Willy van der Kerkhof: promessa e decepção
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Alemanha, junho de 1974. Das 16 seleções que chegaram à Copa do Mundo, duas eram as favoritas. A dona da casa e a brasileira. O cálculo era simples: as equipes tinham os melhores jogadores e por isso a final as aguardava.
Em silêncio, Rinus Michels trabalhava para mudar o quadro desenhado e a lógica. Sabia que podia fazer história. E fez. A sua Holanda encantou o planeta. Apelidada de Laranja Mecânica, atacava e defendia em bloco sem que ninguém guardasse posição fixa.
Despachou quem enxergou pela frente. Eliminou, inclusive, o Brasil. Mas acabou perdendo o título justamente para a Alemanha. Uma injustiça, escreveram os jornais no dia seguinte.
Aquele time tornou-se tão mágico e poderoso, que se dava ao luxo de deixar no banco o meia Willy van der Kerkhof, de 23 anos, cérebro do PSV. Rápido, forte, insinuante e cheio de habilidade.
Jogou pouco no Mundial. Quase não apareceu no carrossel estrelado por Cruyff. Apesar de brilhante, não estava totalmente lapidado. Era apenas opção para uma eventual emergência.
Mas quatro anos depois, na Argentina, a história era diferente. Agora, ele atraía as atenções. Dribles curtos e secos e passes milimétricos. Arrancou elogios e até gol fez. E, incrivelmente, saiu, outra vez, com o vice. Contrariando a lógica, o raio caiu, sim, duas vezes no mesmo lugar.
Sai Cruyff, entra Kerkhof
O técnico não era o mesmo. Rinus Michels saiu e a Federação Holandesa anunciou Ernst Happel para dar continuidade ao “Futebol Total”. O principal jogador também não viajou à Argentina. O motivo não deixa de ser estranho. Johan Cruyff estava revoltado com o regime militar no país sede da Copa. Em protesto, decidiu não ir.
De qualquer forma, a Holanda perdeu a badalação, voltando a ser um time comum. Sorte de um certo camisa 11 que assumiu a responsabilidade de provar o inverso. Dessa vez, titular absoluto, Willy van der Kerkhof carregaria o piano. Tudo passaria por ele. Encarregado de distribuir o jogo a partir da meia-direita, aparecia, às vezes, como um atacante surpresa. O dono do time.
A tática de ataque e defesa em massa não se repetiu. No entanto, a seleção não perdeu o encanto. O futebol seguia bonito e envolvente. Continuou dando show, embora menos do que em 1974.
Na primeira fase, passou raspando. Marcou só 3 pontos e avançou em segundo num grupo de 4. Já na segunda fase, engrenou de vez. Deixou pra trás Áustria, Itália e a odiada Alemanha Ocidental. Chegou à final. Do outro lado, o adversário era o anfitrião. Como quatro anos antes.
Depois de 1×1 no tempo normal, veio a prorrogação. E o que não podia acontecer, tornou-se verdade. Van der Kerkhof parou de jogar. Bem marcado e cansado, não conseguir armar nada. E viu dois gols da Argentina campeã.
Saiu do Monumental de Nuñez e pisou no avião no pátio do Aeroporto de Ezeiza consagrado. Mas não voltou com o que prometeu: o trofeu.
Em família
Willy Van der Kerkhof entrou para a história das Copas por um motivo bem menos nobre. Mas curioso. Seu irmão gêmeo, René, também esteve em 1974 e 1978. Na segunda, os dois marcaram gols (Willy contra a Áustria e René em cima da Alemanha Ocidental). São até hoje os únicos irmãos a conseguirem o feito numa mesma edição de Mundial da Fifa.
A dupla começou junto no futebol. Ainda adolescentes, foram levados pelo pai ao Twente, no fim da década de 60. Subiram para o profissional em 1970. Em 1973, desembarcaram no PSV, onde Willy tornou-se mito.
O time não vencia o nacional havia nove temporadas. Willy chegou, ajeitou o meio campo e meses depois ganhou a Eredivisie. A primeira faixa de campeão da carreira. Isso tornou-se rotina até 1988, quando deixou Eindhoven No total, foram 11 títulos, incluindo Copa da Uefa e Liga dos Campeões, e mais de 400 jogos e 57 gols. Ídolo, não defendeu outro clube. Preferiu a aposentadoria.
René, ao contrário, não fez tanto sucesso. Saiu do PSV em 1983 e girou a Europa. Foi atrás de novos desafios para sair da sombra do irmão, apontado por Pelé como um dos 125 melhores futebolistas de todos os tempos.
Enfim, o grande título da seleção. Mas sem ele.
Embora tenha dito após a derrota para a Argentina, em 1978, que só abandonaria a seleção depois de uma grande conquista, não teve força suficiente para correr – e jogar – atrás do objetivo. Desapontado, largou a Laranja em 1986, aos 35 anos, pedindo desculpas.
Coincidência ou não, foi só ele sair para a Holanda mudar. Para melhor. Em 1988, liderada pelos jovens Van Basten, Rijkaard e Gullit, levantou a Eurocopa. Willy assistiu pela TV.
E viu do banco o PSV ganhar a Liga dos Campeões no mesmo ano. Na verdade, só estendeu sua permanência no clube devido aos constantes pedidos da diretoria e comissão técnica. As repetidas lesões e a má forma física praticamente o tiravam de combate.
Futebol hoje? Só da arquibancada
Willy surpreendeu ao não retornar ao futebol, como fizeram os grandes mitos da seleção holandesa. Continua sendo visto nos camarotes do Philips Stadion, casa do PSV. Mas limita-se a ser torcedor. Recusou convites para ser dirigente ou até mesmo treinador. Decidiu-se pelo terno e gravata e foi atrás de dinheiro no meio comercial. Hoje, é um respeitado empresário do setor de vitivinicultura.