Tudo o que você lerá na Trivela sobre o incidente com Ronaldo

O assunto não merece espaço, mas a repercussão merece reflexão. Assim, para o incidente de Ronaldo não passar em branco, eis aqui um comentário.

A estória não está muito bem contada, como é praxe neste tipo de situação. O que se sabe é que Ronaldo, um dos maiores jogadores brasileiros recentes, acabou envolvido num sururu que tem ingredientes ótimos para os tablóides: prostitutas, motéis, orgias, travestis, extorsão, drogas e fofoca.

Talvez seja isso e eu é que não esteja entendendo bem. Talvez na verdade, a idéia seja mesmo fazer jornalismo marrom e explorar a vida pessoal de um jogador porque ele é famoso e porque dá audiência. “Ele é famoso e as pessoas querem saber”, argumentariam os colegas que não vêem problemas em abordar o episódio noturno de Ronaldo como se fosse uma Copa do Mundo.

Mesmo sabendo que talvez seja isso, radicalizo e me recuso a entrar neste trem. Mesmo que fosse o caso de Ronaldo ter tomado parte numa orgia com os travestis mais horrorosos do Hemisfério Sul, ainda assim eu acharia nojento explorar o assunto. Se ele cometesse um crime, talvez a questão fosse realmente de interesse público. Sexo com travestis (especialmente os muito feios), pelo menos até onde eu saiba, pode ser bizarro, mas deixou de ser proibido por lei na maioria dos países civilizados no começo do século passado.

A quantidade de jornalistas oportunistas que usaram o escorregão do atacante para ganhar espaço com seus públicos foi imensa – mas nada surpreendente. Muitos colegas renomados, rostos freqüentes na TV, que ganham prêmios dados por outros amigos jornalistas, têm prática em tal oportunismo. O curioso é que mesmo com esta postura preconceituosa e homofóbica, vendem, com sucesso, uma imagem “liberal”.

Sim, nós estamos falando de homofobia aqui. Homofobia e um moralismo asqueroso, similar ao que condenou Oscar Wilde por sodomia no fim do século XIX na Inglaterra. Se Ronaldo tivesse sido pego transando com meia dúzia de mulheres lindas, a tônica dos comentários seria: “Olha o cara, hein? Que sortudo!”. Só que foi num motel de quinta com travestis e aí, o bicho pega.

Na verdade, observações similares são comuns na mídia brasileira. Por exemplo: sempre que dois jogadores façam um gesto que possa ser interpretado como homossexual num jogo de futebol, narradores e comentaristas ficam fazendo piadas. Outro dia, num jogo do Campeonato Italiano, o beijo entre dois jogadores do Catania ficou sendo reprisado várias vezes, com as imagináveis gozações por parte dos apresentadores.

Concordo que Ronaldo foi bem pouco inteligente em entrar numa enrascada dessas, como disse o comentarista da ESPN Brasil, Flávio Gomes: “Vai ser burro assim lá longe!”. O engraçado é que Flávio, mesmo tendo feito uma observação contundente, se encaixou no 1% que teceu comentários isentos de preconceito. A maioria esmagadora desfilou sua homofobia como se fosse um troféu.

Em síntese: Talvez o seu empregador – o Milan – e pessoas com quem ele tenha um envolvimento afetivo possam ter interesse. A vida pessoal de Ronaldo não me interessa e ele tem o direito de fazer o que bem quiser, desde que não cometa nenhum crime. As pessoas que se interessam deveriam – teoricamente – procurar mais informações na mídia especializada em fofocas e não na mídia esportiva. Para meu azar (e creio que de bastante gente), infelizmente isso não é verdade. Sempre vai ter um imbecil disposto a fazer uma piadinha homofóbica e abordar o assunto a título de curiosidade. É como diz o ditado italiano: a mãe dos imbecis está sempre grávida.

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Equipe Trivela

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