Tinga: “Vim brigar por títulos”
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Tinga deixou o Brasil em agosto do ano passado campeão sul-americano pelo Internacional. Abriu mão de disputar o Mundial de Clube no Japão – onde fatalmente seria campeão – para realizar, aos 28 anos, o sonho de se estabilizar no futebol europeu. Já tinha defendido o Sporting alguns anos antes, mas o próprio guarda poucas boas lembranças de sua passagem por Lisboa.
Trocou o Inter pelo Borussia Dortmund, um dos mais tradicionais clubes da Alemanha. A expectativa? “Brigar por títulos. Sempre foi assim em minha carreira, desde os tempos de Grêmio”, comenta o meia, nesta entrevista exclusiva concedida à Trivela, direto de Dortmund.
O meia se diz decepcionado com a situação do time no campeonato. Até a 26ª rodada, o time estava na 15ª colocação (de 18 possíveis), apenas dois pontos acima do antepenúltimo colocado, o Bochum.
Nove meses após chegar na Alemanha, Tinga se diz adaptado e até mesmo familiarizado com a língua alemã. “Se falam devagar, dá para entender”, diz. Não o suficiente, porém, para saber o que acontece nos bastidores do Westfalenstadion e porque o clube trocou duas vezes de treinador. “Só sei que isso atrapalha”.
Confira abaixo a entrevista com Tinga
Você já está há quase 9 meses na Alemanha. Como está a adaptação?
Ah, tô adaptado. Sobretudo pelos comentários que tenho ouvido. Além disso, tenho a experiência de já ter jogado duas vezes fora do Brasil – a primeira, no Japão, quando tinha 19 anos; e entre 2003 e 2004 joguei em Portugal. Essa experiência ajudou, pois essa adaptar-se à Europa é bastante complicado. A grande diferença, para mim, foi chegar a um país e logo já jogar, pois desde que cheguei joguei quase sempre.
Para você que jogou no Japão, como está a questão da língua?
Está muito mais tranqüilo, porque aqui tenho a oportunidade de estudar. No Japão, andava com intérprete para cima e para baixo e não fiz questão de aprender muita coisa, só o básico mesmo, para se entender no vestiário. Aqui, como me viro mais sozinho e o pessoal paga para a gente estudar, fica tudo mais fácil.
Então dá para se virar em alemão?
Já dá, sim.
Se falam em alemão, você entende?
Ah, entendo. Se falam devagar, fica fácil. Se não, peço para falarem mais devagar.
E com relação à adaptação à cidade, já que Dortmund não é famosa por ser uma cidade muito bonita e com grandes pontos turísticos?
É verdade, não dá para comparar com Colônia e outras cidades, como Dusseldorf. Mas vou falar: para mim, Dortmund é ótima. Gosto de ficar mais em casa, mais tranqüilo.
Você tem mantido contato com os outros brasileiros que jogam na Alemanha?
Tenho falado mais com o Gilberto por telefone. Tenho visto mais o Lincoln, que mora perto por jogar no Schalke.
Mas a torcida enche as paciências de vocês por dois jogadores dos clubes de maior rivalidade no país saírem juntos?
(risos) Não, não. Eles nem vêem muito. A gente acaba indo na casa um do outro, uma coisa mais família mesmo.
Nessas vezes em que vocês se encontraram houve algum comentário pelo fato de estarem juntos?
O pessoal aqui é bem mais educado. Não é como no Brasil, em que querem ficar sabendo o que você faz fora de campo. O pessoal aqui cobra, mas só no dia de jogo.
No exterior, os alemães costumam ter a imagem de serem mais fechados. Isso tem sido um problema para você?
Para mim, no momento em que estou da minha carreira, estar num país onde as pessoas são mais reservadas é uma vantagem. Aqui, cada um cuida da sua vida. Não tem sido nada ruim ficar na minha. Muito pelo contrário: não tem sido nada difícil.
E o futebol alemão, é mais duro de se jogar?
Aqui o futebol é bem forte e com bastante jogo aéreo, principalmente pela estatura do pessoal aqui. Por outro lado, ter começado no futebol de Porto Alegre, que é considerado um dos mais duros do Brasil, me facilitou muito na hora de jogar aqui. Tanto que consegui uma coisa que é bem difícil aqui na Alemanha: chegar e, logo de cara, ser titular. Joguei a final da Libertadores no meio da semana e, no fim de semana estava em campo aqui pelo Dortmund. Joguei a primeira partida, contra o Stuttgart, onde não ganhávamos fazia tempo. Logo no jogo seguinte marquei meu primeiro pelo clube.
Na Alemanha você joga da mesma maneira que no Inter ou há alguma diferença no posicionamento?
No Inter eu jogava mais livre, mais avançado. Aqui, já joguei em praticamente todas as posições pelo meio-de-campo, mas minhas funções são mais defensivas, de marcação. Lembra um pouco como eu jogava quando comecei no Grêmio.
Jogar assim te incomoda?
Não, nem um pouco.
Se pudesse escolher, qual seria sua posição ideal?
Gosto de jogar nessa posição. Mais importante é que o time se encaixe, como aconteceu quando eu estava no Internacional, onde tive uma fase muito boa. Lá, fui contratado para jogar como volante e joguei assim, mas à medida que o time foi sendo montado eu acabei mais avançado. Não dá para dizer que não gostei e que assim vivi uma das melhores fases da minha carreira. Aqui, tenho de me adaptar ao estilo deles e jogo onde eles querem. Além do que, no futebol alemão não há um jogador que faça o que eu fazia no Inter, que jogue livre. Aqui, jogam forte, jogam com mais pegada, e exigem mais na marcação. De qualquer maneira estou gostando. É claro que gostamos de estar no próprio país, mas estou onde todo mundo quer estar. O brasileiro, hoje, já começa a jogar futebol pensando em vir para a Europa. Tive essa oportunidade, aos 28 anos, depois de ter saído duas outras vezes, e quero aproveitá-la.
Quando você chegou ao Dortmund, sua expectativa era que o time brigasse pelo título ou para não cair, como estão agora?
Não, cara. Essa é a única coisa que às vezes me incomoda. Em toda minha carreira estive em clubes que viveram boas fase. Foi assim no Grêmio quando comecei, no Japão fui campeão japonês, e no Internacional passei na fase em que o time conquistou os títulos mais importantes. Sempre, em minha carreira, briguei por troféus. Quando me chamaram para vir para o Dortmund, abri mão de disputar um Mundial. É claro que, financeiramente, não dá para comparar, mas o que sempre queremos é estar em evidência e brigar por títulos. Ainda mais por se tratar de um clube grande, como é o Dortmund. Achei que ia chegar para brigar por títulos, mas já vi que na primeira temporada isso será impossível. Como o contrato é longo, porém, espero chegar a conquistar títulos. É um clube que tem uma estrutura muito grande, tem a maior média de público do mundo. O tipo de lugar onde todo mundo gostaria de estar.
Qual é a sensação de entrar em campo todo fim de semana em que há jogos em casa com o estádio lotado, com mais de 70 mil torcedores?
É claro que todo jogador sempre gosta de falar lado financeiro, algo que não dá para esconder, mas, para mim, pelo lado profissional, isso é o que mais tem me motivado. Você pode estar há três partidas sem somar pontos, mas todo jogo em casa temos 70, 72, 73 mil torcedores. Nunca menos. Isso é o que motiva. É a garantia de que você está num time grande. Fico só imaginando quando estivermos na ponta da tabela, disputando título. Acho que vão ter de dividir o estádio, para entrar 70 mil nos primeiros 45 minutos e outros 70 mil para o segundo tempo.
Nesta temporada o Dortmund vive uma situação pouco comum em grandes equipes na Alemanha, que é a de trocar de treinador no meio da temporada. No caso de vocês, foram duas trocas. Saiu o Bert van Marwijk e entrou o Jürgen Röber. Algumas semanas atrás, ele saiu e chegou o Thomas Doll (foto). Esse tipo de turbulência nos bastidores tem afetado o time em campo?
Oh, rapaz… Como ainda não sei ler em alemão, não tenho como saber direito o que acontece nesse sentido. Não leio jornal e nem nada. Até evito dar entrevista por não saber me expressar direito, porque muitas vezes acontece de entenderem ou traduzirem errado. Por isso não tenho dado entrevista. Prefiro evitar polêmica e esperar que as pessoas me julguem pelo que faço em campo – e não pelo que falo. Esse tipo de coisa, de troca de treinador no meio da temporada, sempre prejudica.