Serra Leoa: Política e futebol
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Em 2002, encerrou-se em Serra Leoa uma guerra civil que durou cerca de dez anos. Seu fim foi possível graças à intervenção da maior tropa já enviada pelas Nações Unidas a um país. Ao lado da força militar britânica, ela desarmou os 45 mil soldados rebeldes que, durante o conflito, foram responsáveis por quase 50 mil mortes, além de outros crimes brutais que continuam sendo avaliados por uma corte formada por autoridades serra-leonesas e internacionais.
Desde a conquista de sua independência, em 1961, Serra Leoa manteve uma relativa estabilidade, que somente foi interrompida com a guerra civil. No momento, a nação situada no oeste da África se prepara para a realização de sua segunda eleição presidencial, depois de firmada a paz. As Nações Unidas acompanham atentamente esse processo eleitoral e, inclusive, solicitaram aos candidatos que eles não trocassem provocações entre si para que nenhum caso de violência acontecesse.
Um dos candidatos mais fortes é o atual vice-presidente, Solomon Berewa. Como é comum no período pré-eleição, ele está fazendo diversas promessas aos eleitores serra-leonenses e destacou em uma de suas entrevistas que, se eleito, iniciará uma reestruturação na SLFA (Associação de Futebol de Serra Leoa). Assim, Berewa acredita que Serra Leoa se converterá em uma das melhores seleções do continente africano.
O esporte favorito dos serra-leoneses atravessa uma fase muito complicada. Sem chances de se classificar para a próxima CAN, os Leone Stars não encontram o devido apoio na SLFA. Constantemente criticada pelos atletas e pela imprensa nacional, a seleção continua sendo alvo de interferências externas. Em julho, a federação foi suspensa pelo ministro dos esportes, Dennis Bright. Mas a suspensão foi prontamente anulada pelo presidente Kabbah, então receoso por uma possível punição da Fifa.
À espera de mudanças
Fundada em 1967, a SLFA filiou-se à Fifa no mesmo ano. Serra Leoa, então, disputou sem sucesso as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974. Passaram-se mais de 30 anos, e ela ainda busca se classificar para seu primeiro Mundial. À exceção de 1990 e 1994, quando enfrentavam dificuldades financeiras, os serra-leonenses estiveram presentes em todas as eliminatórias.
O panorama apresenta-se mais positivo na CAN. Ao contrário do corrente momento, no qual os Leone Stars não são nem mesmo capazes de suscitar confiança em seus torcedores, houve um período na década passada em que se criou a esperança de o futebol local, enfim, se desenvolver e fazer frente às maiores forças africanas. Em 1994 e 1996, Serra Leoa conseguiu avançar para a fase final da competição continental, mas não cumpriu uma campanha decente.
Ainda no cenário africano, ela conquistou seus dois maiores títulos, também alcançados nos anos 90. A seleção serra-leonesa venceu a Taça Amílcar Cabral, em 1993 e 1995. Essa é uma competição disputada pelas nações do oeste africano e que conta com Senegal, Mali e Guiné, entre outras equipes. A exemplo das Copas Cosafa e Cecafa, ela nem sempre é tratada com interesse por seus participantes.
As competições mais importantes, no entanto, têm passado longe do alcance dos serra-leoneses. A SLFA é uma das maiores responsáveis por esses consecutivos fracassos. Ela se notabilizou por seu descaso com o futebol local nos últimos anos. Em virtude disso, o atual presidente da federação, o ex-zagueiro Nahim Khadi, é questionado a todo o momento. Antes mesmo de ser eleito, ele não era visto como um bom nome para suceder a Justice Tolla Thompson, de administração ruim também. Dentre as razões apontadas, constava o fato de Khadi não ter nenhuma experiência na área.
Ex-treinador da seleção, sua eleição foi apoiada pelo maior craque do futebol serra-leonês, Mohamed Kallon. Apesar da confiança do ex-atacante da Internazionale, ele não soube conduzir a crise que o esporte atravessava em 2004 e, também, não está apresentando indícios de que contribuirá para a resolução dos entraves correntes.
Há quem defenda uma interferência do governo na SLFA, ainda que ela acarrete numa punição da Fifa. Ao menos, seria possível reiniciar todo um trabalho mal feito após o fim da guerra civil.
Uma safra promissora
Mohamed Kallon é possivelmente o maior nome de todos os tempos do futebol serra-leonês. Além de contar com uma qualidade incontestável, o atacante do Monaco exerce uma liderança muito positiva entre seus companheiros. Sua experiência é fundamental para o desenvolvimento dos diversos garotos com que a seleção conta atualmente.
A maior parte deles surgiu no Mundial sub-17, disputado em 2003, na Finlândia. Um dos destaques dessa competição, Sheriff Suma, desponta como uma das principais esperanças para o ataque de Serra Leoa. O técnico Leroy Rosenior, inclusive, o convocou para as eliminatórias da CAN. Ao lado de Kallon, ele pode compor uma dupla promissora na seleção. Outros, como o defensor Albert Jarrett, do Wattford, também desempenham papéis importantes em campo.
Rosenior, ao que parece, não deverá continuar no posto. O acordo assinado entre ele e a SLFA era para apenas dois compromissos – contra Togo e Mali. Como ele perdeu as duas partidas, seu vínculo provavelmente não será renovado. Assim, aumentam as chances de Jebor Sherrigton assumir o cargo. Detalhe: Sherrigton comandou a equipe antes de Rosenior chegar.
No que diz respeito aos clubes, o FC Kallon é o mais bem estruturado, em decorrência, sobretudo, do apoio do dono Mohamed Kallon. Esse apoio possibilitou à equipe fazer uma boa participação na Liga dos Campeões da África de 2007. Além de ter eliminado o Ocean Boys, campeão nigeriano, o FC Kallon não esmoreceu diante do Asec Mimosas, na fase seguinte. O representante marfinense, por sinal, havia derrubado outra formação serra-leonesa – o East and Lions – na edição anterior da competição. Ao lado do Mighty Blackpool, ele é o time mais vitorioso do país. Não por coincidência, os três clubes mencionados são de Freetown, capital de Serra Leoa.
Como o interesse dos torcedores pelo futebol local caiu com a guerra civil e as dificuldades de organização da SLFA, cresceu a atração pelo europeu. Aos poucos, contudo, eles estão retomando o hábito de freqüentar os estádios nacionais.
Uma reestruturação da federação compreendendo a entrada de pessoas realmente compromissadas com os rumos do futebol em Serra Leoa provavelmente proporcionará uma melhora substancial na situação atual.