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Um português no Magrebe

Figura carimbada nos campos da cidade de Aveiro, litoral de Portugal, o treinador luso Manuel Madureira (foto ao lado) aceitou o desafio de se lançar em uma aventura ‘além-mar’ para trabalhar no CA Bordj Bou Arreridj (CABBA), da Argélia. A equipe aurinegra faz péssima campanha na Liga Argelina estando na antepenúltima posição na tabela. Neste contato com a Trivela, o técnico português dissertou sobre a realidade da equipe e do futebol argelino. Confira no texto abaixo e perceba o discurso rebuscado e de alto nível deste profissional que passou quase toda a carreira em pequenos clubes provincianos de Portugal.

Como aconteceu sua ida para o futebol da Argélia? Os diretores do CABBA entraram em contato com você?
Foi através de um empresário nigeriano que reside em Argel, capital da Argélia, há cerca de oito anos. Ele entrou em contato comigo e tendo ele já antes um contato com o CABBA, foi só desenvolver a ação junto de mim. Após o contato telefônico, enviou o convite e a pré-proposta e dai a assinar o contrato foram 6 dias.

Interessante observar que o ataque do CABBA é o pior da Liga Argelina, enquanto a defesa está entre as melhores. Como você montou uma defesa tão boa e como explicar a pífia performance dos avançados?
Existem várias nuances que dariam certamente vários capítulos. Quando cheguei ao clube, o plantel de 30 jogadores já estava definido pelo irmão do presidente e também pelo comitê do clube. Não foi possível alterar nada nem escolher outras opções. Como se costuma dizer, “se não tens cão para ires à caça, caças com o gato ou com o que tiveres mais à mão”. Ora os atacantes desta equipa, apesar de serem jovens promessas do futebol argelino, são também muito inexperientes e demasiado perdulários. Falta-lhes acima de tudo o “ABC” do futebol, que se relaciona num canal direto da qualidade da formação enquanto no futebol juvenil. São anos que se perdem enquanto crescem e deste modo quando chegam ao patamar sênior, vêm cheios de vícios e irregularidades técnicas difíceis de suprimir. Por outro lado, o clube não dispõe de margem financeira suficiente para adquirir um ou dois bons avançados finalizadores no mercado europeu ou brasileiro. Essa qualidade custa dinheiro e torna-se difícil aceder a esse patamar qualitativo. Existem também outros pormenores generalistas..

O atraso dos salários é o maior motivo do baixo desempenho dos futebolistas do CABBA?
Naturalmente que estando muito dinheiro em jogo, fora do bolso do grupo de trabalho, afeta de tudo e todos. Sim, poderei afirmar que esta brecha financeira, afetou bastante o normal curso dos jogadores, até porque isso estatizou um pouco a anarquia em detrimento da disciplina. O profissionalismo fica aquém do sentido da mesma palavra e organização, é uma coisa que não existe, ou melhor, quando existe, aparece em “Slow-Motion”.

Qual a explicação dos dirigentes do CABBA em relação ao atraso salarial?
Os dirigentes do CABBA desculpam-se com os resultados pela falta de dinheiro e também com outros organismos públicos e particulares no que diz respeito a sponsores e patrocinadores, quanto a angariação de fundos.

Eles são mentirosos?
Não querendo ser acusador de forma alguma, quando me pergunta se eles são mentirosos. Dir-lhe-ei apenas, que a verdade aparece sempre distorcida no interior dos vários canais de comunicação interna.

O CABBA é um clube de quase 77 anos. A estrutura é boa ou sofrível? Quem são os patrocinadores?
Quanto a patrocinadores, temos CONDOR e ULHSPORT. De momento, desconheço outros. A estrutura é boa, por enquanto, está equipada com material de apoio e treino muito importante para a boa e sã estabilização do trabalho.

A crise financeira é abrangente no futebol argelino? ES Setif, Kabylie, MC e USM Alger também atrasam salários ou é um problema somente nas equipes menores?
Esta crise está genericamente espalhada e entranhada na equipa. Precisamos retificar e tomar as decisões mais corretas para reestruturar. Quanto ao que se passa com as outras equipas, o que ouço circular nos bastidores do futebol argelino, é que de certa forma é semelhante, mas como não estou dentro das estruturas adversárias, não tenho opinião formada e seria deselegante formalizar opinião em sede vizinha. Como tal, não quero comentar esse pormenor.

Está impressionado pelo futebol jogado pelo líder JS Kabylie? É uma boa equipe?
Até ao momento ainda não vi jogar a equipa, mas pelo que leio na imprensa desportiva argelina, parece de fato ser de qualidade e a atestar a minha opinião, está a tabela classificativa. Ainda não tivemos acesso aos vídeos de informação, mas espero tê-los para desta forma podermos ter uma melhor idéia desta equipa e assim preparar o jogo com maior qualidade.

Como você define o futebol praticado na Argélia no ponto de vista técnico e tático?
Do ponto de vista técnico, observo jogadores de qualidade acrescida, que jogam sobretudo para a Tribuna, ou seja, para o fator espetáculo. Estão habituados às palmas após malabarismos com bola ou dribles constantes, mesmo que isso não traduza nada em matéria de eficácia de jogo. Quanto a matéria técnica/tática, a abordagem ao jogo torna-se eqüidistante entre o que se trabalha (dia de treino) e o que de fato se pratica no terreno de jogo (dia da competição). A indisciplina técnica/tática é o fator de maior desequilíbrio na competição. Ora isto está intrinsecamente ligado ao que te respondi na segunda pergunta que me fizestes.

Quais os jogadores que mais te impressionaram na Liga Argelina até aqui?
Até agora, o organizador de jogo da equipa do CRB (CR Belouizdad), Mesouar, pelo que joga e faz jogar, tendo em conta os seus 35 anos de idade.

Os torcedores tem comparecido bastante aos estádios nos jogos da Liga?
Sim, de fato, é impressionante a média de espectadores nos estádios de futebol na Argélia. Sempre cheios, mesmo em matéria de treinos, os estádios apresentam sempre elevada estrutura de adeptos.

Como você se vira para se comunicar com os jogadores?
Na equipa, tenho um jogador português, (Jaime Linares), outro Brasileiro, (Miller), outro Ganês (Lamptey) e os restantes argelinos, que falam francês e árabe. Vejo-me na obrigação de falar em português para o Jaime e o Miller, em inglês para o Lamptey, e em francês para os restantes. Também já compreendo bastante bem o árabe e já articulo algumas coisas de fácil compreensão.

O ES Setif é o atual campeão da Liga dos Campeões Árabes e atualmente eles estão na briga pelo titulo novamente, assim como o USM Alger. Na Argélia existe um grande envolvimento do povo e da imprensa nesta competição ou há indiferença?
No dérbi entre nós e o Sétif, fomos empatar a zero ao terreno deles. Sim, existe grande ligação da imprensa e do tecido humano em geral na Argélia. São equipas bem suportadas pelos adeptos e de todas as equipas nas competições internacionais.

O futebol argelino teve seu apogeu nos anos 80 quando a seleção jogou as Copas de 82 e 86 e os clubes do país ganharam muitos títulos continentais. De lá pra cá, ao invés de progredir, o futebol argelino regrediu e desde então se encontra em uma crise existencial. Pela sua vivência no país, quais são os principais problemas que o futebol da Argélia atravessa e como resolvê-los?
Simplesmente a mudança constante de treinador. Muda-se de treinador como se muda de camisa. Um treinador perde um ou dois jogos e mesmo que tenha ganho um ou dois jogos anteriormente, é despedido. Não existe estabilidade para se efetuar um trabalho de reestruturação. O treinador não tem tempo de projetar um trabalho. Como tal, projetos ficam constantemente na gaveta. Existem equipas neste campeonato que em 14 jogos, já mudaram 4/5 vezes de treinador. Assim não existe consistência no trabalho e este torna-se inexistente. Vive-se do dia-a-dia e da improvisação. Daí ter dito que profissionalismo é palavra vã e organização uma utopia.

Como vê a seleção argelina?
A seleção tem bons jogadores. Todos, ou quase todos os jogadores desta seleção, jogam na Europa, nomeadamente em França. Exceção feita ao Guarda-Redes (Goleiro), que joga no Khroub. Tem uma identidade atitudinal européia. Esta seleção, tem agora um novo selecionador argelino de naturalidade.

Como é a vida na cidade agrícola de Bordj Bou Arreridj?
A vida nesta cidade é muito fechada e tem uma característica muito própria, diferente das outras cidades que já conheço. Vive-se do comércio em geral e das pequenas empresas no ramo das oficinas. É uma cidade suja em termos de higiene publica. Não existem espaços verdes disponíveis, porque o pouco que existe, está abandonado. As pessoas são pouco comunicativas e desconfiadas em demasia. Grosso modo, existem algumas pessoas diferentes que por isso mesmo se destacam pela positiva em matéria de sociabilidade.

Você teria disposição de trabalhar no Brasil?
Sou profissional de Futebol. Estou disponível para trabalhar em qualquer parte do mundo, até porque tenho uma capacidade de adaptação acima da média. Brasil sim, porque se fala português e assim a comunicação é de maior acessibilidade. Brasil sim, até porque tenho na cidade de Volta Redonda (Rio de Janeiro), muita família que já vive no Brasil há mais de 40 anos. Em resumo, se forem criadas boas condições de trabalho, financeiras e logísticas, não tenho quaisquer problemas em assumir um projeto no Brasil.

FICHA

Nome: Manuel Adelino de Jesus Madureira

Data de Nascimento: 23/12/1963.

Clubes:
1992: AD Barroca
1993: GD Gafanha
1994: GD Gafanha
1995: GD Gafanha
1996: Estrela Azul
1997: Estrela Azul
1998: Estrela Azul e Fidec
1999: UD Bustos
2000: Oiã
2001: Oiã
2002: Sidlesham-ING
2003: Sidlesham-ING
2004: N.E.G.E
2005: Fidec e Carregal do Sal
2006: Pinheiro de Lafões
2007: CABBA-AGL
2008: CABBA-AGL

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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