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Rodrigo Barroca: Vida no Qatar

Os brasileiros Rodrigo “Barroca”, preparador de goleiros, e Rúbio Alencar, preparador físico, atuam na emergente Liga do Qatar. Ambos fazem parte da comissão técnica do Al-Shamal. Neste bate-papo, o animado Barroca, ex-Corinthians, e o ponderado Rúbio, gaúcho de Caxias do Sul, contam como é o futebol de uma das ligas mais ricas da Ásia.

Você foi eleito duas vezes seguidas o melhor treinador de goleiros da Qatari League jogando por uma equipe que fica longe das taças como o Al-Shamal. Como você deu a volta por cima depois de abandonar precocemente a carreira como goleiro profissional?
Barroca –
Tive graves contusões nos tornozelos que ainda me acompanham até hoje. Parei de jogar muito cedo depois de passar pelas categorias de base e profissional de equipes como o Corinthians, Portuguesa e CFZ. Iniciei a carreira de preparador de goleiros aos 23 anos (hoje tem 30). Dei uma rodada por clubes do interior de São Paulo e estou no Qatar desde 2003. A profissão de treinador de goleiros ainda é muito nova, algumas equipes nem tem na base este trabalho, mas a necessidade esta fazendo os clubes investirem nisso, tanto que de 5 anos pra cá, iniciaram as transferências de treinadores de goleiros pro exterior. Isso quase não acontecia antigamente. No Brasil os treinadores de goleiros nem no banco ficam e no exterior nós ficamos normalmente no banco de reservas e o treinador de goleiros tem 100% de responsabilidade e autonomia pra trabalhar e escalar os goleiros, nós somos muito mais valorizados aqui fora.

Que realidade um profissional que sai do Brasil encontra no Qatar, em termos de estrutura e profissionalismo?
Barroca –
No Qatar as estruturas dos clubes são como na Europa, com grandes Estádios, C.T. com vários campos e estruturas como academias , fisioterapia, piscina etc…..Hoje o Qatar é um dos paises que mais investem em jogadores e comissão técnica para a divulgação e melhor nível técnico da Liga.

O Al-Shamal é o clube mais jovem da Qatari League, foi fundado em 1980, e nunca venceu um título nacional. O que falta para isso acontecer?
Barroca –
Bom, hoje no Qatar os clubes têm uma grande estrutura com os ´sheik´s´que investem pesado em seus clubes, e o Al-Shamal não tem ´Sheik´, sendo assim depende da federação pra tudo, até em contratações… Onde por ser o caçula dos clubes acaba tendo menos ajuda que os outros, e toda temporada fica fora da briga pelo titulo.

O Al-Saad é o atual campeão e, com Felipe (ex-Vasco e Flamengo), Emerson (ex-São Paulo) e Tenorio (seleção do Equador), parece ter o melhor time do país. Quais equipes podem bater de frente com o Al-Saad na Qatari League 2006/7?
Barroca –
O Al-Saad é a grande potencia do país, não só com as estrelas estrangeiras, mas eles têm 90% dos jogadores locais da seleção do Qatar, assim formam um grande grupo. Acho que esta temporada o único clube que vai brigar com eles é o Al Garafa (do Rodrigo Mendes, ex-Flamengo e Grêmio) que também tem como dono o presidente da federação. Eles montaram também uma grande equipe, e acho que as outras equipe se prepararam muito mal esta temporada e mesmo sendo uma longa liga, vai ser difícil brigar com estes 2 clubes (Al-Saad e Al Garafa).

Logo na primeira rodada, sua equipe perdeu para o Al-Saad por 3 a 0. Nessa partida, o Emerson fez dois gols e dribles desconcertantes. Ele parece estar se encaixando na Qatari League depois de uma estréia (2005/6) de pouco brilho, não é?
Barroca –
O Emerson é um grande atacante, com o Felipe na meia fica até mais fácil. Ele já tinha sido o melhor jogador no Japão (jogou no Consadole Sapporo e Urawa Reds) e agora se preparou bem para esta temporada e começou muito bem, fazendo dois gols contra meu clube – um deles muito bonito.

Muitos chamam a Qatari League de ´cemiterio de elefantes´ porque muitos jogadores em fim de carreira foram jogar aí, como os irmãos De Boer, Batistuta, Guardiola, Effenberg e Hierro. Essas estrelas se esforçam nos jogos mesmo, ou só ´enganam´?
Barroca –
Bom, eles sempre trazem grandes estrelas por contratos milionários, mas acredito que 80% deles ainda vêm pra fazer uma grande temporada. No meu clube, os irmãos De Boer fizeram uma grande temporada passada, mas esta temporada estão vindo jogadores também que estão em grande fase, jogadores que jogaram esta copa do mundo, etc… Penso que isso vai contribuir ainda mais com a melhora da Liga do Qatar.

A única vez que um clube do Qatar foi campeão asiático de clubes foi o Al-Saad, em 1988. O que falta para chegar no mesmo nível dos clubes de Arábia Saudita, Japão e Coréia do Sul?
Barroca –
Os clubes japoneses e coreanos têm grandes estruturas e grandes profissionais e estão na nossa frente ainda… A Arábia Saudita tem tradição antiga no futebol, eles já vivem futebol no dia-dia e são mais experientes e profissionais em relação ao Qatar.

Ano passado, a Federação do Qatar fez uma proposta para o brasileiro Ailton se naturalizar e defender a seleção do Qatar. Recentemente, Luisinho Lemos, que treinou o Al-Rayyan, disse que não há jogadores de qualidade nascidos no Qatar. O nível dos jogadores da seleção do Qatar é ruim?
Rúbio –
Pelo que analisei até agora, os jogadores necessitam de um trabalho técnico e físico mais qualificado. Aqui no Al-Shamal eu acredito que iremos contribuir muito para que isso aconteça.

Os irmãos De Boer sempre foram apontados como profissionais exemplares. Como é trabalhar com eles?
Rúbio –
Eles são fantásticos! O Frank abandonou a carreira e está trabalhando nas divisões de base do Ajax. Já o Ronald está conosco e o considero um exemplo para todos os jogadores com profissionalismo em mente, que querem sempre melhorar. Interessante que o sistema de trabalho do Ajax influencia na forma dele pensar futebol até hoje.

Como vocês superam as dificuldades com o idioma para trabalhar no Qatar e como é o contato de vocês com a religião islâmica?
Rúbio –
Nossa comunicação é sempre em inglês. Temos que nos esforçar para nos adaptar ao sistema religioso. Exemplo maior será agora no Ramadã (novembro), enfim, temos que respeitar…

O iraquiano Younis do Al-Gharafa é um goleador tremendo. Talvez o melhor jogador do país da atualidade. Ele é muito cobiçado por outras equipes?
Rúbio –
Jogamos contra ele no último jogo! Tem um excelente posicionamento dentro da área e sua qualidade é indiscutível. Há clubes interessados sim. É um jogador que pode fazer nome no futebol.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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