Uma vida indomável
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Ele não completaria uma idade redonda, assim como outros companheiros no mundo dos craques – Pelé faz 70 anos, enquanto Maradona faz 50. No entanto, seus 77 anos serão lembrados, como uma espécie de sombra. Afinal de contas, Garrincha e sua história lendária e trágica deixaram o Brasil com uma espécie de dívida, como se salvá-lo da morte que veio em 20 de janeiro de 1983 tivesse sido uma tarefa não cumprida por ninguém.
Mas, de certa forma, Garrincha teve uma vida indomável. Como se fosse seu destino, desde que nasceu, em 28 de outubro de 1933, em Pau Grande, distrito de Magé, no Rio de Janeiro. O pai era alcoólatra, e ele teve uma infância humilde, junto de 15 irmãos. Supostamente, teria as pernas tortas desde sempre (muito embora haja depoimentos dando conta de que tal deformidade seria consequência de uma poliomielite).
Então, Garrincha começou a jogar. Aos 14 anos, teve sua primeira experiência, no Esporte Clube Pau Grande. Foi visto por Arati, um ex-jogador do Botafogo, e passou rapidamente pelo Serrano, de Petrópolis, antes de, enfim, chegar ao Botafogo. Então, surge mais uma lenda sobre sua vida: o lendário primeiro treino, onde teria dado vários dribles em Nilton Santos. A lenda é tamanha que várias pessoas dizem ter presenciado o treino.
O resto de sua passagem pelo Botafogo virou história. Até hoje, os feitos dela são repetidos: a conquista dos Campeonatos Cariocas de 1957, 1962 e 1963, a histórica atuação no jogo decisivo em 1957, quando foi fundamental para levar a equipe ao 6 a 2 contra o Fluminense; o time lendário, com companheiros como Manga, Nilton Santos, Didi, Zagallo e Amarildo; as incontáveis dores de cabeça dadas aos técnicos; outra histórica atuação, no 3 a 0 sobre o Flamengo que definiu o título de 1962; as várias excursões, os problemas nos joelhos começando a se avolumar…
Virando lenda no clube, Garrincha virou lenda também na Seleção Brasileira, onde começou a jogar em 1955. Na Copa de 1958, o brilhantismo completo no jogo contra a União Soviética, pela primeira fase, quando deixou os defensores do oponente completamente rendidos, culminando nas atuações não menos exuberantes contra França e Suécia.
E, enfim, chegando ao apogeu. No Mundial do Chile, em 1962, Garrincha exibiu todo o estoque de habilidade que tinha. Com a mesma base que conquistara o título quatro anos antes, o ponta-direita foi o grande protagonista: comandando a equipe nas vitórias contra Inglaterra, nas quartas de final, e Chile, nas semifinais. E, claro, acumulando mais histórias, como a expulsão contra os chilenos, que não teve suspensão, permitindo-lhe jogar a decisão contra a Tchecoslováquia.
Porém, ao mesmo tempo, Garrincha ia começando a ver a vida pessoal sendo prejudicada. Primeiro, a vida conjugal, quando Nair, a esposa desde 1952, foi deixada pelo grande amor Elza Soares, causando grande comoção. E, depois, o alcoolismo. E, também, os problemas físicos que começavam a vitimá-lo.
Com isso, Garrincha começou a decair. Quando foi cedido ao Corinthians, em 1966, já não estava em seus melhores dias – bem como na Copa de 1966. Em 1967, transfere-se para o Vasco da Gama, onde não jogou, tentando recuperar a forma. No ano seguinte, passa rapidamente pelo Atlético Junior, de Barranquilla, na Colômbia, e pela Portuguesa, de Araruama. E, então, chega ao Flamengo, onde ficou até 1969.
As andanças estenderam-se pela Europa: na Itália, no começo dos anos 1970, para onde se mudara com Elza Soares, Garrincha jogou com times amadores de universidades, sindicatos e fábricas, ganhando algum dinheiro (na cidade de Torvaianica, chegou a jogar com um time de açougueiros). De volta ao Brasil, em 1972, assina com o Olaria. Mas só joga até 1973, quando se aposenta.
A partir daí, Garrincha passa a caminhar indomavelmente rumo ao fim. Em 1977, separa-se de Elza Soares (uniria-se depois a Vanderléia Vieira). É internado sucessivas vezes, pelas crises de abstinência e pela cirrose hepática que já o vitimava. Até que chegou o fim. Um fim esperado, mas lamentado por todos aqueles que não souberam segurar Garrincha. Até porque, talvez, ele não pudesse ser segurado. Nem no campo, nem na vida.