou de dois torneios da série C-1.
As atuações contundentes, mesmo que por times de pouca expressão, lhe renderam uma transferência logo no verão de 1989 para o Napoli, que vivia seu auge no futebol e que tinha jogadores de respeito como Alemão, Maradona e Careca. Em sua temporada de estreia, Zola marcou dois gols em sete atuações na campanha que levou a equipe a mais um título nacional na temporada 1989-90. Apesar de não ser titular, Gianfranco era o reserva imediato de Maradona, de quem ele afirma “ter aprendido tudo o que sabe sobre futebol”.
Os dois, no entanto, atuaram pouco menos de duas temporadas juntos, uma vez que o argentino foi suspenso por uso de cocaína em março de 1991. Com a ausência do ídolo, Zola assumiu a titularidade da equipe, liderando o clube até a conquista da Copa da Itália daquele ano. Na mesma época, Gianfranco também conseguiu a sua primeira convocação para a seleção italiana.
Mesmo com a boa parceria formada por Zola e Careca, o Napoli não conseguiu repetir o sucesso de outros anos, amargando resultados decepcionantes após a saída de Maradona em 1992. A fase ruim fez com que diversos jogadores fossem negociados para saldar dívidas do clube, inclusive Gianfranco, que acabou sendo vendido para o Parma no início da temporada 1993-94.
No novo clube, Zola teve atuações destacadas que lhe renderam o status de um dos melhores jogadores de criação do continente europeu e que ajudaram o Parma a vencer a Supercopa da Uefa de 1993.
De fracasso na Copa a ídolo do Chelsea
Zola foi um dos convocados para defender a seleção italiana na Copa do Mundo dos EUA em 1994. Inicialmente reserva, o jogador teve sua chance de brilhar quando entrou aos 20 minutos do segundo tempo contra a Nigéria, nas oitavas-de-final. A atuação, no entanto, durou menos de dez minutos, com o italiano sendo expulso em um de seus primeiros, e únicos, lances na competição. O cartão vermelho lhe rendeu uma suspensão de dois jogos, mas o jogador do Parma não entrou novamente em campo durante o resto do torneio.
Apesar do desempenho ruim na Copa, Gianfranco voltou bem ao Parma, levando o time italiano a conquistar a Copa da Uefa da temporada 1994-95 e os vice-campeonatos da Copa da Itália e da Serie A do mesmo período. Mesmo com a conquista de resultados em campo, aos poucos Zola foi perdendo espaço na equipe para outros atacantes como Hristo Stoichkov, Hernan Crespo e Enrico Chiesa. Pesava contra Zola o bom desempenho de seus concorrentes, mas principalmente a má vontade de Carlo Ancelotti, treinador do clube à época, de adequar o seu rígido esquema tático ao estilo de jogo leve e criativo do pequenino mezzapunta. Com atuações apagadas, nas quais jogava fora de posição, Zola acabou sendo negociado com o Chelsea em novembro de 1996 pelo valor de 4,5 milhões de libras. Antes disso, em julho do mesmo ano, o atacante defendeu a Itália na péssima campanha da Azzuri na Eurocopa 1996, jogando os três jogos antes da eliminação precoce de sua equipe ainda na fase inicial. Seria a primeira e última competição internacional de Zola como titular da seleção.
Em sua chegada ao Chelsea, o italiano causou impacto instantâneo. Com apresentações repletas de lances de habilidade e gols memoráveis nos jogos mais importantes do clube londrino, Zola foi o destaque da equipe que conquistou a FA Cup daquela temporada, título que quebrou um jejum dos Blues de 26 anos sem troféus de grande expressão. O ótimo início de Gianfranco no futebol inglês fez com que o baixinho fosse nomeado o melhor jogador daquele ano, sendo o único atleta a faturar o prêmio sem jogar a temporada inteira e também o primeiro jogador do Chelsea a ganhar a honraria.
Na temporada 1997-98, Zola, apelidado pelos ingleses de Magic Box, por conta de seus lances geniais, e de Little Giant, por sua estatura diminuta, ajudou os Blues na conquista dos títulos da Copa da Liga Inglesa e da Supercopa Europeia, além de ser o grande herói da final da Recopa. Na ocasião, Franco saiu do banco de reservas aos 25 minutos da segunda etapa e, em apenas 20 segundos, definiu o jogo a favor do Chelsea, marcando o gol da vitória sobre o Stuttgart após lançamento de Dennis Wise. No mesmo ano, o baixinho decidiu se aposentar da seleção italiana depois de ficar de fora da lista dos convocados à Copa de 1998.
Dois anos depois, na temporada 1999-00, Zola foi um dos principais jogadores na arrancada do Chelsea até as quartas-de-final da Champions League, naquela que foi a primeira participação do clube no torneio. Mesmo com as boas atuações, a idade começou a pesar e aos poucos o italiano, então com 33 anos, foi perdendo espaço na equipe titular. Apesar disso, sempre que entrava em campo, Zola demonstrava a velha categoria que o consagrou no mundo do futebol e que tanto fascinou os torcedores do Chelsea. Nas duas temporadas seguintes, Gianfranco teve desempenhos bem mais modestos, servindo quase sempre como alternativa à dupla titular formada por Hasselbaink e Gudjonhsen.
Em 2002-03, o italiano teve um ano melhor do que os anteriores, anotando 16 gols na temporada, feito que ajudou o Chelsea a se classificar novamente para uma Champions League e que fez com que Zola fosse votado como o melhor jogador do ano pelos fãs. O cenário foi o ideal para a despedida de Franco, que deixou o clube ao final daquela temporada para se juntar ao Cagliari, o mais famoso time da Sardenha. Logo após a sua saída, Zola foi eleito pelos torcedores como o maior jogador da história dos Blues e a camisa 25, com a qual o jogador atuou durante as sete temporadas em que esteve no clube, nunca mais foi usada por nenhum outro atleta da equipe londrina.
Pouco tempo após o retorno de Franco à Itália, Roman Abramovich, que havia acabado de comprar a equipe de Stamford Bridge, tentou trazê-lo de volta ao clube, mas não obteve sucesso. Boatos veiculados à época chegaram até a dar conta de que o milionário russo tentou comprar o Cagliari inteiro para fazer com que Zola mudasse de ideia, informação que nunca foi confirmada por Gianfranco.
Em novembro de 2004, o italiano recebeu o título de Membro Honorário da Ordem do Império Britânico durante cerimônia realizada em Roma e, na temporada 2004-05, decidiu que era hora de pendurar as chuteiras, encerrando sua carreira uma semana antes de completar 39 anos.