That’s the way (we like it)
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O shootout é uma jogada interessante. O atacante pega a bola no meio-campo, avança sozinho e tem uma única chance de fazer o gol. É o que o hóquei no gelo usa no lugar dos pênaltis. Nada impede de ser aproveitada no futebol. E foi. Os norte-americanos usaram esse método para desempatar partidas na finada North American Soccer League e quando criaram a Major League Soccer. Se soubessem os rumos que o esporte tomou em seu país, nunca teriam pensado nisso.
Afinal, o shootout era um meio de “americanizar” o futebol. Incorporar elementos familiares ao amante de esportes para facilitar a popularização. Como foi a adoção de cronômetro regressivo. Uma década e meia depois de sua criação, a MLS está consolidada. E isso ocorreu quando tomou outro rumo. No universo esportivo dos Estados Unidos, o futebol virou um elemento estranho. Deixa de lado a cultura local para se voltar ao mundo, valorizando jeito de torcer, fórmula de campeonatos e regulamentos das partidas mais próximos aos usados na América Latina e na Europa.
Um passo ousado nesse sentido, mas que pode ser marcante, foi dado em Kansas City. A OnGoal, empresa dona do time de futebol local, anunciou que este mudará de nome: sai o Kansas City Wizards (ou KC Wiz) e entra o Sporting Kansas City.
Não é o primeiro caso de time da MLS com nome parecido com de equipes europeias, deixando de lado o tradicional “nome da cidade/estado + apelido/mascote”. Logo na fundação da liga, o DC United já fazia isso – o Miami Fusion FC ficou no meio do caminho. O Dallas Burn virou FC Dallas nessa mesma filosofia. E franquias novas, como Toronto FC e Real Salt Lake, já surgiram com esse toque do outro lado do Atlântico.
No entanto, o caso do Sporting KC não é apenas uma mudança de nome. É a tentativa de criar um novo conceito de trabalho em equipes esportivas. A preferência do “Sporting” pelo “FC” não foi casual. A ideia é ter um nome menos específico para o futebol. Com uma denominação esportivamente mais genérica, o Kansas terá mais liberdade para trafegar em outras modalidades. Rúgbi e lacrosse são os primeiros objetivos, mas outras equipes de ligas menores podem surgir.
Para impulsionar esse projeto, os dirigentes usarão a inauguração do moderníssimo estádio KC Soccer, feito especialmente para futebol (atualmente o time usa um campo de beisebol adaptado), em 2011. Com uma sede própria, a franquia buscará ações locais, impulsionando a prática de esportes dentro da comunidade para tirar daí seus torcedores e, eventualmente, novos atletas.
Esse sistema de trabalho é muito parecido com o de clubes sociais, como os que existem na América Latina e em partes da Europa (Real Madrid, Barcelona, Panathinaikos…). A instituição esportiva não é apenas uma empresa que possui uma equipe em liga profissional, mas um local de aglutinação de um grupo de pessoas.
Há uma chance razoável de o projeto do Sporting Kansas City fracassar e retroceder um pouco, até porque surge em um mercado menor e mais tradicionalista (em comparação a centros mais cosmopolitas como Nova York, Los Angeles, Chicago ou San Francisco). Mesmo assim, é um movimento corajoso, e que mostra que o caminho do futebol nos Estados Unidos é se misturar com o resto do mundo, e não se fechar em elementos locais.
Texto originalmente publicado no Balípodo