Zarra: O maior dos artilheiros espanhóis

Quando pensamos em artilheiro espanhol, é impossível lembrarmos somente de um. Do lendário Pichichi a Fernando Torres e passando por gente do quilate de Luis Suárez, Salinas e Raúl, chegamos a jogadores cuja capacidade de fazer gols era tão natural quanto movimentar-se em campo.

Porém nenhum deles conseguiu marcar mais gols que um: Telmo Zarra. Maior artilheiro da história da liga espanhola (252 gols), da Copa do Rei (83 gols), do Athletic Bilbao (334 gols), recordista de gols em uma única edição da liga (38 gols na temporada, recorde apenas igualado por Hugo Sánchez) e jogador com mais Troféus Pichichi conquistados (6 taças ao todo), Zarra nasceu na cidade basca de Erandio. Desde cedo esteve ligado ao futebol devido ao fato de seu irmão mais velho, Tomás, ser goleiro. Depois dos jogos pelo Arenas de Getxo, Tomás levava o pequeno Telmo para jogar futebol na praia.

Influenciado pela família e sobretudo pelo irmão, iniciou sua carreira no modesto time de sua cidade natal, o Erandio, com 18 anos. Na época, o time estava na segunda divisão de uma Espanha recém saída de uma sangrenta guerra civil. A boa colocação do time no seu grupo chamou a atenção de olheiros do Athletic Bilbao que o viram em ação e imediatamente apresentaram uma proposta para ficar com o jovem artilheiro. Nada restou ao Erandio senão liberá-lo ao grande clube da capital basca.

“Melhor cabeça da Europa depois de Churchill”

No Athletic, Zarra justificou a fama de artilheiro desde seu primeiro jogo como titular: foi ele quem marcou os dois gols do time no empate contra o Valencia. E dois anos após sua estreia o Athletic levantava a taça de campeão da Liga, com uma linha de ataque que, além de Zarra, contava com Iriondo, Venancio, Panizo e Gainza. Para que se tenha uma ideia da qualidade do ataque bilbaíno, basta dizer que Zarra, Panizo e Gainza foram titulares da Seleção da Espanha durante a Copa do Mundo de 1950.

Com este formidável ataque lembrado até hoje por seus torcedores, o Athletic consolidou-se na década de 40 como um dos principais times da Espanha. Logo após o título da liga, o clube conquistou quatro copas, nos anos de 1943, 44, 45 e 50. E Zarra, de gol em gol, acabou artilheiro da liga espanhola por quatro vezes, sendo três seguidas (1945, 46, 47 e 50). De tantos gols que marcava, sobretudo de cabeça, recebeu o apelido de “Melhor cabeça da Europa depois de Churchill”.

Com a fama cada vez maior, Zarra foi convocado pelo técnico Guillermo Eizaguirre para disputar a Copa do Mundo de 1950. No primeiro jogo da Copa, disputado contra os Estados Unidos, Zarra marca um gol na vitória por 3 a 1. No jogo seguinte, contra o Chile, Zarra marcou novamente na vitória por 2 a 0.

Mas foi no último jogo do grupo, realizado no Maracanã e visto por mais de 70.000 pessoas, que Zarra atingiu o ponto máximo de sua carreira. O adversário era a poderosa Inglaterra, que devia se recuperar depois da histórica derrota para os Estados Unidos. O time inglês precisava ganhar para se classificar à fase final. Aos espanhóis, um empate bastava.

Aos 4 minutos do segundo tempo, Zarra recebe um passe de Gainza e chuta na saída do goleiro inglês, marcando o único gol do jogo. Foi o bastante para a comemoração enlouquecida do narrador Matías Prats, da Rádio Nacional da Espanha e de milhares de espanhóis. Era a primeira vez que a Espanha ganhava da Inglaterra num jogo oficial. Ao final do jogo, o ministro espanhol dos esportes enviou um telegrama ao ditador Franco que se tornaria célebre: “Vencemos a Pérfida Albion”.

Com a classificação, a Espanha disputou o quadrangular final da Copa contra o Brasil, o Uruguai e a Suécia e terminou sua participação em quarto lugar, naquela que é a melhor participação espanhola em Copas do Mundo até hoje. Zarra terminou a competição com quatro gols.

“Se cuidar muito, treinar muito e não pensar que é o melhor”

Logo após a Copa, Zarra continuou sua brilhante carreira no Athletic, tendo sido o artilheiro da liga em mais duas ocasiões (1951 e 53). Em 1954, o Athletic lhe fez uma proposta para seu último ano no clube, já que suas pernas cobravam o preço dos efeitos das (muitas) entradas violentas dos zagueiros adversários. A promessa era ganhar 850 mil pesetas além do contrato e um jogo de despedida em sua homenagem. No entanto, as duas promessas não foram cumpridas. Assim, Zarra se desligou do Athletic e foi jogar no modesto Indautxu do mesmo País Basco. Na outra temporada, encerrou sua carreira no Baracaldo, da mesma região espanhola.

De temperamento extremamente tímido e introvertido, Zarra nunca se preocupou em cobrar a promessa feita pelo Athletic. Somente em 1996 o presidente do Athletic corrigiu a injustiça histórica e pagou o que era devido ao grande atacante. E somente pagou pois ocorreu um encontro casual entre ele e Zarra em um restaurante, que fez com que a dívida fosse lembrada por parte do presidente.

Outra passagem marcante envolvendo Zarra aconteceu em 1997. Depois de ter sido recebido pelo Papa João Paulo II, Zarra encontrou-se com o Rei Juan Carlos. Durante a conversa que teve com o monarca, Zarra lembrou-se emocionado quando, num jogo em Portugal, pegou o então menino Juan Carlos nos braços e lhe prometeu um gol. Juan Carlos então lhe respondeu que se lembrava desse momento com muita nitidez e que sempre guardou com imenso carinho essa lembrança. Foi o suficiente para o ex-jogador ir às lágrimas.

Três dias depois de seu falecimento, o Athletic, no minuto de silêncio, fez soar no Estádio San Mamés o hino do clube tocado ao piano. Ao término do hino, todo o estádio aplaudiu e homenageou Zarra. Em todos os estádios espanhóis naquela rodada de fevereiro de 2006 guardou-se respeitosamente o minuto de silêncio. No mesmo ano, o jornal esportivo Marca criou o Troféu Zarra, que é dado aos maiores artilheiros espanhóis da primeira e da segunda divisão da liga.

Em uma das suas últimas entrevistas quando perguntado sobre que conselhos daria aos jovens esportistas, Zarra responde: “Se cuidar muito, treinar muito e não pensar que é o melhor”. Mais uma prova da tranquilidade que sempre cercou o maior artilheiro espanhol em todos os tempos.

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Equipe Trivela

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