Togo: Misto de esperança e escândalo

Como de costume entre as seleções africanas, Togo chegou à Copa do Mundo de 2006 para tornar-se, juntamente com Costa do Marfim, a sensação do torneio. A ideia era repetir a façanha de Senegal em 2002, seleção a qual havia perdido a chance de disputar sua segunda Copa justamente para os togoleses, no Grupo 1 das eliminatórias africanas. Vaga esta que veio apenas no último jogo, após a vitória fora de casa por 3 a 2 sobre o Congo. A imprensa do mundo inteiro creditava a estreia em Copas do Mundo ao técnico nigeriano Stephen Keshi. Sem contar a euforia nacional, porque a seleção togolesa jamais havia participado de uma competição intercontinental em mais de 40 anos de história.

Daí então surgiram as primeiras contestações quanto à classificação de Togo para o Mundial. A começar pela onda de violência que atingiu a capital de Mali, Bamako, após a vitória por 2 a 1 sobre os donos da casa (o segundo gol de Togo ocorreu nos acréscimos do segundo tempo) em março de 2005. Passados três meses do incidente, os togoleses venceram a equipe da Zâmbia por 4 a 1, mas a partida ficou marcada por decisões polêmicas do árbitro a favor dos vencedores. Porém nada aconteceu e os jogadores de Keshi puderam sonhar com a Alemanha.

Keshi, no entanto, seria demitido depois de uma fraca campanha na Copa Africana de Nações. Para assumir a equipe no campeonato mais importante do planeta entre seleções, foi contratado o alemão Otto Pfister, em fevereiro de 2006. Antes do início da competição, jogadores e comissão técnica haviam acertado a premiação pela vaga na Copa, mas ao chegar na Alemanha a delegação acusava a FTF (Federação Togolesa de Futebol) de ter retido o dinheiro e, de quebra, só receberiam o valor caso classificassem seu país para as oitavas-de-final. Com isso, as esperanças de êxito no campeonato começavam a ruir.

Ameaça de boicote

A pendência entre FTF e jogadores permanecia, o que resultou no cancelamento de treinamentos dias antes da estreia na Copa do Mundo, porque os atletas negavam-se a jogar. Para piorar a situação, os 23 convocados ameaçavam boicotar a participação de Togo na competição, fato que seria inédito na história. Entretanto a única pessoa que pediu dispensa da equipe foi o próprio treinador, Otto Pfister, a três dias da partida contra a Coreia do Sul. A pedido dos companheiros, Pfister voltou atrás de sua decisão e Togo entrou em campo no dia 13 de junho, quando perdeu, de virada, por 2 a 1 contra os asiáticos.

No segundo jogo, outra derrota. Dessa vez por 2 a 0 frente à Suiça. Como não havia mais chances de classificação para a segunda fase da Copa, os jogadores pressionaram novamente a federação para o pagamento dos 150 mil euros prometidos por ela. O assunto obrigou a Fifa a envolver-se no imbróglio, pois a FTF afirmava que o valor pago ao país pela participação na Copa era insignificante. Como resposta, a entidade comprovou que a premiação era igual a todos os participantes e fez questão de interferir a favor dos jogadores, além de reivindicar um pedido de desculpas da FTF, sob pena de exclusão das principais competições. O órgão togolês, chefiado pelo polêmico e controverso Rock Gnassingbé (filho do ex-presidente do país, Gnassingbé Eyadéma, responsável por um golpe de Estado para chegar ao poder), acatou de imediato as decisões. No entanto, a fraca campanha dos togoleses ficou manchada e encerrou-se com mais uma derrota por 2 a 0 contra os franceses. Togo ficou na antepenúltima colocação, com nenhum ponto somado, seis gols sofridos e apenas um a favor.

Em busca da dignidade

Após o fracasso tanto em campo quanto fora dele na Copa, o secretário-geral da FTF, Espoir Komlan Assogbavi, o primeiro vice-presidente, Winny Dogbatsé, e outros dois membros da entidade decidiram renunciar a seus cargos. Os dirigentes justificavam suas saídas pela “honra e salvação do futebol togolês” e acrescentavam que “a desordem vivida na Alemanha estava ligada à improvisação, à má preparação e à falta de profissionalismo no organismo“.

Em 2007, Tata Avlessi venceu as eleições presidenciais da entidade, mas teve de encurtar seu mandato, pois durante dois anos não conseguiu apaziguar as divergências dentro do Gabinete Executivo da Federação. No início de 2009, Gnassingbé retornou ao posto com um discurso de restabelecimento da confiança entre os membros da FTF, a CAF (Confederação Africana de Futebol) e a própria Fifa.

A seleção de Togo atualmente ocupa a posição de número 65 no ranking da Fifa, atrás de países como Bolívia e Venezuela, mas à frente do rival Senegal. Para recuperar o posto de número 46 (agosto de 2006), o melhor até hoje, o futebol do país deverá mudar, e muito. A começar pela própria federação, que já perdeu a confiança dos jogadores e, principalmente, da torcida. Além de que necessitará também de um Adebayor muito mais inspirado.

Um Adebayor só faz verão?

Emmanuel Adebayor é mais um daqueles jogadores garimpados nos subdesenvolvidos países africanos colonizados por potências europeias. Por ser uma ex-colônia francesa, Togo “criou” Adebayor até os 15 anos, quando, em 1999, saía da capital Lomé para a equipe do Metz, da França. Daí para destacar-se, quatro anos depois, no Mônaco e chamar a atenção do poderoso Arsenal, da Inglaterra. Na Copa de 2006, pouco pôde fazer para evitar o fracasso da seleção nacional.

Agora com 25 anos, Adebayor é ídolo do clube inglês e o craque de seu país, o que lhe rendeu o prêmio de melhor jogador da CAF em 2008, desbancando o camaronês Samuel Eto`o. O atacante já possui 36 gols com a camisa de Togo, 18 a menos que o maior goleador da história, Mohamed Kader. Mas Kader está prestes a se retirar do futebol e deixar o caminho livre para o “gunner” brilhar à frente de seu país.

Na largada para a Copa do Mundo de 2010, Adebayor marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre o sempre forte Camarões. Resta saber se somente um bom jogador pode servir de consolo para uma equipe que ainda rasteja entre as grandes da África.

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Equipe Trivela

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